PARTE 1: EXPOSIÇÃO SOLAR NOS TESTÍCULOS E TESTOSTERONA
1.1 Contexto e origem da prática
A ideia de expor os testículos à luz solar para aumentar os níveis de testosterona ganhou popularidade nas redes sociais nos últimos anos, impulsionada por influenciadores de saúde e fitness. Embora a relação entre luz solar e hormônios sexuais tenha sido objeto de investigação científica desde a década de 1930, a prática específica de bronzeamento testicular não possui respaldo em ensaios clínicos controlados realizados em humanos.
A pele escrotal é especialmente fina e sensível à radiação ultravioleta, o que torna essa região particularmente vulnerável a danos causados pelo sol. Profissionais de dermatologia e urologia têm alertado publicamente sobre os riscos associados a essa prática, incluindo o potencial desenvolvimento de câncer de pele escrotal.
1.2 O estudo original de 1939 (Myerson e Neustadt)
O estudo mais antigo e frequentemente citado pelos defensores do bronzeamento testicular foi conduzido por Abraham Myerson e Rudolph Neustadt, publicado no periódico Endocrinology em julho de 1939. Nesse trabalho, os pesquisadores expuseram diferentes partes do corpo de homens à radiação ultravioleta e mediram a excreção urinária de androsterona, um metabólito da testosterona.
Desenho do estudo: Os participantes eram homens internados no Boston State Hospital com quadros depressivos. A irradiação UV foi aplicada no torso, rosto, pescoço e, em alguns casos, na região genital, por períodos de 8 a 20 minutos diários durante cinco dias.
Resultados relatados: Os pesquisadores observaram um aumento de aproximadamente 120% na excreção de androsterona após cinco dias de irradiação no torso, e de cerca de 200% após oito dias de exposição incluindo a região genital.
Limitações críticas: A amostra era muito pequena e composta exclusivamente por homens com transtornos psiquiátricos, o que compromete a generalização. Não havia grupo controle adequado. O método de medição (androsterona urinária) não é equivalente à dosagem moderna de testosterona sérica. O estudo não foi randomizado nem cego. As condições experimentais diferem drasticamente dos padrões metodológicos atuais.
Referência: Myerson A, Neustadt R. Influence of ultraviolet irradiation upon excretion of sex hormones in the male. Endocrinology. 1939;25(1):7-12. DOI: 10.1210/endo-25-1-7
1.3 Estudo sobre eixo pele-cérebro-gônadas (Parikh et al., 2021)
O estudo mais robusto e recente sobre a relação entre luz ultravioleta e hormônios sexuais foi conduzido por pesquisadores israelenses e publicado na revista Cell Reports em agosto de 2021. Este trabalho combinou modelos animais com dados observacionais em humanos e propõe a existência de um eixo pele-cérebro-gônadas mediado pela luz UVB.
Fase animal: Camundongos com o dorso raspado foram expostos a doses suberitematosas de UVB (50 mJ/cm² diários, equivalentes a 20-30 minutos de sol ao meio-dia) por oito semanas. Nos machos, os níveis plasmáticos de testosterona aumentaram significativamente. Nas fêmeas, houve aumento dos níveis de hormônios do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, ovários maiores e extensão dos dias de estro.
Mecanismo identificado: Os efeitos eram mediados pela ativação da proteína p53 nos queratinócitos epidérmicos. Quando o gene p53 foi silenciado especificamente nas células da pele (knockout condicional), os efeitos da UVB sobre os hormônios sexuais foram abolidos, confirmando que a pele atua como órgão endócrino intermediário.
Fase humana (observacional): Foram recrutados 19 voluntários (9 homens e 10 mulheres) que evitaram exposição solar por dois dias e depois ficaram ao sol por aproximadamente 25 minutos. A análise proteômica do sangue revelou ativação positiva de reguladores upstream de beta-estradiol, progesterona e testosterona. Além disso, dados de 13.086 homens de 21 a 25 anos dos serviços de saúde Maccabi mostraram variação sazonal significativa da testosterona, com pico no verão (julho).
Limitações importantes: A exposição foi realizada na pele do dorso dos camundongos e na pele exposta geral dos humanos, não especificamente nos testículos. Os dados humanos são correlacionais, não permitem estabelecer causalidade direta. O estudo não avaliou riscos de longo prazo da exposição UV.
Referência: Parikh R, Sorek E, Parikh S, et al. Skin exposure to UVB light induces a skin-brain-gonad axis and sexual behavior. Cell Rep. 2021;36(8):109579. PubMed: 34433056
1.4 Estudo piloto em homens idosos (Emamjomeh, 2018)
Uma dissertação de mestrado da California State University avaliou o efeito agudo da exposição à luz UV sobre a testosterona pós-exercício resistido em homens idosos.
Desenho: Seis homens (média de 62 anos) realizaram duas sessões idênticas de exercício resistido em máquinas pneumáticas, separadas por uma semana. Em uma sessão, foram expostos à luz UV artificial por 10 minutos durante a recuperação; na outra, fizeram recuperação passiva sem UV.
Resultados: Não foram observadas diferenças significativas nos níveis de testosterona ou vitamina D entre as duas condições. Os autores sugeriram que a exposição aguda e única pode ser insuficiente para produzir efeitos mensuráveis, especialmente considerando que os participantes não apresentavam deficiência prévia de vitamina D.
Limitações: Amostra extremamente pequena (n=6), exposição única e breve (10 minutos), áreas de pele expostas limitadas (rosto, pescoço, braços e pernas), sem exposição genital.
Referência: Emamjomeh S. The Effects of Acute Ultraviolet Light Exposure on Post-Resistance Exercise Testosterone Levels in Older Men. Dissertação. California State University. 2018. PMC: 7241626
1.5 Terapia de luz brilhante e desejo sexual (Fagiolini et al., 2016)
Um ensaio clínico piloto randomizado e controlado por placebo conduzido na Universidade de Siena, Itália, investigou o efeito da exposição à luz brilhante (não UV, não direcionada aos testículos) sobre a testosterona e satisfação sexual em homens com baixo desejo sexual.
Desenho: Trinta e oito homens diagnosticados com transtorno de desejo sexual hipoativo ou transtorno de excitação sexual foram divididos em dois grupos. O grupo ativo usou uma caixa de luz de 10.000 lux (com filtro UV) por 30 minutos todas as manhãs ao acordar por duas semanas. O grupo controle usou uma caixa de luz modificada que emitia apenas 100 lux.
Resultados: O grupo tratado com luz brilhante apresentou aumento da testosterona de 2,1 ng/ml para 3,6 ng/ml (aumento de mais de 50%), enquanto o grupo controle não apresentou alteração significativa (2,3 ng/ml no início e ao final). A satisfação sexual triplicou no grupo ativo (de 2,0 para 6,3 em uma escala de 10), enquanto o grupo controle foi de 2,0 para 2,7.
Mecanismo proposto: Os pesquisadores sugeriram que a luz brilhante inibe a glândula pineal, o que pode permitir maior produção de testosterona, mimetizando o efeito sazonal do verão. A produção de testosterona naturalmente declina de novembro a abril e atinge o pico em outubro no hemisfério norte.
Limitações: Amostra pequena (38 homens). O estudo foi apresentado em congresso (ECNP 2016), mas não foi publicado em periódico revisado por pares de forma completa. Os próprios autores declararam que não estavam em posição de recomendar isso como tratamento clínico. A luz utilizada era branca filtrada (sem UV) e direcionada aos olhos/torso, não aos testículos.
Referência: Bossini L, Caterini C, Koukouna D, et al. Light therapy as a treatment for sexual dysfunctions. Apresentado no 29º Congresso ECNP, Viena, 2016. PubMed (estudo preliminar 2014): 25007542
1.6 Terapia de laser de baixa intensidade em ratos (Ahn et al., 2013)
Um estudo experimental investigou os efeitos da terapia de laser de baixa intensidade (TLBI) diretamente nos testículos de ratos, utilizando dois comprimentos de onda diferentes.
Desenho: Trinta ratos Sprague-Dawley machos foram divididos em três grupos: controle, laser de 670 nm (vermelho profundo) e laser de 808 nm (infravermelho próximo). A irradiação foi aplicada diretamente nos testículos a 360 J/cm²/dia (200 mW por 30 minutos) durante cinco dias.
Resultados: A penetração tecidual foi significativamente maior no grupo de 808 nm. No entanto, o nível de testosterona sérica não foi significativamente maior nos grupos experimentais comparados ao controle de forma geral. Porém, no dia 4, o grupo de 670 nm apresentou elevação significativa da testosterona. Não houve alterações histopatológicas visíveis nos testículos.
Limitações: Estudo exclusivamente em ratos, não replicado em humanos. Amostra de 10 animais por grupo. A aplicabilidade clínica em humanos permanece não demonstrada.
Referência: Ahn JC, Kim YH, Rhee CK. The effects of low level laser therapy (LLLT) on the testis in elevating serum testosterone level in rats. Biomedical Research. 2013;24(1):28-32.
1.7 Alertas de segurança e posição da comunidade científica
Em 2022, pesquisadores da Oklahoma State University publicaram um estudo observacional no JMIR Dermatology avaliando o interesse público no bronzeamento testicular. A análise documentou um aumento de 7.252% nas buscas pelo tema após a discussão em um programa de televisão nos Estados Unidos. Os autores classificaram a prática como uma tendência de saúde sem base em evidências e potencialmente perigosa.
A urologista Ashley Winter declarou publicamente que não existem dados sobre bronzeamento testicular. A organização australiana Healthy Male também emitiu alerta semelhante. Estudos epidemiológicos holandeses já documentaram associação entre exposição UV escrotal e câncer escrotal (Verhoeven et al., 2014, J Eur Acad Dermatol Venereol).
Referência: Ottwell R, et al. Evaluating the Public’s Interest in Testicle Tanning: Observational Study. JMIR Dermatol. 2022;2(3):e39766. PubMed: 37632896
1.8 Vitamina D, exposição solar geral e testosterona
A via indireta mais estudada pela qual a exposição solar poderia influenciar a testosterona é por meio da produção de vitamina D na pele. A vitamina D é sintetizada quando a pele é exposta à luz UVB, e o trato reprodutivo masculino possui receptores de vitamina D.
Metanálise de 2024 (17 ensaios clínicos): Uma metanálise publicada na revista Diseases, que incluiu dados de 17 ensaios clínicos randomizados, concluiu que a suplementação de vitamina D aumentou significativamente os níveis de testosterona total. No entanto, não houve efeito sobre testosterona livre, FSH, LH, SHBG ou estradiol.
Ensaio clínico de Pilz et al. (2011): O estudo mais citado neste campo recrutou 54 homens com sobrepeso e deficiência de vitamina D. Após um ano de suplementação com 3.332 UI diárias de vitamina D3, houve aumento de aproximadamente 25% na testosterona total comparado ao grupo placebo.
Ensaio clínico de Lerchbaum et al. (2017): Em homens saudáveis com níveis normais de testosterona, a suplementação de vitamina D não teve efeito sobre a testosterona total, sugerindo que o benefício ocorre principalmente em homens com deficiência prévia.
Ensaio clínico de Lerchbaum et al. (2019): Em 100 homens com níveis baixos de testosterona e deficiência de vitamina D, a suplementação com 20.000 UI semanais de vitamina D3 por 12 semanas não resultou em aumento significativo da testosterona.
Randomização mendeliana (Chen et al., 2019): Uma análise de randomização mendeliana com 4.254 homens chineses sugeriu uma relação causal entre níveis geneticamente determinados de vitamina D e testosterona total, indicando que a associação não é meramente correlacional.
1.9 Resumo das evidências sobre luz e testosterona
- Myerson A, Neustadt R. Influence of UV irradiation upon excretion of sex hormones in the male. Endocrinology. 1939. DOI
- Parikh R et al. Skin exposure to UVB light induces a skin-brain-gonad axis and sexual behavior. Cell Reports. 2021. PMID: 34433056
- Emamjomeh S. Effects of Acute UV Light Exposure on Post-RE Testosterone in Older Men. Dissertação CSU. 2018. PMC: 7241626
- Bossini L, Fagiolini A et al. Light therapy as treatment for sexual dysfunctions. ECNP Congress. 2016. PMID: 25007542
- Ahn JC, Kim YH, Rhee CK. Effects of LLLT on the testis in elevating serum T level in rats. Biomedical Research. 2013;24(1):28-32.
- Ottwell R et al. Evaluating the Public’s Interest in Testicle Tanning. JMIR Dermatol. 2022. PMID: 37632896
- Pilz S et al. Effect of vitamin D supplementation on testosterone levels in men. Horm Metab Res. 2011. PMID: 21154195
- Lerchbaum E et al. Vitamin D and testosterone in healthy men: a RCT. J Clin Endocrinol Metab. 2017. PMID: 28938446
- Lerchbaum E et al. Effects of vitamin D supplementation on androgens in men with low T: a RCT. Eur J Nutr. 2019. PMID: 30460609
- Chen C et al. Causal link between vitamin D and total testosterone: Mendelian randomization. J Clin Endocrinol Metab. 2019. PMID: 30896763
- Impact of Vitamin D on Androgens in Adult Males: Meta-Analytic Review. Diseases. 2024. PMID: 39452471
PARTE 2: EXPOSIÇÃO AO FRIO, BANHOS GELADOS, GELO E TESTOSTERONA
2.1 Contexto e popularidade da prática
A imersão em água fria, os banhos gelados e a aplicação de gelo nos testículos têm sido promovidos como estratégias para aumentar a testosterona, melhorar a fertilidade masculina e otimizar a recuperação física. Essas práticas ganharam popularidade nos últimos anos através de comunidades de biohacking, influenciadores de saúde e atletas que relatam benefícios subjetivos como mais energia e sensação de vitalidade. No entanto, a evidência científica sobre o efeito direto da exposição ao frio nos níveis de testosterona é limitada, inconsistente e frequentemente contradiz as alegações populares.
2.2 Estudo de Sakamoto et al. (1991)
Um dos estudos mais citados sobre o tema foi conduzido no Japão e publicado no Nihon Eiseigaku Zasshi (Japanese Journal of Hygiene).
Desenho: Trinta e dois homens de 19 anos foram submetidos a exercício físico em bicicleta ergométrica (90 Watts por 20 minutos) e a estimulação com água fria. Os níveis séricos de testosterona, hormônio luteinizante (LH), noradrenalina e outros hormônios foram medidos antes e após cada intervenção.
Resultados: Durante o exercício físico, a testosterona sérica aumentou 20,8% (p<0,05), o LH aumentou 3,6% e a noradrenalina aumentou 140%. Durante a estimulação com água fria, a testosterona diminuiu 10%, o LH aumentou 22,1% e a noradrenalina diminuiu 23,8%. Portanto, a água fria reduziu a testosterona ao invés de aumentá-la.
Referência: Sakamoto K, Wakabayashi I, Yoshimoto S, Masui H, Katsuno S. Effects of physical exercise and cold stimulation on serum testosterone level in men. Nihon Eiseigaku Zasshi. 1991;46(2):635-638. PubMed: 1890772
2.3 Imersão em água fria pós-exercício resistido (Earp et al., 2019)
Um estudo publicado no European Journal of Applied Physiology avaliou especificamente se a imersão em água fria após exercício resistido afetaria a resposta da testosterona.
Desenho: Onze homens treinados completaram dois treinos idênticos (6 séries de 10 repetições de agachamento a 80% da carga máxima) com uma semana de intervalo. Após um treino, realizaram 15 minutos de imersão em água a 15 graus Celsius; após o outro, fizeram recuperação passiva.
Resultados: A imersão em água fria atenuou e atrasou o aumento da testosterona livre circulante. Aos 30 minutos pós-exercício, o grupo controle apresentou aumento relativo de 9,2% na testosterona, enquanto o grupo de imersão apresentou variação de -0,5% (p=0,049). Aos 60 minutos, a testosterona no grupo de imersão caiu 10,4% abaixo dos valores pré-exercício.
Conclusão dos autores: A imersão em água fria atenuou a resposta anabólica pós-exercício, o que pode ajudar a explicar a observação anterior de hipertrofia reduzida quando a imersão em água fria é utilizada regularmente após o treino.
Referência: Earp JE, Hatfield DL, Sherman A, Lee EC, Kraemer WJ. Cold-water immersion blunts and delays increases in circulating testosterone and cytokines post-resistance exercise. Eur J Appl Physiol. 2019;119(8):1901-1907. PubMed: 31222379
2.4 Sauna com imersão em água fria (Podstawski et al., 2021)
Desenho: Trinta homens jovens (19-26 anos) realizaram quatro sessões de sauna finlandesa de 12 minutos cada (90-91 graus Celsius), intercaladas com pausas de 6 minutos incluindo 1 minuto de imersão em água fria (10-11 graus Celsius). Testosterona, cortisol, DHEA-S e prolactina foram medidos antes e após.
Resultados: O cortisol diminuiu significativamente (de 13,61 para 9,67 microgramas/ml, p<0,001). A testosterona aumentou de forma não significativa (de 4,04 para 4,24 ng/ml). DHEA-S e prolactina também não apresentaram alterações significativas. Os homens com níveis mais altos de atividade física apresentaram níveis mais elevados de testosterona tanto antes quanto após a sauna.
Referência: Podstawski R, et al. Endocrine effects of repeated hot thermal stress and cold water immersion in young adult men. Am J Mens Health. 2021;15(2). PubMed: 33845653 | PMC: 8047510
2.5 Metanálise sobre imersão em água fria e hipertrofia (Piñero et al., 2024)
Uma metanálise publicada no European Journal of Sport Science revisou sistematicamente os efeitos da imersão em água fria pós-exercício sobre ganhos de hipertrofia muscular.
Achados relevantes sobre testosterona: A revisão destacou que a imersão em água fria atenua agudamente a sinalização do complexo mTORC1, a biogênese ribossômica, a síntese proteica muscular, a atividade de células satélites e os aumentos na testosterona circulante e citocinas pós-exercício. Todos esses mecanismos podem, em graus variados, impactar negativamente as adaptações musculares.
Referência: Piñero A, et al. Throwing cold water on muscle growth: A systematic review with meta-analysis of the effects of postexercise cold water immersion on resistance training-induced hypertrophy. Eur J Sport Sci. 2024;24(2).
2.6 Imersão em água fria pós-exercício em atletas (Horgan et al., 2024)
Um estudo de 12 semanas com jogadores de rugby avaliou os efeitos repetidos da imersão em água fria e água quente pós-exercício resistido sobre marcadores inflamatórios e hormonais.
Resultados: As concentrações de testosterona, cortisol e a razão testosterona/cortisol não diferiram significativamente entre os grupos de imersão em água fria, água quente ou controle ao longo das 12 semanas. Curiosamente, um efeito principal significativo de tratamento foi observado para testosterona, onde a imersão em água quente resultou em níveis maiores que o controle (p=0,012), mas a água fria não.
Referência: Horgan BG, et al. Effect of repeated post-resistance exercise cold or hot water immersion on in-season inflammatory responses in academy rugby players. Eur J Appl Physiol. 2024.
2.7 Resfriamento escrotal e fertilidade masculina
Embora o resfriamento escrotal não tenha demonstrado efeito consistente sobre a testosterona, existem evidências mais favoráveis em relação a parâmetros seminais (contagem e motilidade de espermatozoides). Os testículos necessitam de temperatura 2 a 4 graus Celsius abaixo da temperatura corporal central para produzir espermatozoides de forma ótima.
Revisão sistemática de Durairajanayagam et al. (2013)
Uma revisão sistemática que incluiu oito estudos concluiu que não havia evidência suficiente para tirar conclusões firmes sobre o impacto do resfriamento escrotal na fertilidade masculina, embora uma tendência positiva de melhora tenha sido observada na maioria dos estudos.
Referência: Durairajanayagam D, Sharma RK, du Plessis SS, Agarwal A. Testicular heat stress and sperm quality. In: Male Infertility. Springer, 2014. PubMed: 23654310
Resfriamento escrotal noturno (Jung et al., 2001)
Um estudo avaliou homens com oligoastenoteratozoospermia (baixa quantidade e qualidade de espermatozoides) submetidos a resfriamento escrotal noturno por corrente de ar por 12 semanas, combinado com mudanças comportamentais moderadas para reduzir o estresse térmico genital.
Resultados: Houve aumento altamente significativo na concentração de espermatozoides (p<0,0001) e na produção total de esperma (p<0,0001). Melhoras significativas, porém menos pronunciadas, foram observadas na motilidade e morfologia dos espermatozoides. O estudo não relatou medições de testosterona sérica.
Referência: Jung A, Eberl M, Schill WB. Improvement of semen quality by nocturnal scrotal cooling and moderate behavioural change to reduce genital heat stress in men with oligoasthenoteratozoospermia. Reproduction. 2001;121(4):595-603. PubMed: 11277880
Avaliação de dispositivos de resfriamento escrotal (2021)
Um estudo canadense avaliou a adesão e os efeitos de dispositivos comerciais de resfriamento escrotal em pacientes com infertilidade.
Resultados hormonais: Após 2 a 3 meses de uso, não houve mudança estatisticamente significativa nos níveis de testosterona total (p=0,431), FSH (p=0,542), LH (p=0,999) ou estradiol (p=0,862). A adesão ao uso foi baixa: apenas 23% dos pacientes utilizaram os dispositivos conforme recomendado.
Referência: Huynh LM, et al. Evaluation of patient compliance with the use of scrotal cooling devices. Can Urol Assoc J. 2021;15(10):E532-E537. PMC: 8441567
2.8 Hipertermia testicular e redução da testosterona
Um dado importante que contextualiza a questão térmica é que o excesso de calor nos testículos comprovadamente reduz a testosterona. Um estudo em touros Nelore demonstrou que a hipertermia testicular (isolamento escrotal por 48 horas) reduziu drasticamente as concentrações de testosterona intratesticular (de 3.119 para 295 ng/g de tecido, p<0,05), com redução da expressão de StAR, proteína crítica na produção de androgênios. Isso reafirma a importância da termorregulação testicular, mas não significa que resfriar abaixo do normal aumente a produção.
Referência: Brito LFC, et al. Testicular hyperthermia reduces testosterone concentrations and alters gene expression in testes of Nelore bulls. Theriogenology. 2020;154:26-34. PubMed: 32380276
2.9 Resumo das evidências sobre frio e testosterona
- Sakamoto K et al. Effects of physical exercise and cold stimulation on serum testosterone level in men. Nihon Eiseigaku Zasshi. 1991. PMID: 1890772
- Earp JE et al. Cold-water immersion blunts and delays increases in circulating testosterone post-RE. Eur J Appl Physiol. 2019. PMID: 31222379
- Podstawski R et al. Endocrine effects of repeated hot thermal stress and cold water immersion. Am J Mens Health. 2021. PMID: 33845653
- Piñero A et al. Effects of postexercise CWI on RT-induced hypertrophy (meta-analysis). Eur J Sport Sci. 2024.
- Horgan BG et al. Repeated post-RE cold or hot water immersion: inflammatory responses. Eur J Appl Physiol. 2024.
- Durairajanayagam D et al. Scrotal cooling and its benefits to male fertility: systematic review. PMID: 23654310
- Jung A et al. Improvement of semen quality by nocturnal scrotal cooling. Reproduction. 2001. PMID: 11277880
- Huynh LM et al. Evaluation of patient compliance with scrotal cooling devices. Can Urol Assoc J. 2021. PMC: 8441567
- Brito LFC et al. Testicular hyperthermia reduces testosterone in Nelore bulls. Theriogenology. 2020. PMID: 32380276
PARTE 3: SÍNTESE E CONCLUSÕES BASEADAS NAS EVIDÊNCIAS
3.1 Sobre exposição solar nos testículos e testosterona
Não existe nenhum ensaio clínico randomizado em humanos que tenha avaliado especificamente o efeito da exposição solar direta nos testículos sobre os níveis de testosterona. O único estudo que incluiu irradiação genital (Myerson e Neustadt, 1939) é metodologicamente obsoleto, com amostra mínima e sem controle adequado. O estudo mais robusto sobre luz UVB e hormônios sexuais (Parikh et al., 2021) demonstrou um possível eixo pele-cérebro-gônadas em modelo animal, mas a exposição foi na pele geral (dorso dos camundongos), não nos testículos. Os dados humanos desse estudo são observacionais e correlacionais.
A terapia de luz brilhante (sem UV) mostrou resultados promissores em um pequeno ensaio piloto (Fagiolini et al., 2016), mas a luz era direcionada aos olhos e ao torso, não aos testículos, e os próprios autores não recomendam seu uso clínico sem estudos maiores. A terapia de laser de baixa intensidade em ratos (Ahn et al., 2013) apresentou algum efeito na testosterona com comprimento de onda de 670 nm, mas não foi replicada em humanos.
A via indireta da vitamina D é a mais respaldada: uma metanálise de 2024 com 17 ensaios clínicos sugere que a suplementação de vitamina D pode aumentar a testosterona total, especialmente em homens com deficiência prévia. Porém, estudos individuais em homens saudáveis com níveis normais não confirmam esse efeito.
Conclusão: A prática de expor os testículos ao sol não tem respaldo científico e apresenta riscos reais de dano UV na pele escrotal. A exposição solar moderada e segura da pele em geral pode beneficiar a saúde hormonal pela via da vitamina D, mas isso não justifica a exposição direta da região genital.
3.2 Sobre exposição ao frio, banhos gelados e testosterona
As evidências disponíveis não sustentam a alegação de que banhos frios, imersão em água gelada ou aplicação de gelo nos testículos aumentem os níveis de testosterona. O estudo de Sakamoto et al. (1991) mostrou que a água fria reduziu a testosterona em 10%. O estudo de Earp et al. (2019) demonstrou que a imersão em água fria pós-exercício atenuou e atrasou o aumento natural da testosterona. O estudo de Podstawski et al. (2021) não encontrou alteração significativa na testosterona após sauna com imersão em água fria. A metanálise de Piñero et al. (2024) alertou que a imersão em água fria pode prejudicar adaptações musculares ao atenuar respostas anabólicas.
O resfriamento escrotal tem evidências mais favoráveis para parâmetros seminais (contagem e motilidade dos espermatozoides), mas os estudos que mediram hormônios diretamente não encontraram alteração significativa nos níveis de testosterona, FSH ou LH após o resfriamento.
Conclusão: A exposição ao frio, banhos gelados e aplicação de gelo não aumentam os níveis de testosterona de acordo com as evidências disponíveis. Em alguns cenários, a imersão em água fria pode até reduzir temporariamente a testosterona e atenuar respostas anabólicas pós-exercício. O resfriamento escrotal pode ter utilidade limitada para parâmetros de fertilidade, mas não como estratégia para elevar a testosterona.
3.3 Classificação do nível de evidência
- Bronzeamento testicular direto: inexistente (nenhum ECR em humanos) — sem respaldo científico; riscos documentados.
- Exposição solar geral da pele e testosterona (via UVB): baixo (modelo animal + dados correlacionais humanos) — promissora, mas não conclusiva.
- Terapia de luz brilhante (10.000 lux, sem UV): moderado-baixo (1 ECR piloto pequeno, não publicado em periódico) — resultados iniciais positivos, precisa de replicação.
- Laser de baixa intensidade nos testículos: muito baixo (apenas estudos em ratos) — não replicado em humanos.
- Vitamina D e testosterona: moderado (metanálise de 17 ECR) — possível benefício em homens com deficiência.
- Banhos frios/imersão em água gelada e testosterona: baixo a moderado (estudos pequenos, resultados negativos) — não aumenta; pode reduzir temporariamente.
- Resfriamento escrotal e fertilidade: moderado-baixo (revisão sistemática, sem ECR robusto) — tendência positiva para parâmetros seminais, sem efeito na testosterona.
- Imersão em água fria pós-exercício: moderado (ECR + metanálise) — atenua resposta anabólica e aumento da testosterona.
Nota: ECR = Ensaio Clínico Randomizado. Todas as informações foram extraídas de artigos revisados por pares, revisões sistemáticas, metanálises e dados de instituições reconhecidas.

