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Estévia e cálculos urinários: primeiros casos humanos contendo esteviol

Pesquisadores identificaram os primeiros cálculos urinários humanos contendo esteviol, metabólito dos adoçantes derivados da estévia.

Representação de adoçante de estévia e cálculo urinário para ilustrar o primeiro relato de pedras contendo esteviol

O achado foi publicado em 2026 na revista Urology Case Reports, após a análise de seis cálculos provenientes de cinco pessoas. O estudo não demonstra que o consumo habitual de estévia provoque pedras nos rins. Ele mostra algo mais específico: em determinadas circunstâncias, o esteviol pode aparecer na urina em uma forma capaz de cristalizar e integrar cálculos urinários.

O que foi encontrado

Entre junho de 2024 e junho de 2025, um laboratório especializado recebeu seis cálculos cuja composição não correspondia completamente às substâncias normalmente encontradas nesse tipo de material.

Quatro amostras misturavam o composto desconhecido com oxalato de cálcio ou fosfato de cálcio. Outras duas eram formadas integralmente pela substância ainda não identificada. Os cálculos pertenciam a cinco pacientes com idades entre 46 e 76 anos; um deles apresentou duas amostras retiradas da bexiga em momentos diferentes.

Depois das análises químicas, os pesquisadores concluíram que a substância era o esteviol, estrutura molecular formada durante o metabolismo dos glicosídeos de esteviol presentes nos adoçantes de estévia.

Como os pesquisadores confirmaram a composição

As pedras foram pulverizadas e avaliadas inicialmente por espectroscopia no infravermelho. Como o padrão obtido não correspondia às substâncias registradas na biblioteca do laboratório, parte do material passou por cromatografia líquida, espectrometria de massas de alta resolução, espectrometria de massas em tandem e ressonância magnética nuclear.

Os resultados químicos coincidiram com a fórmula e o padrão estrutural do esteviol. Em seguida, um padrão de referência da substância foi analisado por infravermelho e apresentou o mesmo perfil observado nos cálculos. Os gráficos da página 2 do artigo mostram a correspondência entre o padrão de esteviol e o material retirado das pedras, reforçando a identificação química.

Quanto de estévia os pacientes consumiam

Os pesquisadores conseguiram entrevistar quatro dos cinco pacientes. Todos relataram comprar adoçantes de estévia em pó ou em formulações líquidas e utilizá-los repetidamente em alimentos e bebidas.

Com base na frequência de reposição dos produtos e no número de porções informado pelos fabricantes, o consumo estimado foi de 34, 60, 68 e mais de 88 porções por dia. Um dos pacientes também consumia refrigerantes ou iogurtes adoçados com estévia, mas a principal exposição parecia vir dos produtos concentrados em pó ou líquido.

Esses números precisam ser interpretados com cuidado. “Porção” era a medida definida pelo fabricante e não uma quantidade padronizada de esteviol. Em uma das formulações, por exemplo, a porção correspondia a quatro gotas, mas o rótulo não informava quantos miligramas do composto estavam presentes.

Os autores citam uma ingestão diária aceitável de até 4 miligramas de esteviol por quilo de peso corporal, conforme referência do comitê conjunto da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura e da Organização Mundial da Saúde. Entretanto, a ausência da quantidade em miligramas nos rótulos impediu qualquer comparação confiável entre o consumo dos pacientes e esse limite.

Como o esteviol pode chegar à urina

Os principais compostos doces da estévia, como esteviosídeo e rebaudiosídeo A, não são completamente degradados pelas enzimas humanas. Eles chegam ao intestino grosso, onde bactérias intestinais os transformam em esteviol.

Normalmente, o organismo converte o esteviol em uma forma conjugada, chamada glicuronídeo de esteviol, que é mais solúvel e pode ser eliminada na urina. Nos cálculos descritos, porém, foi encontrado esteviol livre, não glicuronidado. Essa forma é menos solúvel e, segundo os autores, poderia precipitar e formar cristais.

O estudo não esclarece por que isso ocorreu apenas em algumas pessoas. Diferenças individuais no metabolismo intestinal, na absorção e na conjugação do esteviol podem ter participado do processo. Também permanece desconhecido se a formação das pedras depende diretamente da dose.

O que isso significa na prática

O relato não permite concluir que a estévia seja uma causa comum de cálculo renal ou urinário. Foram apenas cinco pacientes, sem grupo de comparação e sem informação sobre quantas pessoas utilizavam quantidades semelhantes sem desenvolver pedras.

O resultado, no entanto, confirma que o esteviol pode compor um cálculo humano. Essa informação é relevante para laboratórios e médicos porque uma pedra formada por substância incomum pode passar despercebida quando o padrão químico ainda não está incluído nas bibliotecas de análise.

Em pessoas com cálculos recorrentes e consumo muito elevado de adoçantes de estévia, o histórico de uso pode ser informado ao urologista. A análise da composição da pedra também pode ajudar a orientar a investigação. Os próprios autores sugerem que mudanças dietéticas sejam consideradas quando o esteviol for identificado, embora o estudo não determine uma dose segura nem comprove que a interrupção evite novos episódios.

Limitações do estudo

O trabalho é uma série pequena de casos. O histórico alimentar foi obtido em apenas quatro pacientes e o consumo foi estimado indiretamente pela compra dos produtos. Não havia informação confiável sobre a quantidade de esteviol em miligramas, e o artigo não apresenta uma avaliação metabólica urinária completa de cada participante.

Também não foi possível calcular a frequência desse tipo de cálculo entre consumidores de estévia. Portanto, o estudo identifica uma nova composição de pedra urinária, mas não mede o risco para a população geral.

Em resumo

Seis cálculos de cinco pessoas continham esteviol, e quatro pacientes entrevistados relataram consumir dezenas de porções de adoçante de estévia por dia. A identificação química foi consistente, mas a relação entre dose e formação de pedras permanece incerta.

Algumas gotas ocasionais e mais de 30 porções diárias representam exposições muito diferentes. O alerta científico se concentra no uso extremamente elevado, não no consumo habitual, que não foi avaliado por esse estudo.

Conclusão

O artigo registra os primeiros cálculos urinários humanos contendo esteviol. O achado amplia o conhecimento sobre pedras formadas por substâncias exógenas e reforça a importância de investigar suplementos e adoçantes usados em grande quantidade. Ao mesmo tempo, os dados ainda são insuficientes para afirmar que a estévia, em doses usuais, aumenta o risco de cálculo renal.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.eucr.2026.103563

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