A gordura trans presente naturalmente em leite, queijo e manteiga não se comportou, nas evidências reunidas por uma revisão de 2026, como a gordura trans industrial produzida por hidrogenação parcial de óleos. A análise reuniu ensaios clínicos randomizados e estudos prospectivos e, no conjunto, não encontrou piora relevante dos principais marcadores lipídicos nem associação com maior risco cardiovascular ou diabetes tipo 2. A conclusão, porém, exige algumas ressalvas importantes sobre doses, tipos de ácidos graxos avaliados e desenho dos estudos.
Gordura trans industrial e gordura trans de ruminantes não são a mesma coisa
O termo gordura trans costuma ser tratado como se descrevesse uma única substância. Na prática, existem diferentes ácidos graxos trans e diferentes fontes alimentares.
As gorduras trans industriais foram historicamente produzidas pela hidrogenação parcial de óleos vegetais. Seu consumo elevado está associado a maior risco cardiovascular, razão pela qual vários países restringiram ou praticamente eliminaram esses produtos.
Leite e carne de animais ruminantes, por outro lado, contêm pequenas quantidades de gorduras trans produzidas naturalmente pela fermentação no rúmen. Entre elas estão principalmente o ácido vacênico e o ácido rumênico, uma forma de ácido linoleico conjugado (CLA). O ácido trans-palmitoleico também aparece em pequenas quantidades.
A revisão publicada em 2026 na Nutrition Research procurou justamente avaliar se essas gorduras trans naturalmente presentes nos laticínios apresentam os mesmos efeitos cardiometabólicos atribuídos às gorduras trans industriais.
O que os ensaios clínicos encontraram
Os autores identificaram 10 ensaios clínicos randomizados. Neles, participantes consumiram leite, manteiga, queijo ou outros laticínios produzidos com leite de animais cuja alimentação havia sido modificada para aumentar naturalmente o teor de gordura trans.
As intervenções duraram de aproximadamente três a 12 semanas. O consumo total de gordura trans nos grupos experimentais variou bastante, chegando de 1,3 a 13,2 g por dia em alguns estudos.
A meta-análise não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os laticínios enriquecidos e os convencionais para:
- LDL-colesterol;
- triglicerídeos;
- ApoB;
- ApoA1;
- relação colesterol total/HDL-colesterol;
- relação LDL-colesterol/HDL-colesterol.
Houve uma redução pequena no HDL-colesterol, de aproximadamente 0,05 mmol/L, mas esse resultado deixou de ser significativo em algumas análises de sensibilidade realizadas separadamente por tipo de laticínio. Por isso, não é possível tratá-lo como um efeito robusto.
Também não houve aumento significativo do LDL-colesterol na análise agrupada. Esse ponto é particularmente relevante porque o LDL e a ApoB estão entre os marcadores mais diretamente relacionados ao risco aterosclerótico.
Uma dose muito alta produziu um resultado diferente
Os resultados médios não significam que qualquer quantidade de gordura trans de ruminantes seja necessariamente neutra.
Em um dos ensaios mais controlados, homens saudáveis consumiram mais de 13 g por dia de gordura trans de origem ruminal. Nessa condição, houve aumento do LDL-colesterol e da relação LDL/HDL em comparação ao grupo controle.
Essa quantidade está muito acima da exposição habitual proveniente de laticínios convencionais. O achado sugere que a dose pode importar e impede a interpretação simplista de que gorduras trans naturais seriam biologicamente irrelevantes em qualquer quantidade.
Os estudos de longo prazo também não mostraram maior risco cardiovascular
A revisão incluiu ainda 12 estudos prospectivos de coorte. Em vez de perguntar aos participantes quanto leite ou queijo consumiam, esses trabalhos mediram ácidos graxos trans no sangue ou em outros tecidos e acompanharam a ocorrência de doenças ao longo do tempo.
Esse método reduz alguns dos problemas dos tradicionais questionários alimentares, embora continue sendo observacional.
As concentrações circulantes de ácido trans-palmitoleico ou ácido vacênico não apresentaram associação consistente com maior incidência de doença cardiovascular, doença coronariana, acidente vascular cerebral ou mortalidade cardiovascular.
Para diabetes tipo 2, o cenário foi ainda mais curioso. Alguns estudos encontraram associação entre concentrações mais elevadas de ácido trans-palmitoleico e menor incidência de diabetes, enquanto outros não encontraram associação significativa.
Esses resultados não demonstram que a gordura trans dos laticínios previne diabetes. Estudos observacionais conseguem identificar associações, mas não estabelecem que um ácido graxo circulante seja a causa da diferença de risco.
Uma limitação importante está escondida na própria intervenção
Para produzir leite com maior concentração de gordura trans natural, os pesquisadores modificaram a alimentação dos animais. Isso também alterou outros componentes da gordura do leite.
Em vários ensaios, os laticínios enriquecidos em gordura trans apresentavam simultaneamente menos gordura saturada e mais gorduras monoinsaturadas ou poli-insaturadas. Portanto, nem sempre a única diferença entre o produto experimental e o controle era a quantidade de gordura trans.
Esse detalhe dificulta atribuir qualquer mudança no colesterol exclusivamente aos ácidos graxos trans. Apenas três dos estudos conseguiram aproximar melhor a composição das demais gorduras entre as dietas.
Os ensaios também eram pequenos e relativamente curtos
Os ensaios incluíram grupos pequenos: alguns tiveram apenas dez participantes e o maior contou com pouco mais de 60 pessoas. Além disso, duraram semanas, não anos.
Por essa razão, eles conseguem avaliar alterações em colesterol, ApoB e outros marcadores, mas não foram desenhados para responder diretamente se consumir esses alimentos durante décadas modifica o número de infartos ou mortes cardiovasculares.
Todos os dez ensaios receberam classificação de “algumas preocupações” quanto ao risco de viés, principalmente porque não havia informação suficiente sobre planos de análise previamente especificados.
Os estudos observacionais mediram principalmente outro ácido graxo
Existe ainda uma diferença importante entre os dois conjuntos de evidências.
Nos ensaios clínicos, as gorduras predominantes eram principalmente ácido vacênico e ácido rumênico. Já nos estudos prospectivos, o biomarcador analisado com maior frequência foi o ácido trans-palmitoleico, que representa uma parcela bem menor da gordura trans encontrada naturalmente nos laticínios.
Portanto, os resultados observacionais não podem ser simplesmente transferidos para todos os tipos de gordura trans de ruminantes.
Financiamento e conflitos de interesse precisam entrar na interpretação
A revisão foi financiada pelo National Dairy Council, dos Estados Unidos, e pelo Centre National Interprofessionnel de l'Economie Laitière, da França.
Além disso, alguns autores trabalhavam para organizações do setor de laticínios ou haviam recebido financiamento de entidades ligadas à indústria.
Isso não invalida automaticamente os resultados, mas aumenta a importância de observar o método, os dados individuais e as limitações reconhecidas no próprio artigo, em vez de aceitar a conclusão apenas pela autoridade dos autores.
O que a evidência permite concluir
O conjunto de dados disponível não apoia a ideia de que pequenas quantidades de gordura trans naturalmente presentes em leite, manteiga e queijo tenham os mesmos efeitos cardiometabólicos atribuídos às gorduras trans industriais.
Nos ensaios clínicos, o aumento da ingestão de gordura trans proveniente de laticínios geralmente não elevou LDL-colesterol, ApoB, triglicerídeos ou as principais relações lipídicas. Nos estudos prospectivos, os biomarcadores dessas gorduras também não apresentaram associação consistente com maior risco cardiovascular.
A evidência ainda não permite afirmar que essas gorduras sejam benéficas, nem que doses muito altas sejam necessariamente neutras. Um dos ensaios encontrou alterações desfavoráveis em uma exposição superior a 13 g por dia, e os estudos disponíveis apresentam diferenças importantes entre produtos, doses e ácidos graxos avaliados.
A conclusão mais sustentada é mais restrita: nas quantidades normalmente encontradas em laticínios e nas condições estudadas até hoje, as gorduras trans naturais de ruminantes não apresentam o mesmo sinal consistente de dano cardiometabólico observado com as gorduras trans industriais.
