Energia “no rótulo” não é a mesma coisa que energia “no corpo”: o que esta revisão sistemática esclarece sobre calorias


A contagem de calorias é frequentemente tratada como se fosse uma matemática perfeita: comeu “X”, então o corpo recebeu “X”. A revisão sistemática publicada na Advances in Nutrition mostra, com medições diretas em humanos, que essa equivalência nem sempre acontece. O motivo é simples: entre a energia que entra pela boca e a energia que realmente fica disponível para o organismo, existem perdas inevitáveis — principalmente pelas fezes e, em menor grau, pela urina. E essas perdas podem variar conforme a quantidade e a composição da dieta.

O estudo reuniu pesquisas em adultos (1973 até julho de 2024) que mediram a energia do que foi ingerido e a energia eliminada, usando calorimetria de bomba (um método de laboratório para quantificar energia). A partir disso, os autores organizaram a discussão em dois conceitos que tornam a ideia de “calorias” mais realista: energia digestível e energia metabolizável.

O que significa “caloria” neste estudo

A revisão não está falando apenas da “caloria teórica” de tabelas e rótulos. Ela está focada em quanto dessa energia vira energia aproveitada pelo corpo.

  • Energia digestível (ED): energia ingerida menos a energia que sai nas fezes.
  • Energia metabolizável (EM): energia digestível menos a energia que sai na urina.

Em linguagem comum: a energia metabolizável é uma aproximação melhor da energia que realmente “fica disponível” para funções do corpo, manutenção e armazenamento.

O que o estudo acrescenta de novo, de forma clara e intuitiva

A principal contribuição é mostrar que caloria ingerida não é sinônimo de caloria absorvida. Em vez de tratar o corpo como um sistema onde tudo o que entra é automaticamente aproveitado, o artigo coloca luz no “caminho” que a energia faz — e em como a dieta muda esse caminho.

Ele também ajuda a entender por que, na vida real, duas pessoas podem registrar “a mesma ingestão calórica” e ainda assim ter resultados diferentes, ou por que duas dietas com calorias parecidas podem não entregar exatamente a mesma energia ao organismo.

Achados que apareceram com mais consistência

1) Dietas mais ricas em fibra tendem a reduzir a energia aproveitada

Entre os pontos mais consistentes da revisão, dietas com maior teor de fibra aparecem associadas a menor proporção de energia digestível e metabolizável. A explicação prática é que, quando mais energia “escapa” pelo intestino, a energia disponível cai.

Importante: isso descreve absorção de energia, não é, por si só, um julgamento de “saúde” do alimento. O estudo não mede desfechos como infarto, câncer ou mortalidade; ele mede quanto de energia foi aproveitada.

2) Oleaginosas (castanhas/nozes) também podem render menos energia “real” do que a estimada

A revisão inclui estudos em que a inclusão de amêndoas, nozes, pistache e castanha de caju reduziu a energia efetivamente absorvida, sugerindo que a energia “na prática” pode ser menor do que a calculada por fatores tradicionais usados em rótulos e tabelas.

De forma simples: parte da energia dessas estruturas alimentares pode não ser totalmente liberada e absorvida durante a digestão.

3) Dietas com perfil mais alto em proteína e gordura podem ter alta eficiência de absorção

Dentro dos estudos compilados, há dados mostrando que dietas com alto teor de proteína e gordura apresentaram percentuais altos de ED e EM em comparação com outras composições avaliadas naquele contexto experimental. Isso não significa “melhor” ou “pior” em saúde; significa que, naquele conjunto de medições, a energia foi bem aproveitada.

4) Comer muito mais pode aumentar perdas absolutas, sem virar uma conta perfeita 1:1

Em cenários de superalimentação, vários trabalhos mostraram aumento das perdas absolutas de energia nas fezes e/ou urina. Isso ajuda a deixar intuitivo um ponto que confunde muita gente: aumentar muito as calorias ingeridas nem sempre se traduz em aumento perfeitamente proporcional da energia efetivamente aproveitada.

A relevância prática das “calorias” depois desta revisão

A revisão não “derruba” o conceito de calorias. Ela coloca as calorias no lugar correto:

  • Calorias são um ponto de partida, mas não descrevem tudo sozinhas.
  • A energia que importa biologicamente é a que o corpo absorve e metaboliza (EM).
  • Composição alimentar (por exemplo, mais fibra e oleaginosas) pode mudar a diferença entre “ingerido” e “aproveitado”.

Em termos intuitivos, a lógica fica assim: não é apenas quanto se come, mas quanto o organismo consegue transformar em energia disponível.

Limitações que o próprio artigo reconhece

A revisão reuniu 23 estudos, mas com diferenças importantes entre eles (protocolos, duração, características dos participantes e condições experimentais). Por isso, os autores fazem uma síntese cuidadosa e reforçam que ainda são necessários estudos mais padronizados para mapear, com mais precisão, como idade, estado de saúde e composição da dieta mudam ED e EM em diferentes populações.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.advnut.2026.100597

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