As Dietary Guidelines for Americans (DGA) 2025–2030 chegam com uma mensagem que tende a facilitar a vida de quem só quer comer melhor sem decorar “nutrientes”: priorizar alimentos integrais e densos em nutrientes e reduzir de forma importante o consumo de itens altamente processados. No documento principal, esse direcionamento aparece de modo bem prático, inclusive com orientações claras sobre proteínas e laticínios. Ele recomenda priorizar alimentos proteicos e consumir variedade de proteínas de origem animal (ovos, aves, frutos do mar e carne vermelha) e também opções vegetais, além de sugerir metas diárias de proteína por kg de peso corporal. Também reconhece o papel dos alimentos no intestino, ao mencionar que alimentos altamente processados podem prejudicar o equilíbrio do microbioma, enquanto alimentos como vegetais, frutas, fermentados e opções ricas em fibra podem apoiar diversidade microbiana.
Outro ponto que chama atenção é a forma direta como o texto orienta o cotidiano: evitar alimentos prontos “doces ou salgados” (como chips, biscoitos e doces), priorizar refeições preparadas em casa, limitar sabores artificiais, corantes e conservantes, e evitar bebidas adoçadas. Esse “voltar ao básico” é coerente com o próprio relatório científico em apêndices, que descreve como produtos altamente/ultraprocessados frequentemente reúnem amidos refinados, açúcares adicionados, sódio, emulsificantes e outros aditivos, além de baixa densidade de micronutrientes e fibra, e resume mecanismos plausíveis como aumento de densidade energética, prejuízo de sinais de saciedade e efeitos sobre microbiota.
Onde surge o problema: o documento principal mantém um teto numérico para gordura saturada
Apesar do “espírito” de comida de verdade, o documento principal ainda traz uma regra específica: “em geral, o consumo de gordura saturada não deve exceder 10% das calorias diárias”. Curiosamente, no mesmo trecho ele reconhece que reduzir alimentos altamente processados pode ajudar a atingir esse objetivo e admite que “mais pesquisa de alta qualidade é necessária” para determinar quais tipos de gorduras melhor sustentam a saúde no longo prazo.
Essa combinação (teto rígido + admissão de incerteza) fica ainda mais difícil de sustentar quando se lê o material técnico que acompanha as Diretrizes.
O que o Apêndice 4.6 diz sobre reduzir gordura saturada abaixo de 10%
O Apêndice 4.6 foi escrito para responder exatamente à pergunta que justifica uma recomendação populacional: se reduzir gordura saturada para <10% da energia diminui doença coronariana ou mortalidade. No resumo (Abstract), os autores deixam explícito que, embora o limite de <10% tenha sido defendido por décadas, permanece incerto se ensaios clínicos mostram que essa estratégia reduz doença coronariana ou mortalidade.
Na parte de “Results” e “Conclusions”, o apêndice afirma que:
- Apenas três revisões se enquadraram como estimativas de substituição causal, e todas avaliaram troca por PUFA ômega-6 (principalmente ácido linoleico de óleos vegetais);
- Nessas sínteses, não houve redução de mortalidade por todas as causas (certeza moderada) nem de mortalidade por doença coronariana (certeza moderada), e não houve efeito consistente sobre eventos coronarianos (certeza muito baixa);
- A conclusão é direta: a evidência causal de ensaios clínicos não demonstra que reduzir gordura saturada para <10% — particularmente substituindo por óleos ricos em ácido linoleico — reduza doença coronariana ou mortalidade.
O mesmo conjunto de apêndices ainda registra, em texto explícito, um chamado para reavaliar o alvo de <10% de energia dentro das Diretrizes, destacando a importância de especificar o nutriente de substituição e a necessidade de novos ensaios clínicos modernos antes de recomendações fortes para toda a população.
O que o Apêndice 4.7 acrescenta: mortalidade e desfechos cardiovasculares
O Apêndice 4.7 (“Saturated Fat Intake, Mortality & Cardiovascular Disease”) reforça a crítica ao teto de 10% com outro ângulo: ele descreve uma revisão sistemática/guarda-chuva com 26 estudos (2001–2025) e 65 estimativas de risco em incidência de doença e mortalidade.
O ponto mais marcante do resumo é a afirmação de que a base de evidências historicamente usada para inferir risco de “gordura saturada” estaria amplamente confundida por óleos parcialmente hidrogenados (PHO), fontes de gorduras trans industriais. O texto afirma que, em muitos estudos e revisões, efeitos combinados de “gordura saturada + trans (SF+PHO)” teriam sido atribuídos à gordura saturada, e que isso dificultaria distinguir o que é efeito de um componente versus do outro.
Ainda no resumo do Apêndice 4.7, os autores relatam que 67% das análises encontraram resultados nulos (sem relação) entre SF+PHO e desfechos cardiovasculares, e apresentam uma síntese por grau de certeza, incluindo “alta certeza” para nenhum efeito sobre mortalidade total e mortalidade por doença coronariana, além de efeitos descritos como benéficos para incidência de AVC. A conclusão do resumo é formulada de modo incisivo: as recomendações atuais de limitar a gordura saturada a 10% “carecem de suporte evidencial” porque os estudos teriam confundido gordura saturada com gorduras trans industriais (PHO).
O apêndice também inclui um “Statement of Findings” e recomendações preliminares que defendem ênfase em alimentos densos em nutrientes independentemente do teor natural de gordura saturada e mencionam a possibilidade de reconsiderar restrições e a própria proeminência do nutriente em rotulagem, com a ressalva de que estudos futuros deveriam separar claramente gorduras saturadas naturais de gorduras trans industriais/PHO e usar desfechos clínicos “duros”.
A contradição que um leitor comum não deveria precisar “descobrir”
Ao colocar lado a lado os documentos, o contraste fica evidente:
- No documento principal, existe uma regra simples e de alto impacto (“não exceder 10%”).
- No Apêndice 4.6, que avalia evidência causal de ensaios clínicos para o alvo <10%, a conclusão afirma que essa redução não demonstrou diminuir doença coronariana ou mortalidade.
- No Apêndice 4.7, a síntese vai além e declara que a recomendação de 10% carece de suporte evidencial, citando confusão histórica com gorduras trans industriais (PHO).
Para quem está tentando apenas seguir orientações oficiais, isso cria um ruído desnecessário: o texto principal entrega uma regra numérica rígida, mas o próprio material técnico anexado questiona a base clínica e metodológica que sustentaria esse teto e chega a pedir reavaliação do alvo. O resultado é que uma diretriz que acerta ao chamar atenção para comida de verdade e redução de ultraprocessados acaba carregando, nesse ponto específico, um “legado” que os próprios apêndices descrevem como não adequadamente sustentado para recomendações populacionais fortes.
Pensamentos finais
Ao valorizar alimentos integrais, proteína de qualidade e redução de ultraprocessados, as DGA 2025–2030 oferecem um norte mais aplicável no dia a dia. A crítica, baseada nos próprios anexos oficiais, é pontual: manter o teto de 10% para gordura saturada no documento principal não parece alinhado com o que os Apêndices 4.6 e 4.7 registram sobre a força e as limitações da evidência disponível para sustentar essa regra como recomendação populacional.
Referências (nos próprios documentos oficiais):
- Dietary Guidelines for Americans (DGA) 2025–2030
- The Scientific Foundation for the Dietary Guidelines for Americans 2025–2030: Appendices — Apêndice 4.6 e Apêndice 4.7; indicação do conjunto de apêndices e sumário
Fonte: https://realfood.gov


