Deficiências de micronutrientes e nutrientes associadas à terapia com agonistas do receptor de GLP-1: uma revisão narrativa


O uso de agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (AR de GLP-1), como semaglutida, liraglutida e tirzepatida, cresceu rapidamente no manejo da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2 (DM2). A revisão narrativa publicada na revista Clinical Obesity reuniu evidências recentes sobre um ponto que, na prática, costuma ficar em segundo plano: o risco de insuficiência de nutrientes e deficiências de micronutrientes durante a terapia, em especial quando a ingestão alimentar cai de forma importante.

A lógica clínica é direta. Esses fármacos podem reduzir a ingestão energética pela supressão do apetite, além de influenciar o esvaziamento gástrico e, potencialmente, a absorção intestinal. A revisão destaca que, em alguns cenários, a ingestão diária pode ficar abaixo de 800 kcal/dia, faixa associada a maior probabilidade de carências nutricionais. Tudo isso importa porque perda de peso rápida e ingestão insuficiente de proteína, vitaminas e minerais podem se traduzir em queda de massa magra, anemia e sintomas neurológicos em situações específicas.

Como a revisão foi feita

Os autores realizaram busca estruturada em PubMed e Cochrane (janeiro/2019 a maio/2025), incluindo estudos em adultos (>18 anos) com obesidade e/ou DM2 que reportassem desfechos nutricionais ou de micronutrientes durante uso de AR de GLP-1. Ao final, seis estudos preencheram critérios e, somados, envolveram 480.825 adultos. A síntese foi descritiva (sem meta-análise), principalmente por heterogeneidade de métodos e desfechos. (Artigo principal: Urbina et al., 2026).

O que a revisão encontrou na prática

1) Vitamina D: o achado mais frequente nos grandes bancos de dados

No maior conjunto de dados (coorte observacional retrospectiva com 461.382 usuários iniciando AR de GLP-1), a deficiência de vitamina D foi a anormalidade mais comum:

  • 7,5% aos 6 meses
  • 13,6% aos 12 meses
  • (Estudo base: Butsch et al., 2025; sintetizado na Tabela 2 da revisão).

Em uma análise comparativa de prontuários eletrônicos (programa All of Us), a terapia com AR de GLP-1 apareceu associada a maior risco de deficiência de vitamina D em comparação com classes como iSGLT2 e iDPP-4, com estimativas de risco relativo descritas pelos autores. (Pré-print citado na revisão: Salvatore et al., 2025).

2) Ferro: queda de ferritina e anemia por deficiência de ferro aparecem de forma repetida

A revisão descreve sinais consistentes de alteração em marcadores de ferro:

  • Na coorte grande, a deficiência relacionada ao ferro aumentou com o tempo (por exemplo, 1,6% aos 6 meses e 3,2% aos 12 meses, conforme síntese apresentada na Tabela 2). (Butsch et al., 2025)
  • Um estudo piloto prospectivo com semaglutida mediu absorção intestinal de ferro antes e após 10 semanas e relatou redução da absorção em teste oral de tolerância ao ferro. (Melis et al., 2025)
  • Em pessoas com DM2 e hemocromatose hereditária, o uso de AR de GLP-1 foi associado a menores níveis de ferritina em comparação a iSGLT2. (Bain et al., 2023)

3) Ingestão alimentar: cálcio, ferro, vitamina D e proteína frequentemente abaixo do recomendado

Em estudo transversal com registro alimentar de 3 dias, a revisão relata que grande parcela dos usuários não atingia ingestões de referência para nutrientes-chave:

  • Baixíssima proporção atingindo 100% da recomendação de vitamina D
  • Alta prevalência de ingestão abaixo do necessário para ferro e cálcio
  • Proporção relevante sem atingir metas de proteína descritas no próprio estudo
  • (Estudo citado: Johnson et al., 2025)

4) Massa magra e “perda muscular”: por que a proteína entra no centro da conversa

No banco de dados analisado por Butsch et al., houve registro de “muscle loss” (perda muscular) em 2,1% aos 6 meses e 3,0% aos 12 meses, segundo a síntese apresentada na revisão. (Butsch et al., 2025)

A revisão também cita uma discussão técnica sobre mudanças na massa magra em terapias baseadas em GLP-1, reforçando a relevância clínica de manter ingestão proteica adequada durante a perda de peso. (Neeland et al., 2024)

5) Tiamina (vitamina B1): risco raro, porém crítico quando há vômitos e perda de peso rápida

Um dos pontos mais importantes do texto é o alerta sobre deficiência de tiamina em cenários de vômitos persistentes e forte restrição alimentar. A revisão cita relatos de encefalopatia de Wernicke associada ao uso de semaglutida e enfatiza que, quando há suspeita clínica, a reposição deve ser iniciada sem aguardar confirmação laboratorial, devido ao risco de dano neurológico. (Exemplo citado: Sheth et al., 2024; análise adicional: Gras et al., 2025)

O que a revisão conclui (e o que ela não permite afirmar)

A conclusão é que há sinais clínicos relevantes de deficiência de micronutrientes e insuficiência alimentar em usuários de AR de GLP-1, com destaque para vitamina D, ferro e vitaminas do complexo B, além de preocupações com massa magra quando proteína e cálcio ficam aquém. Ao mesmo tempo, a revisão é explícita ao reconhecer limitações: a base de evidências é majoritariamente observacional, com heterogeneidade importante e ausência de grandes ensaios randomizados focados nesses desfechos — portanto, não é possível estabelecer causalidade de forma definitiva apenas com os dados atuais. (Síntese geral: Urbina et al., 2026)

Implicação prática descrita pelos autores: avaliação nutricional direcionada

A revisão afirma que ainda não existem diretrizes estabelecidas especificamente para monitoramento nutricional em usuários de AR de GLP-1. Em vez de triagem universal para todos, os autores descrevem como razoável uma abordagem individualizada e baseada em risco, sobretudo em fases de perda de peso acelerada, sintomas gastrointestinais persistentes ou ingestão muito reduzida. Eles listam, como exemplos de exames a considerar conforme o contexto clínico: hemograma completo, ferritina, vitamina D, vitamina B12, tiamina, folato, cálcio, magnésio e zinco, além de marcadores nutricionais como albumina ou pré-albumina, alinhando essa visão a recomendações amplas de cuidado nutricional em obesidade. (Discussão e referências citadas na revisão, incluindo: Mozaffarian et al., 2025)

Fonte: https://doi.org/10.1111/cob.70070

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