Ingestão de carboidratos no metabolismo do exercício e no desempenho físico


Este artigo, publicado na Endocrine Reviews, é uma revisão extensa sobre um tema que atravessa décadas de debates no esporte: o que a ingestão de carboidratos durante o exercício realmente faz com o metabolismo e com o desempenho. Os autores analisam mais de 100 anos de evidências e mais de 160 estudos, revisitando desde pesquisas clássicas até dados mais recentes para responder uma pergunta prática: por que, afinal, carboidrato “funciona” em esforços prolongados?


O ponto central que a revisão defende (e que muda o foco do debate)

Ao longo do texto, os autores argumentam que a explicação tradicional — “o desempenho cai porque o glicogênio muscular acaba” — foi tratada como doutrina por muito tempo, mas não explica bem vários resultados observados em estudos. O trabalho destaca, de forma repetida, que um marcador aparece com força quando o exercício é prolongado: a hipoglicemia induzida pelo exercício (EIH), isto é, a queda da glicose no sangue durante o esforço.

Na síntese dos autores, a EIH se correlaciona fortemente com o momento em que o exercício é interrompido, enquanto a depleção de glicogênio muscular, sozinha, não explica de maneira consistente a fadiga global nem a interrupção do exercício em muitos cenários.

Principais achados relatados pelos autores

1) Carboidrato durante o exercício: o “benefício principal” não seria reabastecer músculo

A revisão descreve que a ingestão de carboidratos durante esforços prolongados tende a preservar a glicose no sangue, em parte por efeitos sobre a produção hepática de glicose, e que isso pode ocorrer sem necessariamente reduzir a quebra de glicogênio muscular, um ponto tratado como paradoxal em diversos trechos do trabalho. A implicação prática apresentada é que o benefício central estaria mais ligado a evitar queda de glicose do que a “poupar glicogênio do músculo” como explicação universal.

2) Dose: mais carboidrato nem sempre significa mais desempenho

Nos “pontos essenciais”, os autores afirmam que a evidência revisada não sustenta um ganho claramente dose-dependente acima de ingestões baixas a moderadas durante o exercício (o texto cita aproximadamente 15–30 g/h como faixa em que o benefício já aparece, com ênfase na prevenção de EIH como eixo principal).

3) O trabalho propõe um ajuste de mira nas estratégias nutricionais

Perto do final, a revisão apresenta uma interpretação direta: estratégias para maximizar desempenho em exercício prolongado deveriam priorizar manter o “pool” de glicose circulante durante o esforço, em vez de focar apenas em “encher” estoques antes do exercício. Nesse contexto, os autores mencionam que isso pode ser alcançado com quantidades relativamente pequenas de carboidrato durante o exercício (por exemplo, ~10 g/h), conforme discutido no texto.

Agora, a parte que interessa às dietas de baixo carboidrato e alta gordura

Aqui aparece uma ironia fisiológica bem documentada no próprio artigo: o corpo consegue sustentar altas taxas de oxidação de gordura, e isso nem sempre vem acompanhado de queda automática de desempenho — embora a manutenção da glicose no sangue continue sendo um ponto crítico em esforços longos.

1) Atletas adaptados a alta gordura podem oxidar muita gordura e manter desempenho

No resumo, os autores destacam que evidências emergentes mostram atletas adaptados a alta gordura apresentando oxidação de gordura excepcional e desempenho equivalente, apesar de menores estoques de glicogênio e menor oxidação de carboidrato, o que desafia a crença de que carboidrato seria um combustível “obrigatório” para desempenho em todos os contextos.

2) Dieta baixa em carboidrato e o “calcanhar de Aquiles” em esforço prolongado: a glicose no sangue

Ao discutir estudos clássicos, o artigo descreve situações em que um padrão de baixa ingestão de carboidratos antes do exercício se associou a hipoglicemia precoce e interrupção antecipada do esforço em determinados indivíduos, com altas taxas de oxidação de gordura coexistindo com queda de glicose. Essa linha histórica é usada para reforçar a tese do trabalho: em exercício prolongado, o problema determinante pode ser a EIH — não um suposto “apagão inevitável” por falta de glicogênio muscular em qualquer circunstância.

3) Um resultado particularmente relevante: baixo vs. alto carboidrato por 6 semanas, e o papel de uma dose pequena durante o exercício

A revisão descreve um estudo em que atletas foram habituados por 6 semanas a dieta alta ou baixa em carboidratos e, depois, testados em exercício prolongado. O ponto salientado pelos autores é que o desempenho submáximo prolongado não diferiu entre os padrões, mas a ingestão de ~10 g de carboidrato por hora durante o exercício esteve associada a melhora de desempenho (12%–20%) e à eliminação da EIH, fortalecendo a interpretação de que estabilizar a glicose sanguínea pode ser decisivo nesse cenário.

O que este artigo adiciona ao debate, em termos práticos

A revisão não trata carboidrato como “inútil”, nem vende a ideia de que “glicogênio não importa”. O que ela faz é reposicionar o centro da discussão: ao compilar um grande volume de estudos, os autores defendem que, em exercícios prolongados, prevenir hipoglicemia induzida pelo exercício aparece como explicação mais consistente para o benefício da ingestão de carboidratos do que a narrativa clássica de “poupar glicogênio muscular”. Dentro disso, dietas de baixo carboidrato e alta gordura entram como um exemplo importante de que o organismo pode operar com alta oxidação de gordura e, ainda assim, sustentar desempenho — desde que a fisiologia da glicose circulante não seja ignorada.

Fonte: https://doi.org/10.1210/endrev/bnaf038

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