Explorando a Adesão e a Aceitabilidade de um Regime de Restrição Intermitente de Carboidratos (ICARB) em Adultos em Vida Livre: um Estudo de Viabilidade


Com o aumento de obesidade e de alterações metabólicas, cresce o interesse por intervenções alimentares que sejam eficazes e, principalmente, viáveis no dia a dia. Nesse cenário, a restrição intermitente de carboidratos (ICARB) foi proposta como alternativa prática à restrição intermitente de energia (como o modelo 5:2), com a hipótese de induzir adaptações metabólicas semelhantes às observadas em períodos de jejum, mas sem impor redução calórica obrigatória. O objetivo deste estudo foi avaliar viabilidade, adesão e aceitabilidade de um protocolo de 4 semanas de ICARB em adultos em “vida livre” (fora de ambiente controlado), além de observar mudanças em ingestão alimentar, composição corporal e parâmetros metabólicos medidos em jejum.

Como o protocolo ICARB foi aplicado

A intervenção foi simples e “operacional”:

  • Duas vezes por semana, em dias não consecutivos, a pessoa limitava carboidratos a ≤ 50 g/dia (dias de baixo carboidrato).
  • Nos outros 5 dias, a alimentação era livre (ad libitum), sem metas de calorias e sem outras restrições impostas.

Para aumentar a chance de adesão, os participantes receberam uma sessão educativa e um manual com um sistema de classificação de alimentos por teor de carboidrato (com orientação prática de leitura de rótulos), o que ajudou a transformar a meta “≤ 50 g” em decisões mais objetivas no cotidiano (descrição do protocolo e materiais no próprio artigo, incluindo métodos e intervenção).

Quem participou

Foram recrutados adultos saudáveis (19–65 anos), com IMC entre 19 e 39 kg/m², peso estável e sem condições médicas diagnosticadas. Pessoas com atividade física elevada (>3 sessões/semana), uso de medicamentos que alteram peso, gestação/lactação e sinais de transtornos alimentares ou sono ruim foram excluídas. Ao todo, 37 foram incluídos e 34 concluíram as 4 semanas (alta retenção).

Adesão: o “ponto central” do estudo

O estudo avaliou adesão com recordatórios alimentares de 24 h em semanas 1 e 4 (um dia de baixo carboidrato e um dia normal). Os resultados mostram dois retratos importantes:

  1. Adesão em análise estrita (considerando todo mundo que iniciou). Quando desistências e dados incompletos entram como “não aderentes”, a adesão global ficou em 64,9% (o próprio artigo destaca esse ponto ao discutir critérios de viabilidade).
  2. Adesão entre quem permaneceu engajado e entregou dados válidos. Entre os participantes com dados completos, a adesão foi alta: 24 de 28 atingiram ≤ 50 g/dia nos dois momentos (semanas 1 e 4), o que corresponde a 85,7% de adesão nesse subgrupo. Além disso, a redução média de carboidratos nos dias de baixo carboidrato foi grande e consistente entre o início e o final do protocolo (o artigo reporta valores de redução e médias de ingestão nos diferentes dias).

Em termos práticos, isso sugere que o desenho “apenas 2 dias por semana” pode ser executável, mas a qualidade do acompanhamento e a completude de registros fazem diferença enorme na taxa “oficial” de adesão — algo que os autores apontam como prioridade para estudos futuros.

Aceitabilidade: o que as pessoas relataram (e o que dificultou)

Ao final, 34 participantes passaram por entrevista de saída. A análise temática encontrou um equilíbrio típico de intervenções reais: benefícios percebidos, mas também barreiras sociais e logísticas.

Benefícios percebidos (relatos qualitativos)

Os participantes frequentemente mencionaram:

  • maior consciência alimentar (passaram a observar mais rótulos e escolhas),
  • melhora de energia,
  • melhora de humor e foco em dias de baixo carboidrato (em parte dos relatos).

Esses achados qualitativos caminham junto com a ideia do protocolo como “gatilho comportamental”: a pessoa não só restringe carboidratos dois dias, como passa a prestar mais atenção no padrão alimentar geral.

Principais dificuldades

As barreiras mais recorrentes foram:

  • eventos sociais e refeições fora de casa (dificuldade de encontrar opções compatíveis),
  • limitação de escolhas e dúvidas sobre o que realmente é “baixo carboidrato”,
  • desejos por doces e certos alimentos.

Como estratégia de adaptação, muitos relataram que planejamento e rotina foram decisivos: organizar compras, definir dias fixos e ter opções “seguras” ajudou a reduzir a fricção do protocolo com a vida real.

Disposição para continuar

Um dado relevante de aceitabilidade foi a intenção de continuidade: o estudo relata que a maioria demonstrou disposição para manter o padrão por mais tempo, com uma parcela expressiva afirmando que conseguiria seguir por períodos longos (inclusive “um ano ou mais” em parte dos relatos). Ao mesmo tempo, o artigo ressalta que intenção não garante execução, já que alguns que diziam conseguir manter não atingiam a meta em todos os dias avaliados.

O que mudou na alimentação (e por que isso importa)

Nos dias de baixo carboidrato, houve queda marcante de carboidratos e, como compensação, aumento de proteína e gorduras (a substituição pareceu ocorrer principalmente por proteína no início). Também houve:

  • redução de açúcares livres nos dias de baixo carboidrato,
  • redução de fibra nesses dias (como era esperado ao restringir fontes comuns de carboidrato),
  • melhora de alguns marcadores de “qualidade alimentar”, como maior aderência a recomendações de consumo de peixes e aumento do consumo de vegetais relatado por participantes (o artigo descreve aumento de “5 porções/dia” e maior consumo de peixe, especialmente em dias de baixo carboidrato).

O estudo também discute que a redução de sódio em dias de baixo carboidrato pode refletir menor uso de alimentos ultraprocessados, que concentram sódio e açúcares na dieta ocidental.

Desfechos corporais e metabólicos observados em 4 semanas

Como não havia prescrição de déficit calórico, não era esperado grande emagrecimento no grupo inteiro. E, de fato, no conjunto dos participantes que completaram o protocolo, não houve mudanças relevantes em massa gorda, peso e outros parâmetros em nível de grupo.

Entretanto, ao olhar separadamente quem tinha IMC ≥ 25 kg/m², apareceu um sinal positivo:

  • redução média de peso em torno de 1,1 kg e redução de massa gorda (o estudo relata significância estatística para essas mudanças no subgrupo com excesso de peso).

Ao mesmo tempo, a massa livre de gordura foi preservada (sem queda relevante), o que os autores relacionam ao aumento de ingestão de proteína durante o protocolo. Eles também alertam que o método de bioimpedância pode sofrer influência de alterações de glicogênio e água corporal durante restrição de carboidratos, recomendando métodos mais precisos em estudos futuros.

O que este estudo permite concluir (sem extrapolar)

Com base apenas no que foi medido e relatado:

  • O ICARB, nesse formato 2 dias/semana com ≤ 50 g de carboidratos, mostrou-se viável e bem aceito por 4 semanas em adultos em vida livre, com alta retenção e boa adesão entre os participantes engajados.
  • Os relatos sugerem que a flexibilidade do protocolo (comparada a restrições diárias) favorece aceitabilidade, mas ambiente social e falta de opções continuam sendo obstáculos reais.
  • Em curto prazo, houve um sinal de redução de peso e massa gorda em pessoas com excesso de peso, enquanto o grupo como um todo permaneceu estável — coerente com a ausência de restrição calórica obrigatória.
  • O próprio artigo reforça que são necessários estudos mais longos e controlados para confirmar efeitos metabólicos e comportamentais em diferentes populações.


Fonte: https://doi.org/10.1111/jhn.70188

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