Ingestão alimentar de proteínas totais, animais e vegetais e risco de doença renal crônica: revisão sistemática e meta-análise de dose-resposta de coortes prospectivas


A doença renal crônica (DRC) é definida, de forma geral, por queda persistente da taxa de filtração glomerular (TFG) abaixo de 60 mL/min/1,73 m² e/ou sinais de dano renal por pelo menos 3 meses. No texto, os autores lembram que a DRC é um problema de saúde pública crescente e que medidas preventivas são relevantes porque o curso costuma ser progressivo.

Nesse cenário, a proteína virou alvo de desconfiança. O motivo é conhecido: em pessoas com DRC, dietas com maior teor proteico frequentemente não são recomendadas, e existe a hipótese fisiológica de que ingestões mais altas possam aumentar a pressão intraglomerular e a hiperfiltração, favorecendo lesão ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, quem está fora desse grupo (adultos sem doença renal) vive em outra realidade: proteína é um nutriente central para manutenção de massa corporal, saciedade e desempenho físico. O que faltava era separar, com cuidado, o medo generalizado do que os dados de longo prazo realmente mostram em populações inicialmente saudáveis.

É exatamente essa lacuna que a revisão sistemática publicada na BMC Nutrition buscou endereçar: proteína total, proteína de origem animal e proteína de origem vegetal se associam — ou não — ao risco de DRC ao longo do tempo?

O que foi feito: um “raio-x” dos estudos prospectivos

Os autores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise com abordagem dose–resposta, seguindo o fluxo PRISMA e com protocolo registrado no PROSPERO (CRD42023466538). A busca foi feita em PubMed, Web of Science e Scopus, incluindo estudos publicados até 7 de maio de 2023, sem restrição de idioma ou data.

Foram incluídos apenas estudos de coorte prospectivos com adultos inicialmente saudáveis, que relataram risco de DRC conforme categorias de ingestão de proteína (total/animal/vegetal). Foram excluídos, por exemplo, participantes com histórico de doença renal e algumas condições que podem alterar fortemente dieta e risco (como diabetes, câncer, AVC e infarto), justamente para reduzir distorções importantes.

Ao final, entraram 10 estudos, totalizando 218.741 participantes e 10.794 eventos de DRC. O risco de viés foi avaliado por ROBINS-I: 9 estudos com risco moderado e 1 com risco sério, com análise de sensibilidade indicando que a exclusão desse estudo não alterou materialmente os resultados principais.

O que o estudo encontrou: três resultados centrais (e fáceis de confundir)

1) Proteína total: sem associação estatisticamente significativa com DRC

Quando a comparação foi maior vs. menor consumo de proteína total, a associação não foi significativa: RR 0,95 (IC 95% 0,75–1,19), com heterogeneidade relevante (I² ≈ 69,7%). Na análise dose–resposta (por +100 g/dia), o resultado também não mostrou associação significativa (estimativa com intervalo amplo).

Em termos práticos: dentro do conjunto de coortes avaliadas, não apareceu um sinal consistente de que “comer mais proteína total” aumente o risco de DRC em adultos inicialmente saudáveis — mas também não apareceu um efeito protetor robusto quando se olha apenas para “proteína total”, como se toda proteína fosse igual.

2) Proteína animal: associação com menor risco de DRC

Para proteína de origem animal, a meta-análise (maior vs. menor consumo) encontrou redução estatisticamente significativa no risco de DRC: RR 0,87 (IC 95% 0,77–0,97), com I² = 0% e certeza alta (GRADE).

Na análise dose–resposta (por +20 g/dia), a estimativa ficou muito próxima do limiar de significância e com poucos estudos contribuindo para esse modelo, o que limita a precisão da interpretação “por gramas”. Ainda assim, o achado principal (categorias extremas) permaneceu: maior consumo de proteína animal se associou a menor risco no conjunto de coortes incluídas.

3) Proteína vegetal: associação com menor risco de DRC, com heterogeneidade maior

Para proteína vegetal, também houve associação com menor risco de DRC na comparação maior vs. menor consumo: RR 0,81 (IC 95% 0,67–0,98), porém com heterogeneidade alta (I² ≈ 69,3%) e certeza moderada (GRADE).

Os autores relatam um sinal de relação dose–resposta para proteína vegetal (com modelo de dose–resposta apresentado e teste reportado), mas, quando a análise é expressa como incremento padronizado de +20 g/dia em um subconjunto menor de estudos, o intervalo de confiança ainda cruza 1, refletindo incerteza estatística nesse formato de modelagem. A leitura honesta é: existe tendência compatível com proteção, mas a precisão varia conforme o método e a disponibilidade de dados.

A parte que muda a conversa: “proteína” não é um bloco único

A revisão chama atenção para um ponto que costuma se perder nos debates: fonte alimentar importa. Na discussão, os autores destacam que resultados entre países podem variar porque “proteína animal” pode significar padrões bem diferentes (por exemplo, maior participação de peixe/seafood em alguns contextos e maior participação de carnes processadas em outros). Eles citam, como exemplo, achados em coortes dos EUA associando maior consumo de carnes vermelhas e processadas a maior risco, enquanto peixe e frutos do mar se associariam a menor risco em determinadas análises de coortes.

Ou seja: mesmo quando a meta-análise encontra um efeito global para “proteína animal”, isso não autoriza transformar o resultado em uma frase simplista do tipo “qualquer proteína animal sempre protege” — o próprio artigo reconhece que não conseguiu separar, com robustez, subtipos de proteína animal (carnes, aves, peixes, laticínios) por limitação de dados.

O que este estudo não prova

Por ser uma síntese de coortes prospectivas, o trabalho descreve associações, não “provas de causa”. Mesmo com ajustes para fatores como idade, tabagismo, atividade física, ingestão energética e IMC em muitos estudos, sempre pode haver confusão residual (pessoas que comem mais proteína podem diferir, em média, em vários hábitos e contextos de saúde).

Além disso, o estudo foi desenhado para populações inicialmente saudáveis. Portanto, ele não deve ser usado para invalidar recomendações clínicas direcionadas a pessoas com DRC já estabelecida — esse é outro cenário, com objetivos terapêuticos próprios e maior risco de complicações. O artigo, inclusive, reconhece que recomendações costumam ser diferentes para indivíduos com DRC.

Limitações que os próprios autores assumem

O texto aponta limitações objetivas:

  • Heterogeneidade relevante em proteína total e vegetal (I² elevado), o que pode reduzir a robustez de um único número “resumo”.
  • Impossibilidade de detalhar fontes específicas de proteína animal (ex.: separar carne vermelha, processados, peixe, laticínios) por falta de dados comparáveis.
  • Predomínio de risco de viés moderado nas coortes e possibilidade de confusão residual, apesar dos ajustes estatísticos.

Conclusão

Ao reunir dados de longo prazo de mais de 200 mil adultos, esta revisão sistemática entrega uma mensagem que contraria a ideia de que “proteína e rim não combinam” em qualquer contexto. No conjunto das coortes analisadas, proteína total não mostrou associação significativa com risco de DRC, enquanto proteína animal e proteína vegetal se associaram a menor risco — com maior consistência estatística para proteína animal (GRADE alto) e maior variabilidade para proteína vegetal (GRADE moderado e heterogeneidade maior).

A leitura cuidadosa não é “liberação geral” nem “demonização”: é um convite a abandonar slogans e olhar para o que o estudo realmente sustenta — população, método, fonte alimentar, incertezas e limites. Isso, por si só, já melhora muito a qualidade do debate público.

Fonte: https://doi.org/10.1186/s40795-025-01204-0

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