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Gama, o Grande: o lutador invicto que consumia litros de leite, carne e manteiga

Fotografia histórica do lutador indiano Gama, o Grande, conhecido pela força física e pelos treinamentos intensos

Um lutador de aproximadamente 1,73 m de altura conquistou fama mundial enfrentando adversários maiores e mais pesados, sem sofrer derrotas decisivas em uma carreira que atravessou décadas. Conhecido como Gama, o Grande, ele também ficou famoso por sua alimentação: litros de leite, carne, manteiga, ghee e amêndoas faziam parte de uma rotina de treinamento que hoje parece quase inacreditável.

Sua história foi documentada pelo antropólogo Joseph S. Alter em um artigo publicado em 1995 na revista Iron Game History. O trabalho reúne registros e relatos sobre a vida de Gama, oferecendo uma perspectiva interessante sobre a alimentação e o treinamento de atletas muito antes dos suplementos esportivos modernos.


Uma força extraordinária desde a infância

Ghulam Mohammad, conhecido como Gama, nasceu em 1878, na região de Punjab, então parte da Índia britânica. Seu pai era lutador, e a tradição da família acabou determinando seu caminho.

Aos seis anos, Gama perdeu o pai. Outros familiares assumiram sua educação e seus treinamentos, incentivando-o a seguir a carreira que o pai havia desejado para ele.

Por volta dos dez anos, participou de uma competição que reuniu mais de 400 lutadores. O desafio era simples: fazer o maior número possível de agachamentos.

Enquanto os adultos desistiam por cansaço, o menino continuava. Quando restavam apenas quinze participantes, o organizador encerrou a disputa e reconheceu o desempenho de Gama. Segundo os relatos, ele havia feito milhares de repetições e precisou passar uma semana se recuperando.

Naquela idade, sua rotina habitual já incluía cerca de 500 agachamentos e 500 flexões tradicionais indianas diariamente.


Milhares de agachamentos e dezenas de adversários

Gama treinava nos chamados akharas, espaços tradicionais de luta indiana, onde os atletas praticavam exercícios e combatiam em arenas de terra.

Os treinamentos incluíam dois movimentos muito conhecidos na Índia: os bethaks, semelhantes a agachamentos profundos, e os dands, uma espécie de flexão de braços com movimento do tronco.

Segundo os registros históricos reunidos por Joseph Alter, por volta de 1908 sua rotina teria alcançado números impressionantes:

  • 5.000 agachamentos tradicionais por dia;
  • 3.000 flexões indianas por dia;
  • Treinamento de luta com 40 outros lutadores;
  • Exercícios com pedras pesadas e equipamentos de madeira.

Imagine fazer algumas centenas de agachamentos e, depois, ainda precisar lutar contra vários adversários. Era aproximadamente esse o tipo de preparação descrito pelos biógrafos de Gama, embora em proporções muito maiores.

Esses números são relatos históricos, não medições feitas por pesquisadores. Não é possível confirmar que todas as repetições eram realmente executadas diariamente. Ainda assim, a rotina descrita demonstra a importância que o treinamento físico tinha naquela tradição.

A alimentação de Gama: muito leite, carne e gordura animal

O que mais chama atenção, além dos exercícios, é a quantidade de alimentos que Gama supostamente consumia.

Na época, lutadores de destaque recebiam apoio de governantes locais, que ofereciam instalações, moradia e alimentos em abundância. Comer bastante fazia parte da preparação, especialmente para quem passava horas treinando.

De acordo com o biógrafo Barkat Ali, citado por Alter, a alimentação atribuída a Gama por volta de 1908 incluía:

  • 10 litros de leite por dia;
  • Seis frangos ou um caldo concentrado preparado com aproximadamente 5 kg de carne de carneiro;
  • Meio litro de ghee, além de aproximadamente 113 g adicionais utilizados com a carne;
  • 750 g de pasta de amêndoas, preparada como bebida nutritiva;
  • Sucos de frutas e outros alimentos.

O ghee é uma manteiga clarificada, preparada pela retirada de grande parte da água e dos sólidos do leite. Por isso, é uma fonte bastante concentrada de gordura.

Outro relato, referente a um período anterior da vida de Gama, menciona 20 litros de leite, 750 g de manteiga, meio litro de ghee e 4 kg de frutas diariamente.

As quantidades variam entre as fontes e não existem registros alimentares que permitam confirmar esses consumos com precisão. Mesmo assim, as descrições mostram que leite, carne e gorduras animais ocupavam um lugar importante na alimentação de Gama.

Por que tanta carne, leite e manteiga?

Uma rotina de treinamento tão intensa exige energia. E os alimentos consumidos por Gama forneciam nutrientes importantes para sustentar suas atividades.

A carne oferecia proteínas, ferro, zinco e vitamina B12. O leite fornecia proteínas, gordura, cálcio e lactose, um açúcar natural do leite. Já a manteiga e o ghee concentravam grandes quantidades de energia em porções relativamente pequenas.

Isso ajuda a entender a lógica daquela alimentação. Para um atleta que treinava durante horas, ingerir muita comida era uma forma de atender às elevadas necessidades energéticas.

Também mostra que o consumo abundante de alimentos de origem animal entre atletas de força está longe de ser uma invenção recente.

Entretanto, Gama não seguia uma dieta carnívora estrita. Sua alimentação também incluía amêndoas, frutas e outros ingredientes vegetais. Sua história tampouco demonstra que consumir quantidades tão grandes de manteiga ou leite seja necessário para desenvolver força muscular.


O dia em que Gama desafiou os melhores lutadores do mundo

Em 1910, Gama viajou a Londres para enfrentar os principais lutadores internacionais.

Segundo os registros reunidos por Alter, derrotou o americano Benjamin "Doc" Roller em aproximadamente três minutos. Também ganhou notoriedade por enfrentar diversos adversários em sequência.

Seu confronto mais famoso aconteceu contra Stanislaus Zbyszko, um lutador polonês maior e mais pesado.

Na luta realizada em dezembro de 1910, Zbyszko adotou uma estratégia defensiva, permanecendo deitado sobre a arena durante boa parte do combate. Dessa maneira, dificultava as técnicas de Gama, que dependiam bastante de derrubar o adversário em pé.

O confronto terminou sem vencedor naquele dia. Uma continuação foi marcada, mas Zbyszko não compareceu. Gama acabou declarado campeão por ausência do adversário.

Portanto, sua reputação de invicto não significa que tenha vencido todas as lutas. Ele também teve empates documentados, inclusive contra Rahim Sultaniwalla, outro grande lutador indiano.


A revanche que terminou em 42 segundos

Dezoito anos depois, em janeiro de 1928, Gama voltou a enfrentar Zbyszko, dessa vez na Índia.

Gama estava com aproximadamente cinquenta anos. Seu adversário continuava sendo uma figura conhecida internacionalmente.

O confronto, que havia sido tão difícil em 1910, terminou quase imediatamente.

Segundo a reconstituição histórica publicada por Alter, Gama agarrou a perna do adversário, desequilibrou-o e conseguiu derrubá-lo em apenas 42 segundos.

A vitória consolidou sua reputação como um dos maiores lutadores de sua época. Gama continuou ligado ao esporte e encerrou sua carreira competitiva no início da década de 1940, mantendo sua fama de invencibilidade.


O que a história de Gama revela sobre alimentação e desempenho?

Gama viveu em uma época sem suplementos de proteína, aplicativos para contar calorias ou equipamentos modernos de musculação. Sua preparação combinava exercícios tradicionais, prática constante de luta e uma alimentação abundante, com grande participação de alimentos de origem animal.

Isso não permite afirmar que sua dieta tenha sido a causa de seu desempenho. Ele também possuía muitos anos de treinamento, técnica excepcional e uma estrutura dedicada à sua preparação.

Além disso, relatos biográficos não substituem estudos científicos capazes de comparar diferentes estratégias alimentares e seus efeitos sobre o desempenho físico.

Mesmo com essas limitações, sua história tem valor: mostra que carne, leite e gorduras animais já ocupavam um lugar central na preparação de atletas de força muito antes de a nutrição esportiva se transformar em uma indústria.

Gama se tornou um dos lutadores mais famosos de seu tempo treinando em arenas de terra e consumindo alimentos tradicionais. Sua trajetória é um exemplo histórico de força, disciplina e alimentação abundante, sem precisar transformar os detalhes de sua dieta em uma receita universal para a saúde ou o desempenho.

Fonte: Joseph S. Alter. Gama the World Champion: Wrestling and Physical Culture in Colonial India. Iron Game History, 4(2), 3–9, 1995.

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