O consumo de carboidratos durante provas longas é uma prática comum entre atletas de endurance. A lógica parece simples: durante exercício prolongado, o corpo usa glicogênio muscular e hepático; quando esses estoques caem, a fadiga tende a aparecer. Em ambientes quentes, porém, a situação fica mais complexa. O calor aumenta o estresse fisiológico, afeta a circulação, a sudorese, o trato gastrointestinal e pode alterar o uso de substratos energéticos.
A revisão sistemática publicada no Journal of the International Society of Sports Nutrition avaliou justamente essa questão: suplementar carboidratos durante exercício de endurance no calor melhora o desempenho? A resposta encontrada pelos autores foi prudente: às vezes sim, às vezes não. O benefício não foi consistente o suficiente para transformar a prática em uma regra universal.
O que o estudo investigou
A revisão buscou estudos em PubMed, Cochrane Library, MEDLINE e SPORTDiscus até 14 de abril de 2026. Foram incluídos apenas estudos com adultos saudáveis, entre 18 e 65 anos, pelo menos recreacionalmente ativos, submetidos a exercício contínuo de endurance com duração superior a 30 minutos em ambiente quente. O calor foi definido como temperatura ambiente acima de 23 °C. Ao todo, 3151 registros foram identificados, mas apenas nove estudos randomizados em desenho cruzado atenderam aos critérios de inclusão.
Esse detalhe é importante. A revisão não analisou pessoas sedentárias, pacientes com doenças metabólicas, provas de força, musculação ou atividades curtas. O foco foi desempenho em endurance, principalmente ciclismo, sob estresse térmico. Todos os estudos incluídos usaram protocolos em bicicleta, o que limita a extrapolação direta para corrida, triatlo, esportes coletivos ou provas ao ar livre.
As temperaturas nos estudos variaram aproximadamente de 27 °C a 35 °C, com umidade entre 20% e 78%. As doses médias de carboidrato ingeridas durante o exercício foram bastante variadas, indo de 14 a 140 gramas por hora. Essa variação ajuda a explicar por que os resultados não foram uniformes: nem todo carboidrato, dose, concentração, bebida ou protocolo produz o mesmo efeito.
O resultado principal: benefício inconsistente
Cinco dos nove estudos encontraram melhora significativa de desempenho com carboidratos. Essas melhoras variaram de 13,4% a 19,3% em testes de tempo até a exaustão e de 3,3% a 12,7% em testes contra o relógio. Em termos práticos, isso pode ser relevante, especialmente para atletas competitivos, nos quais pequenas diferenças podem decidir uma prova.
Por outro lado, quatro estudos não encontraram melhora significativa. Além disso, três estudos relataram melhoras médias de 6,7% a 11,6% que não atingiram significância estatística, mas que poderiam ser relevantes em atletas de alto nível. Portanto, o estudo não sustenta uma leitura simplista do tipo “carboidrato sempre melhora o desempenho no calor”. A conclusão correta é mais estreita: em alguns protocolos, com algumas doses e em alguns atletas, o carboidrato pode ajudar; em outros cenários, o efeito pode ser ausente.
Essa distinção é fundamental. Um resultado positivo em parte dos estudos não significa que todos precisam consumir grandes quantidades de carboidratos durante qualquer treino quente. Também não significa que o carboidrato seja inútil. A revisão mostra que o contexto importa.
Calor, glicogênio e fadiga
O exercício no calor tende a aumentar a carga fisiológica. A revisão explica que desidratação, hipoperfusão muscular e hipertermia podem aumentar a glicogenólise, a taxa metabólica e a produção de lactato por ativação simpático-adrenal. Também há aumento da produção hepática de glicose sob estresse térmico. Em tese, isso criaria um cenário no qual o carboidrato ingerido durante o exercício poderia atrasar a fadiga ao preservar substratos energéticos.
Na prática, porém, o mecanismo não ficou claro. A maioria dos estudos não encontrou diferenças importantes no quociente respiratório entre carboidrato e placebo, sugerindo que o corpo continuou dependendo bastante do glicogênio mesmo com suplementação. Os autores destacam que a ingestão de carboidrato no calor pode não reduzir de forma consistente a quebra de glicogênio durante o desempenho de endurance. Essa é uma das mensagens centrais da revisão.
Outro ponto é que a fadiga no calor não depende apenas de energia disponível. Hipertermia, percepção de esforço, desidratação, alterações gastrointestinais e fatores centrais também participam. Assim, mesmo que o carboidrato forneça energia, ele não necessariamente resolve os principais limitantes do desempenho em ambiente quente.
Hidratação parece ser prioridade maior
A revisão observou que a suplementação de carboidratos não teve efeito geral sobre marcadores de hidratação, termorregulação ou fadiga percebida quando comparada ao placebo. Isso não quer dizer que hidratação seja irrelevante. Pelo contrário: os próprios autores afirmam que atletas em exercício no calor devem priorizar a manutenção da hidratação.
A composição da bebida também importa. Bebidas muito concentradas podem atrasar o esvaziamento gástrico e piorar desconfortos gastrointestinais, especialmente no calor. O estudo cita que soluções hipotônicas com carboidratos e eletrólitos podem favorecer esvaziamento gástrico e volume plasmático, enquanto concentrações maiores podem ter efeitos diferentes sobre retenção de fluidos. Mas a revisão não encontrou um padrão forte o suficiente para afirmar que carboidratos melhoram a hidratação durante exercício no calor.
Na prática, a mensagem é sóbria: para endurance em ambiente quente, a estratégia não deve começar por “quanto açúcar colocar na garrafa”, mas por controle de hidratação, aclimatação ao calor, tolerância gastrointestinal e alimentação adequada antes do esforço.
O intestino pode ser o ponto fraco
Um dos achados mais relevantes da revisão foi a falta de dados sobre sintomas gastrointestinais. Apenas dois dos nove estudos avaliaram esse aspecto. Isso é uma limitação séria, porque desconfortos gastrointestinais são comuns em eventos de endurance, especialmente em ambientes quentes.
Em um dos estudos, uma bebida com 12% de glicose, fornecendo cerca de 99 g/h, causou mais náusea, sensação de estômago cheio e desconforto gástrico do que uma bebida com 6% de glicose e placebo. Em outro estudo, uma bebida com maltodextrina e frutose gerou maior sensação de plenitude. Isso sugere que doses mais altas ou bebidas mais concentradas podem ser mal toleradas por alguns atletas.
O calor também pode piorar esse cenário. Durante exercício intenso, o fluxo sanguíneo é redistribuído para músculos e pele, enquanto o trato gastrointestinal pode receber menos perfusão. No calor, esse estresse tende a ser maior. Assim, tentar forçar uma alta ingestão de carboidratos sem adaptação prévia pode transformar uma estratégia de desempenho em fonte de desconforto.
Por isso, os autores destacam a importância do chamado “treinamento do intestino”, isto é, praticar previamente a ingestão planejada durante treinos, em vez de testar uma dose alta apenas no dia da prova.
Doses muito altas não são automaticamente melhores
A revisão incluiu protocolos com ingestão média de carboidratos entre 14 e 140 g/h. Um estudo com bebida de 14% de carboidratos, fornecendo cerca de 140 g/h, mostrou tendência de pior desempenho em comparação com outras condições. Os autores observaram que essa dose excede recomendações consensuais para exercícios de 1 a 2,5 horas e pode sobrecarregar a capacidade intestinal de absorção.
Esse ponto é útil porque muitos atletas interpretam recomendações esportivas como se mais carboidrato sempre fosse melhor. A revisão não apoia essa ideia. A dose precisa ser tolerável, treinada e compatível com a duração, intensidade, modalidade e ambiente. No calor, a margem de erro pode ser menor.
Limitações importantes
A revisão apresenta limitações que impedem conclusões definitivas. O número de estudos incluídos foi pequeno. As amostras variaram de 6 a 16 participantes, predominantemente homens jovens e treinados. Todos os estudos foram conduzidos em laboratório e todos usaram ciclismo. A maioria não avaliou adequadamente sintomas gastrointestinais, e o estado de aclimatação ao calor nem sempre foi informado.
Além disso, os protocolos foram heterogêneos: diferentes temperaturas, umidades, durações, intensidades, tipos de carboidrato, concentrações, refeições pré-exercício e medidas de desempenho. Por isso, os autores não fizeram meta-análise e optaram por uma síntese narrativa.
Essas limitações não invalidam o estudo. Elas apenas mostram que o tema ainda não está fechado. Para recomendações mais firmes, serão necessários ensaios com mais participantes, incluindo mulheres, diferentes faixas etárias, corredores, ambientes reais de competição, controle de aclimatação e avaliação sistemática de sintomas gastrointestinais.
O que a revisão permite concluir
A conclusão mais fiel é que a suplementação de carboidratos durante exercício de endurance no calor não melhora o desempenho de forma consistente. Pode haver benefício em alguns contextos, mas ele não aparece de modo uniforme. A ingestão de carboidratos também não mostrou efeito geral sobre oxidação de carboidratos, hidratação, termorregulação ou percepção de fadiga.
Para atletas, a aplicação prática é individualizar. Uma estratégia razoável envolve chegar bem alimentado ao treino ou prova, manter hidratação adequada, repor glicogênio quando necessário e treinar a tolerância intestinal antes de eventos importantes. O uso de carboidrato durante endurance no calor deve ter uma justificativa clara, não apenas seguir uma regra genérica.
A revisão reforça uma mensagem simples: no calor, desempenho não depende apenas de energia. O corpo também precisa lidar com temperatura, fluidos, intestino, percepção de esforço e aclimatação. Ignorar esses fatores e olhar apenas para a quantidade de carboidrato na garrafa é uma leitura incompleta da fisiologia do exercício.
