Proteína animal e saúde óssea não apareceram como inimigas no Rancho Bernardo Study: em mulheres idosas, maior consumo de proteína animal foi associado a maior densidade mineral óssea.
O estudo “Protein Consumption and Bone Mineral Density in the Elderly: The Rancho Bernardo Study”, publicado em 2002 no American Journal of Epidemiology, avaliou a relação entre ingestão de proteína e densidade mineral óssea em idosos que viviam na comunidade. A pesquisa incluiu 572 mulheres e 388 homens, com idades entre 55 e 92 anos, acompanhados em Rancho Bernardo, na Califórnia.
O que foi estudado
A dúvida central era simples: maior consumo de proteína estaria ligado a ossos mais fortes ou mais frágeis?
Durante décadas, a proteína foi tratada com desconfiança em relação aos ossos por causa da hipótese da “carga ácida”. Segundo essa ideia, dietas ricas em proteína poderiam aumentar a produção de ácidos no organismo, exigindo maior uso de cálcio como tampão e, teoricamente, favorecendo perda óssea.
O problema é que essa explicação é incompleta. O próprio artigo lembra que estudos anteriores eram conflitantes: alguns associavam proteína a maior perda de cálcio pela urina, enquanto outros indicavam que proteínas comuns não causavam perda líquida de cálcio ou até aumentavam a absorção intestinal de cálcio.
Como o estudo foi feito
A ingestão alimentar foi avaliada entre 1988 e 1992 por questionário de frequência alimentar. Os pesquisadores separaram a proteína em três categorias: proteína total, proteína animal e proteína vegetal.
A densidade mineral óssea foi medida por DEXA, método usado para avaliar massa óssea, em locais como quadril, colo do fêmur, coluna lombar e corpo total. Uma nova avaliação ocorreu cerca de quatro anos depois, entre 1992 e 1996.
As análises foram ajustadas para fatores importantes, como idade, índice de massa corporal, ingestão de cálcio, diabetes, exercício, tabagismo, álcool e uso de medicamentos que poderiam afetar os ossos.
Principais resultados
Nas mulheres, a proteína animal teve associação positiva com a densidade mineral óssea. Para cada aumento de 15 g por dia na ingestão de proteína animal, a densidade mineral óssea foi maior em 0,016 g/cm² no quadril, 0,012 g/cm² no colo do fêmur, 0,015 g/cm² na coluna e 0,010 g/cm² no corpo total. A associação foi estatisticamente significativa em três dos quatro locais avaliados, ficando apenas a coluna em significância limítrofe.
A proteína vegetal, por outro lado, apresentou associação negativa com a densidade mineral óssea, especialmente nas mulheres. Nos homens, a associação positiva entre proteína animal e densidade óssea foi mais fraca e não atingiu significância estatística. Também não houve associação clara entre ingestão de proteína e taxa de perda óssea ao longo do acompanhamento.
Esse ponto é importante: o estudo não mostrou que proteína animal causou aumento de massa óssea. Ele mostrou uma associação favorável entre maior consumo de proteína animal e maior densidade mineral óssea em mulheres idosas.
O papel do cálcio
Os pesquisadores também avaliaram se a ingestão de cálcio modificava a relação entre proteína e densidade óssea. Houve alguma evidência de que o maior consumo de proteína poderia ser mais benéfico para mulheres com menor ingestão de cálcio, mas essa interação não foi forte de forma consistente.
Isso enfraquece a interpretação simplista de que mais proteína “rouba cálcio dos ossos”. No estudo, a maior ingestão de proteína animal não apareceu como fator de piora óssea nas mulheres. O resultado foi na direção oposta.
O que isso significa na prática
A principal mensagem é que proteína animal não deve ser tratada automaticamente como ameaça à saúde óssea. Em idosos, especialmente mulheres, proteína adequada pode ser relevante para preservar estrutura corporal, massa muscular, funcionalidade e, possivelmente, suporte ósseo.
O osso não é feito apenas de cálcio. A proteína também é parte importante da matriz óssea. O artigo destaca que a proteína representa parcela relevante do volume e da massa óssea, além de poder influenciar fatores como IGF-1, associado à manutenção do tecido ósseo.
Portanto, reduzir proteína animal por medo de osteoporose pode ser uma decisão mal fundamentada, especialmente em idosos, grupo no qual baixa ingestão proteica pode se relacionar a fragilidade, perda muscular e maior risco funcional.
Limitações do estudo
O estudo foi observacional. Por isso, ele não prova causa e efeito. Pessoas que consumiam mais proteína animal poderiam ter outros hábitos ou características que também influenciaram a densidade óssea.
A alimentação foi estimada por questionário, método útil em estudos populacionais, mas sujeito a erros de memória e imprecisão. Além disso, os participantes eram majoritariamente caucasianos, de classe média alta e residentes de uma região específica da Califórnia, o que limita a aplicação direta dos achados a outras populações.
Outro ponto relevante é que o estudo avaliou densidade mineral óssea, não fraturas como desfecho principal. Densidade óssea é importante, mas risco de fratura também depende de quedas, força muscular, equilíbrio, medicamentos, visão e outros fatores.
Em resumo
O Rancho Bernardo Study encontrou uma associação positiva entre proteína animal e densidade mineral óssea em mulheres idosas. A proteína vegetal apresentou associação negativa com densidade óssea, embora esse achado precise ser interpretado com cautela, pois pode refletir padrões alimentares mais amplos e não apenas o tipo de proteína isoladamente.
O estudo não apoia a ideia popular de que proteína animal enfraquece os ossos por “tirar cálcio”. Pelo contrário, dentro dos limites de um estudo observacional, os resultados sugerem que a proteína animal pode fazer parte de uma estratégia alimentar compatível com melhor saúde óssea em mulheres idosas.
Conclusão
A relação entre proteína e saúde óssea é mais complexa do que a antiga hipótese da carga ácida. No estudo Rancho Bernardo, maior ingestão de proteína animal foi associada a maior densidade mineral óssea em mulheres idosas, enquanto não houve evidência de prejuízo ósseo claro atribuído à proteína animal.
A conclusão mais prudente é que a proteína animal não deve ser vista como vilã da osteoporose. Em idosos, uma alimentação com proteína suficiente, cálcio adequado, boa exposição solar, atividade física e preservação da massa muscular continua sendo uma base mais coerente para proteger a saúde óssea.
Fonte: https://doi.org/10.1093/aje/155.7.636
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