Absorção de zinco, cobre e magnésio a partir de uma dieta rica em fibras


Ao observar as recomendações alimentares modernas, é comum encontrar o incentivo ao aumento de alimentos ricos em fibras, como cereais integrais e leguminosas. O estudo de Knudsen, Sandström e Solgaard (1996) analisou um ponto delicado desse cenário: quando a fibra aumenta, costuma aumentar também o fitato (ácido fítico), e isso pode dificultar a absorção de minerais essenciais. O trabalho não discutiu “ideias” abstratas — ele mediu, com método metabólico controlado, o que efetivamente entrou e saiu do corpo.

O que foi testado

O estudo avaliou 8 adultos saudáveis em 21 dias de ingestão constante de uma dieta de alimentos convencionais, com padrão rico em fibras e fitato. O objetivo era quantificar absorção, excreção e, principalmente, o balanço (retenção líquida) de três minerais: zinco, cobre e magnésio.

A dieta continha, por 10 MJ: 29 g de fibra, 1,0 mmol de ácido fítico, 140 μmol de zinco, 13 μmol de cobre e 9 mmol de magnésio.

Para estimar a absorção, os pesquisadores adicionaram isótopos estáveis desses minerais a um dia de dieta e acompanharam a eliminação fecal; em paralelo, calcularam absorção aparente, retenção/balanço e perdas endógenas a partir das excreções fecais e urinárias ao longo do período de balanço.

O desfecho negativo central: balanço mineral desfavorável

O resultado mais importante do artigo não foi apenas “quanto se absorveu”, mas o que aconteceu ao fechar a conta: quanto entrou versus quanto saiu.

1) Zinco: absorção medida, mas retenção não sustentada

A absorção fracionária de zinco foi estimada em 29 ± 12%, equivalente a cerca de 48 ± 20 μmol absorvidos no dia marcado. Ainda assim, o estudo relata que, para 7 dos 8 participantes, a soma das excreções fecal e urinária igualou ou excedeu a ingestão, levando a balanços negativos.

  • Balanço de zinco: −6,6 ± 18,6 μmol/dia
  • Excreção: aproximadamente 92% fecal e 8% urinária
  • Observação do artigo: a absorção aparente “próxima de zero” ocorreu porque a excreção fecal ficou muito próxima da ingestão.

Em outras palavras: mesmo quando uma fração foi absorvida, a combinação de perdas intestinais e urinárias impediu uma retenção consistente no período observado.

2) Cobre: perda líquida em todos os participantes

O cobre apresentou um sinal ainda mais claro de desfecho desfavorável. O próprio texto do artigo aponta que a excreção fecal de cobre excedeu a ingestão dietética, e que o balanço calculado foi negativo em todos os indivíduos.

  • Balanço de cobre: −4,8 ± 3,5 μmol/dia (negativo em todos)
  • Absorção fracionária estimada: 44 ± 7% (≈ 8 ± 1 μmol)

Esse achado reforça a mensagem principal do estudo: em um padrão alimentar com muita fibra/fitato, o corpo pode perder mais cobre do que recebe, mesmo quando há absorção detectável em uma medição pontual.

3) Magnésio: absorção moderada, mas balanço final negativo

Para magnésio, a absorção fracionária foi estimada em 46 ± 6% (≈ 5 ± 1 mmol). Porém, novamente, o saldo final ficou desfavorável.

  • Balanço de magnésio: −2,5 ± 1,0 mmol/dia
  • Distribuição das perdas: cerca de 63% nas fezes e 37% na urina

Ou seja, a dieta permitiu absorção, mas não garantiu retenção.

Um mecanismo negativo destacado: perdas endógenas intestinais relevantes

O artigo chama atenção para um fator que piora o saldo: além do que não é absorvido, existe a parte que o corpo secreta no intestino e perde nas fezes (perdas endógenas). No estudo, as perdas endógenas intestinais estimadas foram:

  • Zinco: 40,1 ± 19,8 μmol/dia
  • Cobre: 12,2 ± 3,5 μmol/dia
  • Magnésio: 2,7 ± 1,0 mmol/dia

Quando esse “vazamento” intestinal é alto, a dieta precisa não só fornecer o mineral, mas superar esse nível de perda — o que, aqui, não aconteceu de forma consistente.

O que os autores concluem sobre o risco do padrão observado

O estudo conclui que, com essa dieta rica em fibra e fitato, houve balanços negativos para zinco, cobre e magnésio, e que isso pode levar à deterioração do estado desses minerais se mantido por tempo suficiente. O texto também reforça que são necessários estudos de longo prazo para avaliar melhor a adaptação do organismo e a persistência desse balanço desfavorável.

Limites que não anulam o alerta

Mesmo sendo um estudo com apenas 8 participantes e duração limitada (21 dias), o achado é consistente no ponto que interessa ao tema: ao colocar a dieta sob controle metabólico e medir entradas e saídas, apareceu um padrão repetido de retenção insuficiente, com destaque para o cobre (balanço negativo em todos) e para o zinco (balanço negativo na maioria).

Isso torna o trabalho útil como lembrete prático: em nutrição, não basta aumentar um componente “positivo” da dieta (como fibra) sem considerar o efeito colateral mais silencioso — a possibilidade de diminuir a disponibilidade de minerais essenciais e gerar um saldo biológico desfavorável.

Fonte: https://doi.org/10.1016/S0946-672X(96)80014-9

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