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Carboidratos em atletas de endurance: combustível ou excesso?

Ilustração conceitual de atleta de endurance usando carboidratos durante prova prolongada para discutir metabolismo energético

O artigo Fuelled or Fooled? Examining the Evidence and Mechanisms Behind Ultra-High Carbohydrate Intake in Endurance Athletes, publicado na revista Sports Medicine, é uma opinião científica atual, não um ensaio clínico novo. Os autores revisaram a literatura disponível sobre ingestão muito alta de carboidratos durante exercícios de endurance e discutiram se a prática tem base suficiente para ser recomendada de forma ampla.

O foco está nas estratégias chamadas de ingestão ultra-alta de carboidratos, definidas como consumo acima de 90 gramas por hora durante provas prolongadas. Esse tipo de estratégia ganhou espaço em esportes como maratona, ultramaratona, ciclismo profissional e triatlo de longa distância, especialmente entre atletas de elite.

A ideia parece simples: se carboidrato é uma fonte rápida de energia, consumir mais poderia sustentar melhor o desempenho. O problema é que, segundo os autores, a evidência científica ainda não acompanha o entusiasmo prático. Grande parte da popularidade dessas estratégias vem de relatos de campo, desempenho de atletas de elite e associação com recordes recentes, mas não de estudos controlados capazes de confirmar benefício claro acima das doses já estabelecidas.

Mais carboidrato nem sempre significa mais desempenho

O ponto central do artigo é que a ingestão de carboidratos durante exercícios prolongados pode melhorar o desempenho em comparação com placebo ou ausência de carboidratos. Isso não é a parte controversa. A dúvida é outra: existe benefício adicional quando o atleta passa de faixas já tradicionais, como 60 a 90 gramas por hora, para doses ultra-altas, como 120 gramas por hora ou mais?

A resposta dos autores é cautelosa. A literatura disponível não mostra, de forma consistente, uma relação dose-resposta acima de 90 gramas por hora. Em outras palavras, aumentar a ingestão não parece gerar melhora proporcional de desempenho.

Alguns estudos mostram que carboidratos ingeridos durante o exercício aumentam a oxidação de carboidratos vindos de fora do corpo, ou seja, aqueles consumidos por bebidas, géis ou alimentos esportivos. No entanto, esse aumento não necessariamente reduz o uso dos estoques internos de carboidrato, como o glicogênio muscular. Esse detalhe é importante porque uma das justificativas clássicas para consumir carboidrato durante provas longas é “poupar” glicogênio.

Segundo o artigo, essa explicação não se sustenta bem em doses ultra-altas. Estudos citados pelos autores indicam que 120 gramas por hora podem aumentar a oxidação de carboidrato exógeno em relação a 90 gramas por hora, mas sem reduzir de forma correspondente a oxidação de carboidratos endógenos. Em alguns dados, doses mais altas até se associaram a maior uso de glicogênio muscular.

O limite prático da oxidação

Outro ponto relevante é a eficiência. Quando um atleta consome 90 gramas por hora, uma parte alta desse carboidrato pode ser oxidada durante o exercício, especialmente quando há mistura de glicose ou maltodextrina com frutose. Porém, ao subir para 120 gramas por hora, a proporção oxidada tende a cair.

O artigo cita dados em que a eficiência de oxidação caiu de cerca de 86% com 90 gramas por hora para cerca de 76% com 120 gramas por hora. Isso significa que parte relevante do carboidrato ingerido pode não ser usada como energia imediata. O excedente pode permanecer no trato gastrointestinal, ser retido em regiões como fígado e leito esplâncnico ou contribuir mais para recuperação posterior do que para desempenho agudo durante a prova.

Essa observação ajuda a separar duas perguntas diferentes. Uma coisa é saber se doses altas de carboidrato podem ajudar na recuperação entre sessões, dias consecutivos de prova ou períodos de treino intenso. Outra é afirmar que elas melhoram diretamente o desempenho em uma competição específica. O artigo considera a primeira possibilidade plausível em alguns contextos, mas reforça que ela não equivale a comprovar melhora direta de performance no dia da prova.

O intestino também entra na conta

O trato gastrointestinal é uma limitação prática. Quanto maior a concentração e o volume de carboidratos ingeridos, maior pode ser o risco de desconforto, náusea, sensação de estufamento, distensão abdominal e problemas gastrointestinais durante provas longas.

A chamada “adaptação intestinal” ou “treino do intestino” busca melhorar a tolerância a carboidratos durante o exercício. Os autores reconhecem que essa prática pode reduzir sintomas subjetivos em algumas pessoas e melhorar a tolerância ao consumo durante o esforço. No entanto, a evidência de que isso aumente de forma robusta a capacidade real de oxidar carboidratos exógenos ainda é limitada.

Há outro detalhe metodológico: muitos estudos de laboratório têm duração menor do que provas como Ironman, ultramaratonas ou etapas longas de ciclismo. Por isso, eles podem não captar o momento em que os sintomas gastrointestinais aparecem em eventos reais mais longos. Isso pode fazer com que a tolerância às doses ultra-altas pareça melhor do que realmente é fora do laboratório.

As possíveis explicações ainda são hipóteses

O artigo propõe três mecanismos possíveis para explicar por que alguns atletas podem perceber benefício com ingestão ultra-alta de carboidratos. Nenhum deles, porém, está confirmado como explicação definitiva.

O primeiro envolve a mudança no combustível usado pelo corpo. A oxidação de carboidratos produz mais energia por litro de oxigênio consumido do que a oxidação de gordura. Em teoria, usar mais carboidrato poderia reduzir o custo de oxigênio para determinada intensidade, o que seria útil em esforços de alta demanda. A figura teórica do artigo ilustra justamente essa mudança no chamado ponto de cruzamento, em que o corpo passa a depender mais de carboidratos do que de gordura conforme a intensidade aumenta.

O segundo mecanismo envolve o lactato. Misturas com frutose podem aumentar a disponibilidade de lactato, que hoje é entendido como um combustível importante, e não apenas como “resíduo” metabólico. Atletas de elite podem ter maior capacidade de transportar e oxidar lactato, o que poderia favorecer o uso de carboidratos em intensidades altas. Ainda assim, os autores deixam claro que essa hipótese depende da absorção intestinal de frutose e precisa de investigação direta.

O terceiro mecanismo envolve o cérebro e a percepção de esforço. Estudos com bochecho de carboidrato sugerem que a presença de carboidrato na boca pode influenciar regiões cerebrais ligadas a recompensa e controle motor, mesmo sem grande contribuição energética direta. Durante provas prolongadas, esse efeito pode ser secundário em relação à manutenção da glicose no sangue, mas talvez contribua para menor percepção de esforço em alguns contextos.

Essas explicações são interessantes, mas o próprio artigo ressalta que elas continuam especulativas. São modelos plausíveis, não provas de que todos os atletas devam consumir carboidratos em doses ultra-altas.

A individualidade parece decisiva

Um dos pontos mais úteis do artigo é a variação entre indivíduos. Nem todos os atletas oxidam carboidratos na mesma velocidade. Em um estudo citado, mesmo com protocolo padronizado de 120 gramas por hora, a oxidação variou aproximadamente de 1,3 a 1,9 grama por minuto. Traduzindo para uma leitura prática, um atleta no topo dessa faixa poderia oxidar perto de 114 gramas por hora, enquanto outro oxidaria cerca de 78 gramas por hora.

Isso muda a interpretação. Para alguns atletas de elite, doses muito altas podem ser aproveitadas de forma eficiente. Para muitos outros, especialmente amadores e recreacionais, 120 gramas por hora pode simplesmente exceder a capacidade de uso imediato, aumentando o risco de desconforto sem garantir benefício proporcional.

O artigo também cita um estudo de prova de conceito em que a alimentação com carboidratos foi ajustada à capacidade individual de oxidação de glicose. Nesse modelo personalizado, os atletas conseguiram utilização semelhante de carboidratos consumindo 28% menos, com menor percepção de esforço e menor desconforto gastrointestinal. Isso sugere que “mais” pode não ser a melhor meta. A meta mais racional seria “o suficiente para aquele atleta, naquela prova, naquela intensidade”.

O risco de transformar estratégia de elite em regra geral

A conclusão prática do artigo é especialmente relevante para atletas amadores. Estratégias usadas por uma minoria de atletas de elite não devem ser automaticamente promovidas como padrão universal. A fisiologia, o volume de treino, a intensidade, a duração da prova, o tamanho corporal, a tolerância intestinal e o histórico alimentar mudam muito entre indivíduos.

Os autores também chamam atenção para possíveis implicações metabólicas de longo prazo quando a estratégia de prova se transforma em ingestão cronicamente alta de carboidratos para “treinar o intestino”. Eles citam dados em que uma dieta cronicamente mais alta em carboidratos levou a padrões de glicose de jejum compatíveis com pré-diabetes em cerca de 30% dos atletas avaliados ao longo de 31 dias, efeito que foi reversível com redução de carboidratos.

Essa observação não significa que consumir carboidrato durante uma prova cause o mesmo efeito. O próprio artigo diferencia a resposta aguda durante exercício intenso da ingestão crônica na dieta. Mas o alerta é pertinente: muitos atletas recreacionais podem copiar protocolos de elite antes, durante e depois dos treinos, sem ter a mesma demanda fisiológica que justificaria esse volume de carboidrato.

Conclusão

A mensagem principal não é que carboidratos nunca ajudam em esportes de endurance. Eles ajudam em vários cenários, especialmente quando o objetivo é sustentar intensidade e evitar queda de glicose durante esforços prolongados.

A mensagem mais precisa é que doses ultra-altas, acima de 90 gramas por hora, ainda não têm evidência forte o bastante para serem recomendadas de forma ampla. Para a maioria dos atletas, a faixa de 60 a 90 gramas por hora continua sendo um ponto de partida mais compatível com a literatura disponível. Acima disso, a estratégia exige individualização, teste prático, tolerância gastrointestinal e, idealmente, acompanhamento especializado.

O artigo reforça uma lição simples: em nutrição esportiva, copiar o protocolo extremo de atletas de elite pode ser menos inteligente do que entender a própria demanda metabólica. O carboidrato pode ser combustível. Mas, em excesso e fora de contexto, pode ser apenas uma carga extra para o intestino e para o metabolismo.

Fonte: https://doi.org/10.1007/s40279-026-02462-z

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