Uma dieta rica em proteína e pobre em gordura reduziu a glicose e a glicosúria em casos clínicos de diabetes publicados em 1948. O artigo tem relevância histórica, mas não constitui prova clínica pelos padrões atuais.
Publicado no The American Journal of Digestive Diseases, o trabalho de David Adlersberg descreveu o uso de dietas com mais proteína, quantidades moderadas de carboidratos e pouca gordura no tratamento de pessoas com diabetes. O autor apresentou sua experiência clínica, modelos de cardápio e alguns casos acompanhados, especialmente de pacientes que não necessitavam imediatamente de insulina.
A alimentação já tratava o diabetes antes da insulina
O artigo foi publicado pouco mais de 25 anos após a descoberta da insulina. Adlersberg temia que a eficácia do medicamento levasse os médicos a considerar a alimentação um aspecto secundário do tratamento.
Para mostrar que a dietoterapia tinha uma história muito anterior, o autor recordou o caso tratado por John Rollo em 1796. O paciente, capitão Meredith, apresentava sede intensa, perda de peso e produção extremamente elevada de urina. Rollo prescreveu uma alimentação composta principalmente por alimentos de origem animal.
Segundo o relato histórico, a sede e o excesso de urina diminuíram, o estado geral melhorou e o paciente recuperou peso. Na ausência de insulina e dos medicamentos atuais, abordagens alimentares desse tipo permaneceram durante décadas entre as poucas opções disponíveis.
Isso não significa que o protocolo de 1796 possa ser avaliado como um ensaio clínico. Trata-se de um relato histórico, produzido antes da existência de grupos de controle, exames modernos e critérios diagnósticos atuais.
O que Adlersberg realmente propôs
Apesar de citar a dieta baseada em alimentos de origem animal de John Rollo, a intervenção principal apresentada por Adlersberg não era uma dieta carnívora nem uma dieta cetogênica.
O protocolo continha carnes magras, peixes, frutos do mar, queijo com pouca gordura, leite desnatado e claras de ovos, mas também incluía pão, frutas e vegetais. A intenção era substituir parte dos carboidratos e das gorduras por proteína, sem eliminar completamente os carboidratos.
O autor descreveu duas estratégias principais.
Dieta A para pessoas com obesidade
A dieta destinada aos pacientes com excesso de peso fornecia:
- 100 a 150 gramas de proteína;
- 80 a 150 gramas de carboidratos;
- 30 a 50 gramas de gordura;
- aproximadamente 1.000 a 1.500 calorias por dia.
Era, portanto, uma dieta hipocalórica, rica em proteína, moderada em carboidratos e pobre em gordura. Depois da perda de peso e da melhora da glicose, carboidratos e gorduras poderiam ser gradualmente acrescentados até que fosse estabelecida uma alimentação de manutenção.
Dieta B para pessoas com peso normal
Nos pacientes sem excesso de peso, a proposta inicial fornecia:
- 100 a 150 gramas de proteína;
- 100 a 150 gramas de carboidratos;
- 50 a 80 gramas de gordura;
- cerca de 2.000 calorias por dia.
Quando a glicose sanguínea e a glicosúria melhoravam, parte da proteína era substituída progressivamente por carboidratos. Em alguns casos, a dieta final chegava a conter entre 150 e 250 gramas de carboidratos.
A dieta rica em proteína era, portanto, utilizada como uma intervenção inicial e ajustável, não necessariamente como uma composição permanente.
Por que o autor aumentava a proteína
Na interpretação fisiológica apresentada em 1948, parte dos aminoácidos provenientes da proteína poderia ser transformada em glicose. Adlersberg argumentava, porém, que essa glicose apareceria de forma mais lenta e gradual do que aquela proveniente diretamente dos alimentos ricos em carboidratos.
Com isso, a proteína substituiria parte dos carboidratos sem produzir a mesma elevação imediata da glicemia ou da eliminação de glicose pela urina.
O autor também atribuía à proteína três vantagens práticas:
- maior saciedade;
- preservação dos tecidos corporais durante o emagrecimento;
- maior variedade alimentar em comparação com protocolos de jejum e restrição extrema.
Essas hipóteses precisam ser interpretadas dentro do conhecimento disponível na época. O metabolismo dos aminoácidos, da glicose e da insulina é atualmente compreendido de maneira muito mais detalhada.
Resultados apresentados
Em um dos casos, uma pessoa com diabetes leve e obesidade iniciou o acompanhamento com glicose sanguínea de 228 mg/dL e presença considerável de glicose na urina. Após a mudança para uma dieta com mais proteína e menos gordura, a glicosúria desapareceu, a glicose caiu para 128 mg/dL e o peso passou de 167 para 160 libras, uma redução de aproximadamente 3,2 quilos.
Em outro paciente com peso normal, a glicose caiu de 218 para 131 mg/dL, enquanto a glicosúria desapareceu e o peso permaneceu praticamente estável.
Um terceiro caso começou com 80 gramas de proteína, 80 gramas de carboidratos e 130 gramas de gordura. Após a mudança para 160 gramas de proteína, 130 gramas de carboidratos e 70 gramas de gordura, a glicose caiu de 164 para 102 mg/dL. Posteriormente, o consumo de carboidratos foi aumentado para 200 gramas e a proteína reduzida para 90 gramas, sem retorno da glicosúria.
O que os resultados não conseguem provar
O artigo não foi um ensaio clínico randomizado. Não havia grupo de controle, mascaramento, protocolo uniforme, análise estatística ou número suficiente de participantes para separar os efeitos de cada alteração alimentar.
Também não foram avaliados hemoglobina glicada, insulina, composição corporal, função hepática detalhada, eventos cardiovasculares ou desfechos de longo prazo.
Nos pacientes com obesidade, a dieta reduzia simultaneamente as calorias, a gordura e, em alguns momentos, os carboidratos. Portanto, não é possível afirmar que a melhora tenha ocorrido exclusivamente pelo aumento da proteína. A perda de peso e a menor ingestão energética provavelmente contribuíram para os resultados.
Os próprios exemplos mostram que vários macronutrientes foram modificados ao mesmo tempo. O estudo documenta uma resposta clínica, mas não permite identificar com precisão qual mudança foi responsável por ela.
A ressalva sobre a função renal
Adlersberg considerava a dieta rica em proteína contraindicada quando havia comprometimento da função renal e retenção de compostos nitrogenados. O artigo também recomendava interromper o protocolo quando a hiperglicemia e a glicosúria permanecessem elevadas, recorrendo à insulina e a outras medidas terapêuticas.
Essa observação continua relevante: pessoas com diabetes podem apresentar doença renal sem sintomas evidentes. A quantidade adequada de proteína depende da função renal, do estado nutricional, dos medicamentos utilizados e das necessidades individuais.
O estudo não justifica a retirada de insulina nem a substituição do acompanhamento médico por uma intervenção alimentar feita sem supervisão.
O que esse artigo representa
O principal valor do trabalho é histórico. Ele mostra que, em 1948, médicos já investigavam como a substituição de parte dos carboidratos e da gordura por proteína poderia modificar a glicose, a glicosúria, o peso e a necessidade de insulina.
Também demonstra que a alimentação não era considerada apenas um complemento decorativo do tratamento. Mesmo depois da chegada da insulina, Adlersberg defendia que a composição da dieta poderia alterar de maneira importante a evolução clínica.
Ao mesmo tempo, o artigo não comprova que uma dieta rica em proteína seja ideal para todas as pessoas com diabetes. Os resultados vieram de poucos casos, com intervenções simultâneas e métodos muito diferentes dos utilizados atualmente.
Em resumo
O artigo de 1948 descreveu melhoras na glicose e no açúcar presente na urina após dietas ricas em proteína, pobres em gordura e moderadas em carboidratos. Em pacientes com obesidade, a estratégia também produziu perda de peso.
A publicação não estudou uma dieta carnívora ou cetogênica e não pode ser tratada como evidência clínica definitiva. Sua importância está em registrar que a manipulação de proteína, carboidratos e calorias já era utilizada para controlar o diabetes muito antes das abordagens alimentares atuais receberem novos nomes.
Fonte: https://doi.org/10.1007/BF03001294*O estudo completo está disponível para assinantes da newsletter e apoiadores do site
