No início do século XX, antes da insulinoterapia se tornar disponível, uma das prioridades no manejo do diabetes mellitus era eliminar a glicose na urina (glicosúria) sem levar o paciente à inanição. Newburgh e Marsh descrevem que, na prática clínica da época, era comum evitar carboidratos e concentrar a dieta em proteínas, mantendo a gordura baixa por medo de “acidose perigosa”. O problema, segundo os autores, era que a dieta “alta em proteína” frequentemente mantinha glicosúria em casos graves, a menos que o total de energia fosse reduzido a níveis que deixavam o paciente incapaz para as atividades diárias.
O que os autores propuseram
O artigo apresenta a experiência clínica com uma estratégia alimentar em que a maior parte da energia vinha da gordura, com proteína suficiente para equilíbrio nitrogenado e carboidrato mínimo “necessário para compor uma dieta que uma pessoa consiga seguir por longo período”.
Protocolo prático descrito
Ao internar, o paciente era colocado em um esquema escalonado:
- Fase inicial (900–1.000 kcal/dia): aproximadamente 90 g de gordura, 10 g de proteína e 14 g de carboidratos.
- Após 1–2 semanas sem açúcar na urina, aumento para cerca de 1.400 kcal/dia: 140 g de gordura, 28 g de proteína, 15–20 g de carboidratos.
- Em pessoas maiores, novo aumento para cerca de 1.800 kcal/dia: 170 g de gordura, 30–40 g de proteína, 25–30 g de carboidratos.
- Em casos selecionados, os autores mencionam aumentos adicionais “até 2.500 kcal” conforme a necessidade individual.
Quais resultados eles afirmam ter observado
Para defender a proposta, os autores estabelecem quatro critérios:
- evitar glicosúria em diabéticos graves;
- não precipitar acidose;
- manter equilíbrio nitrogenado;
- permitir uma vida ao menos moderadamente ativa.
1) Controle de glicosúria em casos graves (relato de série)
Eles relatam ter aplicado o método em 73 casos “sem seleção” e afirmam que todos foram mantidos sem açúcar na urina até a alta.
Para ilustrar, descrevem casos em que:
- A urina ficou livre de açúcar após dias a semanas na dieta rica em gordura, e voltou a aparecer açúcar quando a composição foi trocada para uma dieta com muita proteína, mesmo mantendo calorias semelhantes; ao retornar à dieta rica em gordura, o açúcar urinário desapareceu novamente. Isso é apresentado em relatos e gráficos (ex.: casos 2 e 3, com mudança dietética e retorno da glicosúria).
2) Acidose: o medo “clássico” da gordura não se confirmou, segundo o artigo
Os autores afirmam que não observaram desenvolvimento de acidose grave atribuível à dieta rica em gordura. Além disso, descrevem que sinais de acidose já presentes na admissão (monitorados por testes urinários como reação ao cloreto férrico e descrições clínicas) tenderam a regredir durante o esquema proposto. Eles trazem exemplos de casos em que a reação ao cloreto férrico se torna negativa juntamente com a melhora do quadro urinário.
3) Equilíbrio nitrogenado com proteína relativamente baixa
Como a dieta era “comparativamente baixa em proteína”, os autores discutem o risco de proteína insuficiente e descrevem avaliações de balanço de nitrogênio (ingestão estimada por tabelas alimentares e saída medida por método laboratorial). Em parte dos casos estudados desse modo, eles concluem que cerca de 0,66 g de proteína por kg de peso corporal poderia ser suficiente para manter o balanço nitrogenado em diabéticos, de forma semelhante ao que era aceito para pessoas sem diabetes.
4) Capacidade funcional e vida cotidiana
O texto enfatiza que, ao evitar a “semi-inanição” necessária em alguns pacientes sob dietas com mais proteína, a estratégia rica em gordura teria permitido retomar atividades. Eles descrevem exemplos de pacientes que, após alta com dietas de 1.800–2.500 kcal predominantemente de gordura, relataram melhora funcional (retorno ao trabalho, retomada de tarefas domésticas), mantendo urina sem açúcar em reavaliações.
Como eram as refeições na prática
No apêndice, o artigo inclui modelos de cardápios “ricos em gordura, baixos em proteína e baixos em carboidratos”, com exemplos detalhados por refeição (jantar, ceia e café da manhã), contabilizando gramas de macronutrientes e calorias. Aparecem combinações como:
- carnes em pequenas porções acompanhadas de manteiga,
- saladas com maionese/óleo,
- bacon e ovos,
- creme em bebidas,
- vegetais em porções medidas.
Limitações
Sem extrapolar além do que está documentado, alguns limites ficam claros pela forma como o estudo é apresentado:
- Trata-se de um relato clínico de série de casos (experiência de serviço), sem descrição de um desenho experimental controlado no padrão atual.
- Os próprios autores reconhecem que a experiência era “breve” em relação à cronicidade do diabetes e que não discutiriam resultados “eventuais” de longo prazo naquele momento.
- A avaliação de acidose e cetose é descrita com ferramentas clínicas e laboratoriais da época (como testes urinários), o que contextualiza como os desfechos eram monitorados em 1920.
O que este artigo representa historicamente
Este trabalho registra uma tentativa de resolver um dilema clínico muito concreto para aquela época: manter o paciente sem glicosúria sem “morrer de fome”, usando a gordura como principal fonte de energia e mantendo proteína no mínimo necessário para equilíbrio nitrogenado. Independentemente das práticas atuais, o texto é um documento histórico sobre como médicos raciocinavam e testavam estratégias dietéticas no diabetes antes da insulina.
Fonte: http://doi.org/10.1001/archinte.1920.00100060002001
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