O consumo frequente de bebidas adoçadas, como refrigerantes tipo cola, é considerado um problema de saúde pública. Diante disso, um grupo de pesquisadores buscou responder a uma pergunta bem específica: o que acontece quando, por um período prolongado, a água é totalmente substituída por cola — com açúcar ou sem açúcar — e quais seriam os possíveis mecanismos envolvidos, especialmente no intestino.
Como os pesquisadores testaram a hipótese
Os autores criaram um modelo experimental incomum e direto: em vez de “adicionar” cola à rotina, eles substituíram completamente a água pela bebida.
- Amostra: 24 ratos Sprague–Dawley
- Grupos (n=8): água; cola com açúcar; cola sem açúcar
- Duração: 8 semanas
- Avaliações principais: peso e medidas corporais; índices de órgãos (com atenção para timo e baço); hemograma; exames bioquímicos séricos; e microbiota intestinal por sequenciamento do gene 16S rRNA, além de análises de rede e correlações entre microrganismos e marcadores do organismo.
O que foi observado no organismo
Ao final do período, os resultados apontaram alterações que, no conjunto, sugerem impacto imunológico e metabólico, mesmo quando a bebida não continha açúcar.
1) Sinais compatíveis com supressão imune
Tanto a cola com açúcar quanto a cola sem açúcar se associaram a:
- Redução do índice do timo, um órgão ligado ao desenvolvimento e à função de células do sistema imune.
- Leucopenia (queda de leucócitos no sangue), descrita pelos autores como compatível com imunossupressão.
Além disso, ambos os grupos que consumiram cola apresentaram redução de proteína total.
2) Estresse renal e alterações em órgãos imunes
Os grupos não tiveram um perfil idêntico:
- No grupo cola com açúcar, houve aumento de ureia (BUN), interpretado como estresse renal, e também aumento do índice do baço.
- No grupo cola sem açúcar, os autores observaram elevação de transaminases, indicando alteração em enzimas relacionadas ao fígado, e destacaram que essa elevação foi significativa quando comparada ao grupo que recebeu cola com açúcar.
O que mudou no intestino
O estudo deu grande ênfase ao intestino por um motivo: a microbiota participa de funções que vão além da digestão, incluindo interações com o sistema imune.
1) Alteração da estrutura da microbiota
Ambas as colas modificaram de forma significativa a microbiota intestinal, incluindo:
- Mudanças em diversidade e em abundância relativa de microrganismos.
- Deslocamentos descritos pelos autores nas proporções de Firmicutes e Bacteroidota.
- Alterações em gêneros associados ao ácido lático, como Ligilactobacillus e Lactobacillus.
2) Redes de coabundância e correlações com marcadores do corpo
Ao analisar como os microrganismos “se relacionavam” entre si (rede de coabundância), os autores relataram uma rede com relações complexas, envolvendo principalmente Lactobacillus, Romboutsia e outros táxons.
Mais importante: alguns grupos bacterianos mostraram correlações estatisticamente significativas com marcadores do organismo:
- Bacteroidota e um grupo descrito como Lactobacillus não classificado se correlacionaram com índices de órgãos imunes (timo e baço) e com BUN (marcador associado à função renal no estudo).
Essas associações sustentam a interpretação central dos autores: as bebidas podem afetar o organismo não apenas por açúcar, mas também por mudanças relevantes no ecossistema intestinal.
Conclusão dos autores
Usando esse modelo de “troca total” da água por cola, os autores concluíram que o consumo prolongado de cola com ou sem açúcar:
- perturba a microbiota intestinal (disbiose),
- se associa a disfunção imune, e
- pode comprometer marcadores ligados à função renal — com achados adicionais envolvendo enzimas hepáticas no grupo sem açúcar.
Eles ainda afirmam que os dados servem como alerta para impactos do consumo regular e reforçam a necessidade de maior escrutínio sobre adoçantes artificiais, dado o perfil observado com cola sem açúcar.
Limitações que o próprio desenho impõe
O trabalho é um estudo em ratos, com um cenário experimental específico: substituição completa da água por refrigerante por 8 semanas. Isso permite observar efeitos de forma mais clara dentro do modelo, mas não transforma automaticamente o resultado em equivalência direta para hábitos humanos em diferentes contextos. Ainda assim, dentro do que foi medido, os achados foram consistentes em apontar alterações imunológicas e intestinais mesmo sem açúcar.
Fonte: https://doi.org/10.3389/fnut.2025.1707842
