O estudo descreve que os alimentos ultraprocessados (AUPs) não são apenas “alimentos prontos”: eles são produtos desenhados industrialmente para aumentar o prazer, acelerar a entrega de ingredientes reforçadores e favorecer o consumo repetido, com impacto negativo sobre a regulação do apetite. O texto propõe que, para entender o problema e formular políticas públicas mais eficazes, é útil olhar para o que já aconteceu com o tabaco, porque as estratégias de engenharia e de mercado apresentam paralelos claros.
O artigo é uma análise conceitual que integra evidências de ciência da dependência, nutrição, epidemiologia e história da saúde pública, usando como referência histórica central a trajetória regulatória do cigarro e a forma como a indústria tornou a nicotina “fácil” de consumir, rápida de chegar ao cérebro e difícil de abandonar.
A ideia central: “não é só o ingrediente, é o veículo”
O trabalho insiste em um ponto que muda o foco da conversa: não é apenas a presença de carboidratos e gorduras que explicaria o consumo compulsivo, mas sim a forma industrial (dose, combinação, textura, velocidade de absorção e estímulos sensoriais) com que esses componentes são entregues.
Ele compara o cigarro e os AUPs como “sistemas de entrega”: o cigarro foi desenvolvido para levar nicotina ao cérebro em segundos; muitos AUPs são desenvolvidos para entregar carboidratos refinados e gorduras adicionadas com digestão e absorção rápidas, além de estímulos sensoriais intensos e curtos, que favorecem o “querer mais”.
Cinco estratégias de engenharia que aproximam AUPs e cigarros
1) Otimização de dose: o “ponto exato” entre prazer e aversão
O artigo descreve que cigarros modernos foram padronizados para manter uma faixa de nicotina que reforça o consumo sem causar aversão imediata. Em paralelo, AUPs são formulados para atingir um “ponto ideal” de palatabilidade: carboidratos refinados e gorduras adicionadas em combinações e proporções que maximizam prazer e desejo, sem gerar desconforto sensorial.
O texto também traz exemplos comparativos de concentração: bebidas açucaradas frequentemente entregam cerca de 10% a 12% de açúcar, enquanto líquidos naturalmente doces (como leite e leite humano) costumam apresentar concentrações menores de açúcar na forma de lactose, segundo os valores citados na discussão do artigo.
2) Velocidade de entrega: reforço rápido tende a reforçar mais
Um princípio da ciência da dependência destacado pelo estudo é que quanto mais rápido o reforçador chega ao cérebro, maior o potencial de reforço e repetição do comportamento. No cigarro, isso é maximizado por inalação e por técnicas industriais que aumentam a biodisponibilidade e a eficiência da entrega de nicotina.
Nos AUPs, a lógica é semelhante: a indústria remove ou reduz elementos que “freiam” a digestão (como matriz alimentar intacta, água e fibras) e pode empregar processos e aditivos que favorecem texturas que exigem menos mastigação e absorção mais rápida. O artigo usa expressões fortes para ilustrar essa ideia: alguns AUPs podem ser entendidos como “pré-mastigados”, “pré-salivados” e “pré-digeridos”, no sentido de que o processamento industrial antecipa etapas que, em alimentos minimamente processados, ocorreriam de forma mais lenta.
3) Engenharia hedônica: sabor, aroma, textura e “curta duração” do prazer
O estudo descreve que parte do “gancho” está no desenho de experiências sensoriais: sabores, aromas, textura e até sons (como crocância e estalos de embalagem) funcionam como pistas que reforçam o consumo e podem consolidar preferências de marca ao longo do tempo.
Um ponto importante é o conceito de prazer intenso e breve, seguido de queda rápida — o que favorece repetição. No tabaco, o pico subjetivo ocorre rapidamente e desaparece, abrindo espaço para novo impulso. Em AUPs, o artigo descreve como “explosões” de sabor e textura podem desaparecer rápido, e como oscilações glicêmicas após consumo de carboidratos rapidamente absorvíveis podem contribuir para mais vontade de comer em curto intervalo de tempo.
4) Ubiquidade ambiental: acesso sem atrito, em toda parte
O texto enfatiza que o produto não domina só pelo que é, mas por onde está. Assim como o cigarro se tornou historicamente presente em múltiplos contextos, AUPs são descritos como parte de um ambiente em que comer deixa de ter limites claros de lugar e hora. Embalagens, durabilidade, conveniência e infraestrutura (vending machines, compras rápidas, aplicativos de entrega) reduzem atritos entre desejo e consumo.
Nessa lógica, a autocontenção vira uma tarefa mais difícil porque as pistas ambientais se repetem o tempo inteiro, e o contexto sinaliza que “é possível e apropriado” consumir.
5) “Health washing”: reformular para parecer menos nocivo sem perder o apelo
O artigo descreve como a indústria do tabaco usou filtros e versões “light” para sugerir menor risco sem reduzir dano real de forma proporcional. Em AUPs, estratégias análogas aparecem em rótulos e reformulações: “baixo teor”, “sem açúcar”, “enriquecido com vitaminas”, “com fibras”, “com proteína”, ou adição de adoçantes não açucarados — muitas vezes preservando o perfil de reforço e o apelo do produto.
O argumento não depende de afirmar que todo produto reformulado é inútil; o ponto é que, historicamente, esse tipo de movimento pode atrasar respostas regulatórias e confundir percepção de risco, mantendo o consumo em níveis elevados.
O que isso muda na forma de pensar políticas públicas
O artigo defende que AUPs devem ser avaliados não só por uma lente de nutrientes, mas também como produtos industrialmente projetados para reforço, com impactos populacionais relevantes. E sugere adaptar ferramentas que ajudaram a reduzir danos do tabaco, como:
- Restrições de marketing voltado a crianças.
- Taxação de produtos com pior perfil, como estratégia eficaz na história do tabaco.
- Rotulagem mais clara sobre ultraprocessamento e reformulações enganosas.
- Limitar disponibilidade em escolas e hospitais, ambientes onde o interesse público deveria ser ainda mais protetor.
- Ações legais e responsabilização, à semelhança do que ocorreu quando litígios expuseram práticas internas da indústria do tabaco.
O texto também reforça uma lição histórica: quando um mercado forte encontra regulações mais rígidas em alguns lugares, tende a migrar e expandir para regiões com proteção mais frágil — e o artigo afirma que os AUPs seguem uma trajetória semelhante de expansão.
Fechamento: da “culpa individual” para o desenho do ambiente
Ao final, a mensagem é direta: não basta dizer às pessoas para “terem força de vontade” diante de produtos projetados para serem altamente reforçadores, amplamente disponíveis e constantemente promovidos. A proposta é deslocar o debate para accountability (responsabilização) e para intervenções estruturais que reduzam exposição, atrito zero e marketing, ao mesmo tempo em que facilitem o acesso a alimentos minimamente e tradicionalmente processados.
Fonte: https://doi.org/10.1111/1468-0009.70066
