Você termina o almoço.
Comeu carne, ovos, gordura. Está fisicamente satisfeito.
Então passa em frente à padaria.
Sente o cheiro do pão.
Vê uma sobremesa.
Ou chega aquela hora do dia em que você sempre tomava café com alguma coisa doce.
E, de repente, surge a sensação:
“Meu corpo está pedindo carboidrato.”
Mas será mesmo?
Talvez, em muitos casos, o corpo não esteja “pedindo” nada.
Talvez ele esteja apenas respondendo a um sinal que aprendeu a reconhecer.
E um cachorro estudado há mais de cem anos ajuda a entender por quê.
O cachorro de Pavlov não precisava estar com fome
A história popular diz que Ivan Pavlov tocava um sino e fazia cães salivarem.
O princípio é correto, embora seus experimentos tenham utilizado diferentes estímulos, incluindo metrônomos.
O ponto importante é outro.
Comida na boca naturalmente provoca salivação.
Isso não precisa ser aprendido.
Mas Pavlov começou a apresentar um sinal antes da comida.
Repetiu isso várias vezes.
Depois de algum tempo, bastava apresentar o sinal.
A comida nem precisava aparecer.
O cachorro salivava.
Seu organismo havia aprendido uma associação:
sinal → comida.
O estímulo passou a provocar uma resposta fisiológica antes mesmo de o alimento chegar.
Agora troque o metrônomo por algumas situações modernas:
- Sofá → chocolate.
- Cinema → pipoca.
- Café → biscoito.
- Depois do almoço → sobremesa.
- Estresse → doce.
- Sexta-feira → pizza.
- Televisão → petisco.
- Celular → belisco.
Talvez fique mais fácil perceber o problema.
Nem toda vontade de comer começa com falta de energia.
Às vezes começa com um contexto.
O ambiente também alimenta
Durante décadas, você pode repetir determinados comportamentos milhares de vezes.
Comer pão no café da manhã.
Tomar café com açúcar.
Terminar o almoço com sobremesa.
Comer alguma coisa enquanto assiste televisão.
Procurar chocolate quando está ansioso.
Abrir a geladeira quando está entediado.
Depois de anos de repetição, o cérebro não precisa fazer uma análise nutricional antes de gerar aquela vontade.
O ambiente dispara a resposta.
É exatamente por isso que algumas pessoas iniciam uma dieta carnívora e dizem:
“Mas meu corpo está pedindo pão.”
Talvez esteja.
Mas isso não significa necessariamente que exista uma deficiência de pão.
Você também pode sentir vontade de cigarro depois do café sem ter uma deficiência de nicotina.
Pode sentir vontade de olhar o celular ao ouvir uma notificação sem estar sofrendo de deficiência de Instagram.
Desejo e necessidade não são sinônimos.
Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes para quem reduz drasticamente os carboidratos. Para entender melhor essa discussão, veja também Carboidratos e a dieta carnívora.
Você passou décadas treinando esse comportamento
Imagine alguém que começa uma dieta carnívora aos 40 anos.
Durante quatro décadas, essa pessoa foi exposta repetidamente a combinações específicas de alimentos, horários e situações.
Aniversário tinha bolo.
Cinema tinha pipoca.
Café da manhã tinha pão.
Natal tinha sobremesa.
Ansiedade tinha chocolate.
Encontro com amigos tinha pizza ou cerveja.
Depois ela retira praticamente tudo isso.
O que acontece?
Os sinais permanecem.
Só que a recompensa que costumava vir depois deles desapareceu.
Às 16 horas, pode surgir vontade de comer mesmo sem fome real.
No supermercado, pode aparecer desejo ao passar pelo corredor de doces.
Num restaurante, a sobremesa pode parecer irresistível depois da refeição.
Isso não prova que a dieta esteja “faltando alguma coisa”.
Pode simplesmente mostrar que o cérebro ainda reconhece o antigo metrônomo.
Fome e vontade de comer não são exatamente a mesma coisa
Depois de anos seguindo uma alimentação com carboidratos ausentes ou mínimos, uma coisa fica particularmente evidente:
fome e vontade de comer não são exatamente a mesma coisa.
Fome fisiológica costuma ser relativamente simples.
Comida de verdade resolve.
Já o desejo condicionado costuma ser muito específico.
Você não quer simplesmente comer.
Você quer aquilo.
- Pão.
- Chocolate.
- Sorvete.
- Pizza.
- Cerveja.
- Sobremesa.
Esse detalhe é interessante.
Se alguém afirma estar morrendo de fome, mas rejeita carne e ovos enquanto continua querendo apenas um alimento específico, talvez a questão não seja simplesmente energia.
Existe também um componente de recompensa, hábito e aprendizado envolvido.
“Mas eu sempre gostei disso”
Essa é outra armadilha interessante.
Tendemos a interpretar preferências muito antigas como parte de nossa própria identidade.
“Eu sou formiga.”
“Não vivo sem pão.”
“Preciso de doce depois do almoço.”
“Meu corpo precisa de carboidrato.”
Mas Pavlov mostrou algo importante:
uma resposta pode parecer completamente automática depois de ter sido repetida muitas vezes.
Você já não percebe o aprendizado.
Percebe apenas o resultado.
É como dirigir.
No começo, você pensa em cada movimento.
Depois de alguns anos, simplesmente dirige.
Com a alimentação acontece algo semelhante.
Comportamentos repetidos deixam de parecer comportamentos aprendidos.
Passam a parecer parte de quem somos.
A indústria conhece muito bem esse mecanismo
Nada disso passou despercebido pela indústria de alimentos.
Produtos ultraprocessados são desenvolvidos para serem altamente palatáveis e consumidos dentro de ambientes repletos de estímulos.
- Embalagens.
- Cores.
- Aromas.
- Propaganda.
- Personagens.
- Promoções.
- Aplicativos.
- Notificações.
- Combinações de açúcar, gordura, amido, sal e textura.
O objetivo comercial é simples:
fazer você comprar novamente.
Quanto mais situações forem associadas ao produto, mais oportunidades existem para estimular o consumo.
Futebol combina com cerveja.
Cinema combina com refrigerante.
Café combina com biscoito.
Criança feliz combina com cereal açucarado.
Até que essas associações pareçam naturais.
Mas natural e aprendido não são a mesma coisa.
Esse tema é discutido com mais detalhes em Da Indústria do Tabaco aos Alimentos Ultraprocessados: Como a Engenharia Industrial Alimenta a Epidemia de Doenças Evitáveis.
Também vale consultar Transtornos alimentares do tipo compulsão e dependência de ultraprocessados, que aborda mecanismos relacionados à perda de controle alimentar.
É aqui que a simplicidade da dieta carnívora pode ajudar
Uma das características mais interessantes da dieta carnívora não está apenas nos nutrientes.
Está na redução das opções.
Carne.
Ovos.
Peixe.
Gordura animal.
Eventualmente outros alimentos de origem animal, dependendo da estratégia adotada.
Para algumas pessoas, isso reduz drasticamente o número de decisões alimentares ao longo do dia.
E isso pode interromper vários ciclos.
Não existe mais:
- “Só um pedacinho.”
- “Hoje eu mereço.”
- “Vou compensar amanhã.”
- “É saudável porque é integral.”
- “É fit.”
- “É sem açúcar.”
- “Só mais um.”
A pergunta pode ficar muito mais simples:
Estou com fome suficiente para comer carne?
Se a resposta for não, talvez não seja fome.
É uma regra imperfeita, mas bastante útil na prática.
A relação entre menor variedade, redução dos estímulos alimentares e saciedade é discutida em Dieta carnívora e variedade alimentar: comer de tudo não é sempre melhor.
Para quem está começando, há também uma referência prática: Lista completa dos alimentos da dieta carnívora: o que comer, o que evitar e por quê.
Mas o antigo comportamento pode voltar
Há outro detalhe dos experimentos de Pavlov que merece atenção.
Quando o estímulo condicionado era repetidamente apresentado sem a comida, a resposta diminuía progressivamente.
Esse processo ficou conhecido como extinção.
Mas a história não terminava aí.
Depois de um período sem exposição, aquela resposta podia reaparecer.
Esse fenômeno é conhecido como recuperação espontânea.
Ou seja:
enfraquecer uma associação não significa necessariamente apagá-la.
Isso ajuda a entender uma situação muito comum.
A pessoa passa semanas comendo bem.
A vontade de doce praticamente desaparece.
Então ocorre uma viagem.
Uma festa.
Um período de estresse.
Uma noite mal dormida.
Ela prova novamente aquele alimento.
E parece que alguma coisa antiga acordou.
Nos dias seguintes, a vontade aumenta.
Isso não significa necessariamente que todo o progresso foi perdido.
Significa que antigos circuitos comportamentais podem reaparecer quando encontram novamente seus estímulos.
O erro é interpretar isso como:
“Então não consigo.”
Uma interpretação mais útil seria:
“Esse circuito ainda existe.”
E voltar ao comportamento que estava funcionando.
O problema de transformar um deslize em identidade
Imagine alguém que comeu pizza depois de três meses seguindo sua alimentação.
Existem duas formas muito diferentes de interpretar isso.
A primeira:
“Fracassei. Não consigo manter dieta nenhuma.”
A segunda:
“Reativei um comportamento antigo. Amanhã volto à minha rotina.”
O evento foi exatamente o mesmo.
A narrativa foi completamente diferente.
E narrativas também condicionam comportamentos.
Quando alguém transforma um episódio alimentar em identidade, um deslize pode facilmente virar uma semana inteira.
Por isso talvez seja útil separar:
o que você fez
de
quem você é.
Você comeu alguma coisa fora da estratégia.
Isso é um comportamento.
Não precisa virar uma definição pessoal.
Essa ideia se relaciona diretamente com outro texto do site: Talvez você não tenha falhado na dieta: o problema pode ter sido a estratégia.
Identifique seu metrônomo
Em vez de simplesmente lutar contra a vontade, observe quando ela aparece.
Pergunte:
O que aconteceu imediatamente antes?
- Foi uma hora específica?
- Estresse?
- Tédio?
- Cheiro?
- Uma propaganda?
- Alguém comendo ao seu lado?
- Álcool?
- Pouco sono?
- Uma discussão?
- O caminho para casa?
- Entrar na cozinha?
- Sentar diante da televisão?
Às vezes você percebe que aquilo que chamava de “fome” aparece quase sempre nas mesmas circunstâncias.
Esse padrão é informação.
Você começa a enxergar o metrônomo.
E é difícil mudar uma associação que você nem sabe que existe.
A dieta carnívora pode ser também um exercício de desaprendizado
Muito se fala sobre o que alguém passa a comer ao adotar uma dieta carnívora.
Talvez igualmente importante seja aquilo que deixa de fazer.
Deixa de beliscar.
Deixa de negociar consigo mesmo diante de centenas de produtos.
Deixa de buscar sobremesa automaticamente.
Deixa de associar qualquer emoção à comida.
Deixa de acreditar que toda vontade precisa ser atendida.
Com o tempo, novos padrões podem aparecer.
Fome → refeição.
Refeição → saciedade.
Estresse → resolver o problema.
Tédio → procurar alguma atividade.
Festa → conversar com pessoas.
Cinema → assistir ao filme.
Parece banal.
Mas talvez seja exatamente esse o ponto.
A comida volta a ocupar um espaço menor na vida.
O objetivo não deveria ser passar a vida resistindo
Uma estratégia alimentar difícil de sustentar não deveria depender de força de vontade permanente.
É muito mais interessante quando a própria resposta aos estímulos começa a mudar.
A pessoa que antes precisava lutar contra o pão todos os dias pode perceber, meses depois, que simplesmente não pensa nele.
Não porque desenvolveu uma força de vontade sobre-humana.
O antigo sinal perdeu força.
Outros hábitos ocuparam seu lugar.
Foi aproximadamente isso que Pavlov observou no laboratório.
Associações são construídas por repetição.
E podem ser enfraquecidas por novas experiências repetidas.
A saciedade também participa desse processo. Para aprofundar o tema, veja Por que a proteína suprime seu apetite?.
Então seu corpo realmente está pedindo carboidrato?
Às vezes você pode estar simplesmente com fome.
Em outros momentos, pode existir uma combinação de fome, hábito, recompensa, contexto e condicionamento.
A fisiologia humana obviamente é mais complexa que um experimento com cães, e seria simplista tentar explicar todo comportamento alimentar pelo condicionamento clássico.
Mas a lição permanece válida:
sentir vontade de alguma coisa não demonstra que você precisa dela.
Essa distinção muda muita coisa.
Principalmente quando alguém está abandonando alimentos que consumiu diariamente durante décadas.
Depois de tempo suficiente, o metrônomo pode tocar e nada acontecer.
O pão está ali.
A sobremesa está ali.
O anúncio aparece.
Alguém abre um pacote de biscoitos ao lado.
E você simplesmente continua o que estava fazendo.
Talvez esse seja um dos sinais mais interessantes de adaptação:
não passar o resto da vida lutando contra a comida.
Mas perceber que ela deixou de comandar você.
Sinal.
Pausa.
Escolha.
Porque aquilo que foi aprendido também pode ser reaprendido.
Referências
- American Psychological Association. The Essentials of Conditioning and Learning, 5ª edição . Obra de referência sobre condicionamento pavloviano, aprendizagem, extinção e controle por estímulos.
- American Psychological Association. Learning: A Five-Day Lesson Plan for High School Psychology Teachers . Material didático que descreve condicionamento clássico, extinção e recuperação espontânea.
Observação: o condicionamento clássico é utilizado neste texto como modelo para compreender parte do comportamento alimentar. Fome, apetite, preferência alimentar e compulsão são fenômenos complexos e não podem ser explicados exclusivamente pelo condicionamento pavloviano. Da mesma forma, a evidência clínica específica sobre dieta carnívora ainda é limitada e deve ser interpretada dentro desse contexto.
