Associação entre duração e qualidade do sono com colesterol LDL pequeno e denso


Em exames de rotina, muitas pessoas recebem resultados de colesterol e se perguntam se o sono pode estar influenciando esses números. Um artigo recém-aceito no Journal of Clinical Lipidology investigou exatamente isso: como duração e qualidade do sono se relacionam com diferentes marcadores lipídicos, com destaque para o colesterol da LDL pequena e densa (LDLpd-C), uma subfração da LDL associada a maior potencial aterogênico.

O que é “LDL pequena e densa” (LDLpd)

A LDL não é uma partícula única e sempre igual. Há variações de tamanho e densidade. A LDL pequena e densa tende a ser considerada mais desfavorável por estar associada a maior risco aterosclerótico em diferentes coortes e análises, e por isso vem sendo usada como marcador adicional em alguns contextos clínicos (discussão e referências no próprio artigo).

Como o estudo foi conduzido

O trabalho analisou 24.984 japoneses (14.370 homens e 10.614 mulheres), com dados de check-up de saúde entre abril de 2018 e março de 2019. A duração do sono foi autorreferida e classificada em <6 h, 6–8 h e ≥8 h. A qualidade do sono também foi autorreferida: foi considerada ruim quando a pessoa relatou ao menos um sintoma de insônia (dificuldade para iniciar o sono, despertar precoce, sono não restaurador, ou dificuldade de manter o sono). Os lipídios foram medidos em jejum, incluindo LDLpd-C por método laboratorial específico descrito pelos autores.

Principais resultados

1) Qualidade do sono se associou a LDLpd-C mais alta

Ao comparar pessoas com boa versus má qualidade do sono, o grupo com sono ruim apresentou níveis mais altos de LDLpd-C, além de triglicerídeos e da razão LDLpd-C/LDL-C, em ambos os sexos (tabelas do artigo).

2) O efeito apareceu principalmente quando o sono era menor que 8 horas

Quando os autores separaram por duração do sono, o padrão ficou claro:

  • Sono <6 h

    • Homens: mediana de LDLpd-C 34,1 mg/dL (sono ruim) vs 31,7 mg/dL (sono bom)
    • Mulheres: mediana de LDLpd-C 26,9 mg/dL (sono ruim) vs 24,0 mg/dL (sono bom)
  • Sono 6–8 h
    • O mesmo “desenho” se repetiu: sono ruim associado a LDLpd-C mais alta.
  • Sono ≥8 h
    • Não houve diferença significativa de LDLpd-C entre sono bom e ruim.

3) A associação persistiu após ajustes estatísticos importantes

Na análise multivariada (ajustada para fatores como idade, IMC, triglicerídeos, HbA1c, tabagismo, álcool e categoria de duração do sono), sono ruim permaneceu associado a LDLpd-C mais alta:

  • Homens: exp(β) 1,012 (associação pequena, mas estatisticamente significativa)
  • Mulheres: exp(β) 1,018 (associação pequena, mas estatisticamente significativa)

No mesmo modelo, os autores não observaram associação consistente entre “sono ruim” e LDL-C total direta, reforçando que a diferença pode aparecer com mais nitidez quando se olha a subfração LDLpd-C.

Como interpretar

O texto do artigo sustenta uma leitura pragmática: a qualidade do sono se relacionou com um perfil lipídico menos favorável, especialmente por maior LDLpd-C, e isso apareceu com mais força quando a pessoa dormia menos de 8 horas.

Ao mesmo tempo, a própria discussão do estudo deixa limites bem definidos:

  • É um estudo transversal (uma fotografia), então não prova causa e efeito.
  • Sono foi autorreferido, o que pode trazer imprecisões.
  • Não há desfechos “duros” (infarto, AVC); o foco foi um marcador substituto (LDLpd-C).
  • A amostra é composta apenas por japoneses, então a generalização para outras populações exige cautela.

Conclusão

Na prática clínica do dia a dia, este estudo acrescenta uma mensagem objetiva: quando a pessoa dorme menos de 8 horas, a qualidade do sono parece caminhar junto com alterações lipídicas que podem aumentar o risco cardiometabólico, com destaque para LDLpd-C. O trabalho não afirma que o sono, sozinho, “cria” o problema; ele mostra uma associação consistente em uma amostra grande, sugerindo que olhar para qualidade do sono pode ser tão relevante quanto olhar apenas para “quantas horas” a pessoa dorme.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.jacl.2025.12.020

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