O artigo apresenta o caso de um homem de 58 anos, na Índia, com diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e hipertensão arterial há cerca de 20 anos, que, apesar de múltiplos medicamentos e de uma “dieta para diabetes” rica em carboidratos, manteve períodos de controle inadequado e acumulou complicações ao longo do tempo. Em janeiro de 2024, após receber orientação para iniciar insulina e diálise, ele procurou uma equipe médica e iniciou uma abordagem dietética descrita como dieta carnívora sem carboidratos (“no carbohydrate carnivore diet”).
O relato afirma que, em aproximadamente 4 meses, houve remissão de DM2 e hipertensão, com suspensão de medicamentos por decisão do endocrinologista responsável (médico assistente do paciente), baseada nos registros domiciliares de glicemia e pressão arterial e em exames laboratoriais periódicos.
Quem era o paciente e qual era o histórico clínico
Segundo o artigo, o paciente:
- Foi diagnosticado com DM2 em maio de 2004, com HbA1c 7,0% e glicemias de jejum e pós-prandial em torno de 157 mg/dL e 150 mg/dL, respectivamente.
- Recebeu, ao longo dos anos, diversas combinações de fármacos (ex.: metformina, sulfonilureias, inibidores de DPP-4, SGLT2, anti-hipertensivos e estatina), com oscilações importantes de controle glicêmico (ex.: HbA1c chegando a 11,3% em 2011 e 12,2% em 2021, conforme registros do próprio caso).
- Desenvolveu complicações relatadas no texto, incluindo retinopatia diabética, catarata, doença renal crônica e esteatose hepática.
- Em janeiro de 2024, foi identificado um quadro compatível com carcinoma de células renais, posteriormente confirmado por exames de imagem, com metástases descritas.
Como foi a intervenção dietética no caso
A dieta foi descrita como:
- Sem carboidratos, composta por “alimentos densos em nutrientes”, com objetivo de atingir ≥ 1 g/kg/dia de proteína e o dobro em gordura (conforme redação do artigo).
- Sem restrição do tipo de carne: o paciente poderia consumir ovos, frango, carne de carneiro, búfalo, porco, peixes gordurosos e camarão.
- Exclusão de óleos de sementes para cozinhar; uso de ghee, manteiga, sebo ou óleo de coco virgem.
- Alimentação ad libitum (até saciedade), com registro de ingestão por aplicativo.
- Registro diário de glicemia de jejum e pressão arterial em planilha compartilhada, monitorada remotamente pela equipe e familiares.
- O paciente também realizou jejum intermitente e, em alguns momentos, tentou jejuns de 24 horas (descrição do caso).
Quais resultados foram relatados
Os principais desfechos objetivos apresentados no artigo incluem:
Controle glicêmico
- Entre meados de janeiro e abril de 2024, a glicemia de jejum média foi relatada em torno de 100 mg/dL (variação 76–136 mg/dL).
- Em abril de 2024, a média reportada foi 96 mg/dL (variação 76–110 mg/dL).
- A HbA1c caiu de 6,9% (29/jan/2024) para 5,4% (15/abr/2024), com valores intermediários relatados (6,3% em 04/fev/2024 e 5,1% em 22/mar/2024).
- O caso também relata insulina de jejum baixa, com valores informados de 4,21 mIU/L (04/fev/2024), 3,74 mIU/L (22/mar/2024) e 2,48 mIU/L (15/abr/2024).
Pressão arterial e medicamentos
- De março a abril de 2024, a pressão arterial média registrada em casa foi 125/87 mmHg.
- Em março de 2024, houve redução gradual de medicamentos baseada nos registros domiciliares, sob supervisão médica remota.
- Em maio de 2024, o endocrinologista do paciente interrompeu os medicamentos hipoglicemiantes e anti-hipertensivos, registrando que o paciente teria atingido remissão de DM2 e hipertensão.
Função renal
O paciente já tinha doença renal crônica antes da dieta. O artigo informa, durante o período em dieta carnívora:
- Creatinina relatada em torno de 2,36 mg/dL (29/jan/2024), 2,08 (04/fev/2024), 1,83 (22/mar/2024), 1,86 (15/abr/2024) e 1,82 (10/jul/2024).
- eTFG (por EPI) relatada subindo de 28,34 (29/jan/2024) para valores em torno de 39–40 mL/min/1,73 m² (março–julho/2024), conforme a tabela do artigo.
- Ureia permaneceu elevada no período, com valores registrados (ex.: 77 mg/dL, 64,91, 86,14, 74,15, 81,73 mg/dL nas datas listadas).
O autor destaca que, naquele acompanhamento, não houve “deterioração drástica” e que a eTFG melhorou, contrapondo uma crença comum de piora inevitável com maior ingestão de proteína. Importante: isso é uma observação de um único caso, sem capacidade de estabelecer causalidade por si só.
O que este relato permite concluir
O que ele sustenta, com base nos dados apresentados
No caso descrito, uma estratégia de remoção de carboidratos com padrão alimentar exclusivamente de origem animal, associada a acompanhamento e autorregistros, coincidiu com:
- redução importante de HbA1c para faixa compatível com controle muito melhor,
- normalização de glicemias de jejum em grande parte do período,
- retirada de medicamentos para glicemia e pressão,
- manutenção desses desfechos até o óbito do paciente (que ocorreu por complicações oncológicas, segundo o relato).
Limitações
- Trata-se de um único relato de caso, sem grupo controle.
- O autor afirma que a segurança em longo prazo da dieta permanece desconhecida e que não se podem fazer generalizações.
- Houve fatores clínicos concomitantes relevantes (incluindo câncer e tratamentos oncológicos), e o texto observa que os benefícios aparentes foram metabólicos, sem sugerir impacto sobre progressão do câncer.
Mensagem prática baseada estritamente no relato
Este artigo não prova que a dieta carnívora funcione para todas as pessoas com DM2. Ainda assim, ele documenta, com números e cronologia, que reduzir carboidratos de forma extrema pode se associar a melhora expressiva de marcadores glicêmicos e permitir desprescrição sob supervisão médica em um caso específico, mesmo após muitos anos de doença e uso de múltiplos fármacos. No próprio caso, o acompanhamento incluiu registros frequentes e revisão médica, o que é particularmente relevante quando há risco de hipoglicemia durante ajustes de medicamentos.
Fonte: https://doi.org/10.7762/cnr.2025.0026
