Em 1994, o programa Dateline NBC revisitou a história de Jim Abrahams, diretor de comédias como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, Corra que a Polícia Vem Aí! e Top Gang!, e de seu filho Charlie, diagnosticado com epilepsia ainda no primeiro ano de vida.
Charlie chegou a sofrer cerca de cem crises convulsivas por dia. Medicamentos anticonvulsivantes, tratamentos experimentais e até uma cirurgia cerebral não conseguiram controlar a doença. Além da falta de resultados, os efeitos dos remédios deixavam a criança profundamente sedada e praticamente incapaz de interagir.
Buscando respostas por conta própria, Jim encontrou na literatura médica informações sobre a dieta cetogênica, uma terapia que nenhum dos médicos consultados havia apresentado à família.
A dieta já era utilizada no tratamento da epilepsia desde a década de 1920. Em 1921, médicos desenvolveram o protocolo cetogênico para reproduzir, por meio da alimentação, parte dos efeitos metabólicos do jejum, que já era observado como capaz de reduzir convulsões. Portanto, quando Charlie iniciou o tratamento nos anos 1990, a estratégia já acumulava aproximadamente 70 anos de uso clínico.
No Johns Hopkins, Charlie iniciou uma alimentação rigorosamente calculada, rica em gordura e com quantidades controladas de proteína e carboidratos. Em poucos dias, as crises desapareceram, os medicamentos foram retirados e seu desenvolvimento foi retomado.
As primeiras tentativas de interromper a dieta provocaram o retorno imediato e violento das convulsões. Sempre que o tratamento alimentar era reiniciado, porém, as crises cessavam novamente. Após permanecer por mais tempo no protocolo, Charlie finalmente conseguiu abandonar a dieta e continuou livre de convulsões.
A experiência transformou a carreira de Jim Abrahams. Inconformado com o desconhecimento sobre a terapia, ele levou o tema à televisão, produziu o filme First Do No Harm, com Meryl Streep, fundou a Charlie Foundation e passou a divulgar a dieta cetogênica para famílias, médicos e pesquisadores.
Mais do que a história de uma criança, o documentário mostra como um tratamento conhecido havia décadas, eficaz para parte dos casos de epilepsia resistente a medicamentos e relativamente barato permaneceu à margem da prática médica. Também retrata a persistência de uma família que se recusou a aceitar que todas as alternativas já haviam sido tentadas.