Durante décadas, a acne vulgar (AV) foi explicada, principalmente, por processos locais na pele: aumento da atividade das glândulas sebáceas, obstrução do folículo, colonização microbiana e inflamação. O estudo de 2007 publicado no Journal of the American Academy of Dermatology entrou nessa história por uma via diferente: testar, de forma controlada, se a composição da dieta (especialmente a carga glicêmica) poderia influenciar não só as lesões na pele, mas também marcadores hormonais e metabólicos ligados à fisiologia da acne.
Como o ensaio foi feito
Os pesquisadores conduziram um ensaio clínico de 12 semanas, paralelo, randomizado, controlado e com avaliador mascarado (o profissional que contava as lesões não sabia em qual grupo cada participante estava). Participaram homens de 15 a 25 anos com acne facial leve a moderada, e 43 completaram o protocolo (23 no grupo experimental e 20 no controle). A contagem de lesões foi feita em visitas mensais e padronizada com técnica de mapeamento facial para aumentar a reprodutibilidade.
Para reduzir interferências, ambos os grupos receberam o mesmo produto de higiene facial (um sabonete/limpador suave não comedogênico, sem ativo específico para acne), buscando isolar melhor o efeito da dieta.
O que foi comparado na alimentação
O ponto central foi a carga glicêmica (CG) da dieta — uma medida que combina quantidade de carboidrato e velocidade de absorção (relacionada ao índice glicêmico, IG). O grupo experimental recebeu orientação para reduzir CG substituindo parte de carboidratos de maior IG por opções de menor IG e por alimentos com mais proteína (por exemplo, carnes magras, aves e peixes), com uma meta aproximada de 25% da energia em proteína, 45% em carboidratos de baixo IG e 30% em gorduras. Já o grupo controle seguiu uma dieta “convencional”, com maior presença de carboidratos e alimentos de moderado a alto IG, semelhantes ao padrão habitual observado nos registros alimentares dos participantes.
Na prática, durante o estudo, o grupo de baixa CG apresentou redução importante do IG e da CG diários, aumento da proporção de proteína e aumento de fibras quando comparado ao controle. A adesão foi acompanhada com registros alimentares e também por um indicador objetivo: aumento da razão ureia/creatinina urinária no grupo de baixa CG, compatível com maior ingestão proteica.
O que aconteceu com as lesões de acne
Ao final de 12 semanas, ambos os grupos melhoraram, mas o grupo de baixa CG teve queda maior:
- Lesões totais: redução média ajustada de 21,9 no grupo de baixa CG versus 13,8 no controle (P = 0,01).
- Lesões inflamatórias: redução média ajustada de 16,0 no grupo de baixa CG versus 8,4 no controle (P = 0,02).
As próprias imagens clínicas do artigo ilustram melhora visível em participantes do grupo de baixa CG.
O que mudou “por dentro”: insulina, SHBG e proteínas ligadoras do IGF
O estudo não ficou apenas na pele. Ele mediu marcadores que ajudam a explicar um caminho plausível: dieta → insulina/sensibilidade à insulina → disponibilidade de andrógenos e sinalização do IGF → impacto na acne.
Principais achados entre os grupos ao final de 12 semanas:
- Insulina em jejum: diferença significativa entre grupos (P = 0,03), com tendência a melhora no grupo de baixa CG e tendência oposta no controle.
- HOMA-IR (estimativa de resistência à insulina): diferença entre grupos (P = 0,02).
- SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais): o controle teve queda mais pronunciada; a diferença entre grupos foi significativa (P = 0,03). Como a SHBG influencia a fração “livre” de hormônios sexuais, essa mudança é relevante para a discussão hormonal da acne.
- FAI (índice de andrógeno livre): houve diferença entre grupos (P = 0,04), com redução no grupo de baixa CG.
- IGFBP-1 (proteína ligadora do fator de crescimento semelhante à insulina): aumentou no grupo de baixa CG e diferiu do controle (P = 0,001). Isso importa porque o IGF circula ligado a proteínas; mudanças nessas proteínas podem alterar a fração biologicamente ativa.
O próprio artigo também mostra que a melhora das lesões se associou a mudanças em marcadores metabólicos/hormonais quando os dados foram analisados em conjunto (por exemplo, relação entre mudança no HOMA-IR e mudança na contagem de lesões; e relação entre SHBG e lesões).
Um detalhe que não pode ser ignorado: o peso mudou
Aqui está uma parte decisiva para interpretar o estudo com honestidade. Embora a orientação do grupo de baixa CG tenha sido planejada para ser isocalórica, esse grupo acabou reduzindo ingestão energética, perdeu mais peso e reduziu medidas de adiposidade (IMC, percentual de gordura e circunferência da cintura) em comparação ao controle.
E quando os autores ajustaram estatisticamente os resultados pela mudança de IMC, parte dos efeitos perdeu significância (por exemplo, para lesões totais). Ou seja: o estudo não consegue separar completamente o que veio da composição da dieta do que veio da perda de peso. Isso aparece explicitamente como limitação no texto.
O que este ensaio permite concluir
Com base no que foi medido e relatado, o ensaio sustenta uma conclusão objetiva: em homens jovens com acne leve a moderada, uma intervenção alimentar voltada a reduzir a carga glicêmica e aumentar a participação de proteína esteve associada a maior redução de lesões, acompanhada de mudanças em marcadores ligados à insulina e a proteínas carreadoras hormonais, ao longo de 12 semanas.
Ao mesmo tempo, o próprio estudo impõe cautela: por ter ocorrido perda de peso no grupo experimental, ele não prova que apenas “trocar alimentos” sem mudar o peso teria o mesmo efeito. E, por ser um estudo relativamente pequeno e com população específica (homens jovens), ele não descreve automaticamente o que aconteceria em outros perfis. Essas ressalvas também são parte da conclusão dos autores, que tratam os achados como preliminares e pedem confirmações em estudos maiores.
Fonte: https://doi.org/10.1016/j.jaad.2007.01.046
