A dieta vegana foi associada a maior dano primário ao DNA em células sanguíneas, mas o estudo não prova causa e efeito.
O estudo “DNA Damage Across Dietary Patterns: A Comet Assay Study in Vegans and Omnivores”, publicado em 2026 na revista Foods, avaliou se pessoas veganas e onívoras apresentavam diferenças em marcadores de dano ao DNA. O trabalho comparou 31 adultos veganos com 31 adultos onívoros, pareados por sexo e tabagismo. Os participantes eram aparentemente saudáveis, e os veganos seguiam a dieta havia pelo menos um ano, com mediana de 4,5 anos de adesão.
O principal achado foi que os veganos apresentaram maior intensidade da cauda no ensaio cometa, um marcador de dano primário ao DNA. Esse resultado permaneceu estatisticamente significativo mesmo após ajustes para idade, atividade física, índice de massa corporal e consumo de álcool.
O que foi estudado
O estudo investigou dano ao DNA em células do sangue periférico. Esse tipo de avaliação não mede diretamente câncer, envelhecimento ou mutações permanentes, mas indica quebras ou alterações iniciais no DNA, que podem refletir estresse celular, menor reparo do DNA ou outros processos biológicos.
Os autores partiram de uma questão ainda pouco esclarecida: embora dietas à base de plantas sejam frequentemente associadas a menor risco de algumas doenças crônicas, a relação entre dieta vegana e integridade genômica ainda não é bem caracterizada.
A dieta vegana exclui todos os alimentos de origem animal, incluindo carne, peixe, ovos e laticínios. Isso pode alterar a ingestão e a biodisponibilidade de nutrientes relevantes para síntese, manutenção e reparo do DNA, como vitamina B12, vitamina D e ferro. O estudo, porém, não mediu diretamente os níveis sanguíneos desses nutrientes.
Como o estudo foi feito
O trabalho teve desenho transversal, ou seja, avaliou os participantes em um único momento. Esse tipo de estudo permite encontrar associações, mas não permite afirmar que uma dieta causou determinado resultado.
Os pesquisadores recrutaram adultos em Zagreb, na Croácia. Foram incluídos:
- 31 veganos;
- 31 onívoros;
- ambos os grupos pareados por sexo e tabagismo;
- pessoas sem doença aguda no momento da coleta;
- participantes sem obesidade, câncer prévio ou condições graves que pudessem interferir fortemente no resultado.
O dano ao DNA foi medido pelo ensaio cometa alcalino, uma técnica usada para avaliar quebras de DNA em células individuais. Quando há mais dano, o DNA migra mais durante a análise e forma uma imagem semelhante a um cometa, com uma “cauda” maior ou mais intensa.
O principal marcador analisado foi a intensidade da cauda, expressa como percentual de DNA na cauda. Em termos simples, quanto maior esse valor, maior o dano primário detectado no DNA.
Principais resultados
Os veganos apresentaram maior dano primário ao DNA do que os onívoros.
A mediana da intensidade da cauda foi:
- 4,7% de DNA na cauda nos veganos;
- 2,5% de DNA na cauda nos onívoros.
Após ajuste para idade, atividade física, índice de massa corporal e consumo de álcool, a dieta vegana continuou associada a maior intensidade da cauda. A diferença ajustada foi de 1,98 ponto percentual a mais nos veganos, com intervalo de confiança de 95% entre 0,19 e 3,76 e valor de p de 0,031.
Outro achado importante foi observado dentro do próprio grupo vegano. Cada ano adicional de adesão à dieta vegana foi associado a aumento de 0,23 ponto percentual na intensidade da cauda, mesmo após ajuste para idade. Isso sugere uma relação entre maior tempo de dieta vegana e maior dano primário ao DNA nessa amostra específica.
Os autores também fizeram análises considerando uso de suplementos e sofrimento psicológico. A associação entre dieta vegana e maior dano ao DNA permaneceu significativa após esses ajustes adicionais.
O que isso significa na prática
O resultado indica que, nesse grupo estudado, os veganos apresentaram mais sinais de dano primário ao DNA em células sanguíneas do que os onívoros. Isso não significa que toda dieta vegana cause dano ao DNA, nem que os participantes veganos desenvolverão alguma doença por causa disso.
A interpretação correta é mais limitada: nesse estudo pequeno e observacional, houve uma associação entre dieta vegana, maior tempo de adesão à dieta vegana e maior marcador de dano primário ao DNA.
Esse ponto é relevante porque o dano ao DNA é considerado um marcador biológico precoce associado a processos como envelhecimento, doenças crônicas e câncer. No entanto, o ensaio cometa mede principalmente quebras transitórias de DNA e não mede diretamente mutações permanentes, risco individual de câncer ou dano genômico de longo prazo.
Possíveis explicações
O estudo não conseguiu determinar o mecanismo por trás do resultado. Ainda assim, os próprios autores discutem algumas possibilidades.
Uma dieta vegana pode ter maior ingestão de compostos vegetais bioativos, como fitoquímicos e antioxidantes, que em alguns estudos podem estar associados à redução de marcadores de dano oxidativo. Por outro lado, dietas vegetarianas e veganas também podem apresentar menor ingestão ou menor biodisponibilidade de nutrientes envolvidos na síntese e no reparo do DNA, especialmente vitamina B12, vitamina D e ferro.
Como o estudo não mediu ingestão alimentar quantitativa nem exames bioquímicos detalhados, não é possível saber se os veganos com maior dano ao DNA tinham deficiência de algum nutriente, menor qualidade alimentar, maior consumo de ultraprocessados veganos ou outro fator não medido.
Esse é um ponto central: uma dieta pode ser classificada como vegana e ainda variar muito em qualidade nutricional. Uma pessoa pode seguir uma dieta vegana baseada em alimentos minimamente processados ou uma dieta vegana rica em produtos industrializados. O estudo não teve dados suficientes para separar esses padrões.
Limitações do estudo
As limitações reduzem a força das conclusões.
Primeiro, o estudo foi transversal. Portanto, não demonstra causalidade. Ele não prova que a dieta vegana causou maior dano ao DNA.
Segundo, a amostra foi pequena, com apenas 62 participantes. Isso aumenta a incerteza sobre o tamanho real da associação.
Terceiro, os participantes foram recrutados por resposta voluntária e redes de contato, o que pode gerar viés de seleção. O grupo não necessariamente representa todos os veganos ou todos os onívoros.
Quarto, o estudo não avaliou de forma quantitativa a dieta dos participantes. Não foi possível saber com precisão a ingestão de proteína, gordura, carboidratos, micronutrientes, alimentos ultraprocessados, qualidade da dieta ou adequação nutricional.
Quinto, não foram medidos marcadores bioquímicos de estado nutricional, como vitamina B12, vitamina D, ferro, ferritina ou outros nutrientes relacionados ao reparo do DNA.
Sexto, a própria técnica laboratorial tem limitações. O ensaio cometa é útil para detectar dano primário ao DNA, mas não indica diretamente mutação, câncer ou dano permanente.
Em resumo
O estudo encontrou maior dano primário ao DNA em veganos do que em onívoros, medido por ensaio cometa em células sanguíneas. Também observou que maior tempo de dieta vegana foi associado a maior intensidade da cauda, marcador usado para estimar esse dano.
A principal mensagem não é que a dieta vegana necessariamente cause dano ao DNA. A mensagem mais precisa é que, nessa amostra, a dieta vegana esteve associada a um marcador biológico desfavorável, e essa associação merece investigação adicional.
Para esclarecer o resultado, estudos futuros precisam incluir amostras maiores, acompanhamento ao longo do tempo, avaliação detalhada da dieta, qualidade alimentar, uso de suplementos e exames laboratoriais de nutrientes envolvidos na integridade do DNA.
Conclusão
O estudo levanta uma preocupação relevante sobre dieta vegana e dano ao DNA, mas não fornece prova definitiva de causalidade. O achado reforça que dietas restritivas devem ser avaliadas não apenas por exclusões alimentares ou por marcadores tradicionais de saúde, mas também por adequação nutricional, biodisponibilidade de nutrientes e efeitos biológicos mensuráveis.
A associação observada entre dieta vegana, maior tempo de adesão e maior dano primário ao DNA exige cautela, mas não deve ser ignorada. Em ciência nutricional, o desenho do estudo importa tanto quanto o resultado.
