Em 1964, um grupo de pesquisadores liderado por G. V. Mann publicou um levantamento de campo com uma pergunta simples e direta: se uma população tradicionalmente descrita como consumidora de carne e leite por longos períodos apresentaria, como consequência “esperada”, colesterol sérico elevado e sinais de doença aterosclerótica. O pano de fundo era a ideia, muito difundida à época, de que a ingestão de gordura de origem animal levaria inevitavelmente à hipercolesterolemia e, por extensão, à aterosclerose.
Quem foi avaliado e como o estudo foi feito
O trabalho descreve um levantamento de campo realizado por quatro semanas em 1962, envolvendo cerca de 400 homens masai, além de avaliações adicionais em mulheres e crianças, com parte do grupo revisitada em 1963 (em período de maior produção de leite). O protocolo incluiu exame clínico, medidas corporais e avaliação cardiovascular, com registro de pressão arterial e achados como eletrocardiograma (ECG).
O que o artigo descreve sobre a dieta, com mais detalhes
A parte mais valiosa do estudo, para quem busca entender “o que eles comiam”, não é um cardápio rígido. É justamente o reconhecimento de que medir ingestão com precisão era extremamente difícil naquele contexto. Os autores relatam obstáculos práticos: ausência de unidades padronizadas, utensílios e recipientes de tamanhos variados, padrão alimentar irregular e mudanças no comportamento quando alguém observava.
Mesmo com essas limitações, o artigo registra aspectos consistentes do padrão alimentar tradicional observado:
1) Predomínio de leite e carne em parte importante da vida
O estudo afirma que, especialmente entre os murran (classe guerreira), havia a tradição de uma dieta de carne e leite por cerca de duas décadas, descrita como sem consumo de produtos vegetais nesse período de vida.
2) “Dias de leite” e “dias de carne”, sem mistura no mesmo dia
Um detalhe marcante relatado é que os murran consumiam ou leite ou carne em um dia, “nunca misturando”, e que os dias de leite eram mais frequentes do que os dias de carne, numa razão aproximada de 3:1, variando conforme a disponibilidade.
3) Estimativas indiretas de consumo por urina de 24 horas
Como a quantificação direta era instável, o estudo tentou inferir consumo, em parte, por coleta de urina de 24 horas, estimando ingestão proteica via nitrogênio urinário e verificando a completude pela creatinina.
Com uma suposição específica (dia composto apenas por leite), os autores propõem que uma excreção de 20 g de nitrogênio corresponderia a mais de 3 litros de leite, e informam análises do leite: proteína entre 3,8% e 4,4% e gordura ligeiramente abaixo de 6%. A partir disso, estimam que cerca de 3125 ml poderiam fornecer aproximadamente 187,5 g de gordura láctea.
4) “Banquetes de carne” com grandes quantidades
O artigo também descreve ocasiões de consumo de carne em grande volume: em dias de mercado ou celebração, observou-se ingestão de 2 a 5 kg (ou mais) de carne bovina gordurosa, ainda que sem mensuração formal contínua.
Em paralelo, os autores relatam o uso de um chá (kiloriti) feito com casca de acácia (mencionada como Acacia abyssinica ou Acacia albica) junto com a carne, descrito como estratégia cultural associada a essas ocasiões.
5) Sangue: consumo menos central do que a “fama”
O estudo afirma que o papel “lendário” do sangue na dieta masai pode ter sido superestimado. A coleta de sangue do gado é descrita como ocasional, usada em situações específicas, como escassez de leite, ou em momentos em que o sangue tornaria a alta ingestão de leite “mais agradável”.
6) Sal: uma observação direta do artigo
O artigo registra que os masai não usavam sal e que a língua deles não teria uma palavra para “sal”, sugerindo que a carne e o leite seriam fontes suficientes do que chamam de “sal”.
7) Indícios de variação e possível mudança alimentar em parte dos mais velhos
Embora o texto destaque a dieta de carne e leite, há sinais de heterogeneidade. Em um trecho clínico, os autores comentam que certas alterações orais eram mais comuns após os 35 anos, “talvez refletindo” adoção de uma dieta vegetal em alguns homens mais velhos.
Além disso, a própria tabela de coletas de urina inclui registros de “dieta” no dia da coleta que não se restringem a leite/carne (por exemplo, anotações como “peanuts+meal” e “meal” em alguns indivíduos), o que reforça que o levantamento captou dias e pessoas com consumo diferente do estereótipo de exclusividade absoluta.
Como essas informações dietéticas se conectam aos resultados centrais
Com essa descrição alimentar (e com todas as limitações de mensuração reconhecidas), o estudo relata que os homens avaliados apresentaram, em média, níveis baixos de colesterol sérico, com poucos indivíduos acima de 200 mg/100 ml, e pouca evidência clínica de doença aterosclerótica no conjunto avaliado.
Ao interpretar os achados, os próprios autores discutem que os dados observados não sustentariam a ideia de uma ligação “necessária” entre alto consumo de alimentos de origem animal e doença coronariana, mas reconhecem limitações importantes, incluindo a ausência de confirmação anatômica por autópsia no grupo estudado.
