Ultraprocessados baratos não surgiram apenas de escolhas individuais. Eles também refletem décadas de política agrícola, produção em massa de grãos e transformação industrial de calorias baratas.
A profecia da fome
Em 1968, o livro The Population Bomb, associado a Paul R. Ehrlich, apresentou uma previsão extrema: a humanidade estaria perdendo a batalha para se alimentar, e centenas de milhões de pessoas morreriam de fome nas décadas seguintes. A obra se tornou influente no debate público sobre população, escassez e produção de alimentos.
A catástrofe global prevista não ocorreu na escala anunciada. Isso não significa que a fome tenha desaparecido. Significa que a previsão específica de colapso inevitável subestimou a capacidade de expansão agrícola, inovação tecnológica, irrigação, fertilizantes, melhoramento genético e reorganização produtiva.
A Revolução Verde
A resposta mais importante à escassez alimentar veio da chamada Revolução Verde. Norman Borlaug, agrônomo norte-americano, desenvolveu variedades de trigo de alto rendimento e resistentes a doenças, especialmente no México, antes de sua difusão em países como Índia e Paquistão. Em sua palestra do Nobel da Paz de 1970, Borlaug descreveu a elevação da produção de trigo no México como precursora da Revolução Verde na Ásia.
A atuação de instituições como as fundações Rockefeller e Ford também foi relevante na transferência de variedades, conhecimento técnico e programas agrícolas para países em risco alimentar. Registros históricos da Rockefeller Archive Center descrevem o envio de variedades mexicanas de trigo para a Índia e o papel de Borlaug e da Ford Foundation nesse processo.
Esse resultado merece ser reconhecido sem ironia. O aumento da produção agrícola reduziu o risco de fome em massa em várias regiões. A afirmação de que Borlaug teria ajudado a salvar até um bilhão de vidas é uma estimativa frequentemente citada, não uma contagem direta, mas expressa a magnitude atribuída ao impacto da Revolução Verde.
Quando produzir mais virou política permanente
O problema é que uma política criada em contexto de escassez pode permanecer ativa mesmo depois de a emergência mudar de forma. Nos Estados Unidos, a década de 1970 marcou uma virada na agricultura. Earl Butz, secretário de Agricultura durante os governos Nixon e Ford, ficou associado a frases como “get big or get out” e à orientação para plantar de cerca a cerca.
Essa lógica favoreceu escala, volume, mecanização, monoculturas e commodities agrícolas. O objetivo era produzir mais, reduzir custos e manter abastecimento abundante. O efeito indireto foi criar um ambiente muito favorável para milho, soja, trigo e outras culturas amplamente negociadas no mercado global.
Até hoje, os programas agrícolas norte-americanos continuam estruturados em torno de commodities. O próprio USDA Economic Research Service lista trigo, milho, soja e outras culturas como elegíveis em programas de apoio ligados à política agrícola.
Do excedente ao ultraprocessado
Quando há grande volume de milho, soja e trigo baratos, a indústria encontra usos para esse excedente. Milho pode ser transformado em xarope de milho rico em frutose. Soja pode ser transformada em óleo vegetal refinado. Trigo pode ser moído, refinado e usado como base de farinhas e amidos.
Esses ingredientes não explicam sozinhos todos os problemas da alimentação moderna, mas ajudam a entender a arquitetura dos ultraprocessados: produtos formulados com combinações industriais de açúcares, amidos refinados, óleos, sal, aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos. A classificação NOVA descreve ultraprocessados como formulações industriais feitas em grande parte com substâncias extraídas, modificadas ou sintetizadas a partir de alimentos.
A economia também importa. Em uma análise clássica sobre pobreza, densidade energética e custo dos alimentos, Adam Drewnowski e S. E. Specter observaram que alimentos densos em energia, feitos com grãos refinados, açúcares adicionados e gorduras, podiam fornecer muito mais calorias por dólar do que alimentos frescos. O exemplo citado no estudo é direto: cookies ou batatas chips forneciam cerca de 1.200 kcal por dólar, enquanto cenouras frescas forneciam cerca de 250 kcal por dólar.
O que os estudos mostram
Um estudo publicado no JAMA Internal Medicine avaliou adultos norte-americanos e estimou o consumo de calorias derivadas de commodities subsidiadas, incluindo milho, soja, trigo, arroz, sorgo, laticínios e animais alimentados com esses grãos. A análise encontrou associação entre maior consumo dessas calorias e maior probabilidade de alguns fatores de risco cardiometabólico. Por ser um estudo observacional transversal, ele não prova causa e efeito. Ainda assim, mostra que a estrutura de produção e subsídio pode se refletir na qualidade da dieta.
A versão pública arquivada pelo CDC do mesmo artigo também está disponível em CDC Stacks.
Outro ponto vem de ensaios clínicos sobre ultraprocessados. Em um estudo controlado conduzido por Kevin Hall e colegas, adultos internados receberam, em momentos diferentes, uma dieta ultraprocessada e uma dieta não ultraprocessada, com refeições planejadas para ter composição semelhante de calorias ofertadas, açúcar, gordura, sódio e fibras. Mesmo assim, na fase ultraprocessada, os participantes comeram cerca de 500 kcal a mais por dia e ganharam peso.
O que isso significa na prática
A história não mostra que produzir grãos foi um erro. A Revolução Verde ajudou a evitar fome em larga escala e teve papel decisivo na segurança alimentar de milhões de pessoas. O ponto é outro: quando a política agrícola transforma volume em virtude permanente, as calorias mais baratas tendem a vir de ingredientes estáveis, refináveis, transportáveis e facilmente transformáveis em produtos de prateleira.
Nesse ambiente, o alimento mais acessível nem sempre é o mais nutritivo. O consumidor passa a encontrar, por preço baixo, uma abundância de produtos feitos com açúcar, farinha refinada e óleos vegetais. Essa abundância não depende apenas de preferência individual. Ela nasce de decisões agrícolas, incentivos econômicos, tecnologia industrial, logística, marketing e disponibilidade.
Limitações dessa leitura
Essa análise não permite concluir que milho, soja ou trigo sejam automaticamente nocivos em qualquer forma ou contexto. Também não permite afirmar que subsídios agrícolas, isoladamente, causaram obesidade, diabetes ou doenças cardiovasculares. O sistema alimentar moderno é multifatorial.
A ligação mais prudente é esta: políticas de produção em massa favoreceram commodities baratas; commodities baratas favoreceram ingredientes industriais baratos; e esses ingredientes se tornaram pilares de muitos ultraprocessados. A evidência disponível sustenta essa cadeia como contexto histórico e econômico, mas não como explicação única para todos os problemas metabólicos atuais.
Em resumo
A profecia de fome em massa de 1968 falhou em sua forma mais dramática porque a produção agrícola cresceu de maneira extraordinária. Norman Borlaug e a Revolução Verde tiveram papel importante nessa virada.
Mas a resposta à escassez deixou uma herança ambígua. A mesma lógica de produzir mais, sempre mais, ajudou a construir um sistema em que açúcar, amido refinado e óleos vegetais se tornaram calorias baratas, abundantes e fáceis de transformar em ultraprocessados.
A fome prevista não dominou o mundo como anunciado. O que permaneceu foi uma máquina alimentar baseada em volume, preço baixo e processamento intenso. Essa é uma das colheitas menos discutidas do grande medo populacional do século XX.
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