Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Frontiers in Psychiatry avaliou uma proposta de formação para profissionais de saúde interessados em utilizar a dieta cetogênica no atendimento de pessoas com transtornos mentais. Os resultados mostraram um aumento expressivo na confiança dos participantes para orientar pacientes sobre essa abordagem, especialmente quando o aprendizado teórico foi acompanhado pela experiência de seguir a dieta durante quatro semanas.
A pesquisa, conduzida por Sidney L. Murray e colaboradores, envolveu 40 profissionais, incluindo médicos, farmacêuticos, psicólogos, terapeutas e outros trabalhadores da saúde. O objetivo era investigar se conhecer a dieta cetogênica na teoria e experimentá-la pessoalmente poderia melhorar a preparação dos profissionais para discutir sua utilização na prática psiquiátrica.
Os resultados foram positivos nas avaliações de confiança e competência percebida. Entretanto, o estudo não avaliou se os participantes realmente passaram a oferecer melhor atendimento ou se seus pacientes apresentaram benefícios clínicos.
Por que estudar a dieta cetogênica na psiquiatria?
A dieta cetogênica é uma estratégia alimentar caracterizada pela restrição de carboidratos e pelo aumento proporcional do consumo de gorduras. Seu objetivo é favorecer a produção de corpos cetônicos, substâncias que podem ser utilizadas como fonte de energia por diferentes tecidos, incluindo o cérebro.
Seu uso terapêutico já possui uma longa história no tratamento de determinadas epilepsias. Na psiquiatria, porém, a investigação é mais recente.
Pesquisadores vêm estudando a chamada terapia metabólica cetogênica como possível tratamento complementar para condições como esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão. O interesse envolve tanto os possíveis efeitos sobre sintomas psiquiátricos quanto as alterações metabólicas frequentemente encontradas nesses pacientes.
Alguns estudos clínicos apresentam resultados promissores, mas ainda existem dúvidas sobre eficácia, segurança e manutenção dos benefícios em longo prazo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Psychiatry, por exemplo, examinou as evidências disponíveis sobre dietas cetogênicas, depressão e ansiedade.
O estudo de Murray e colaboradores investigou outro aspecto dessa discussão: a preparação dos profissionais para conversar sobre a intervenção, explicar suas exigências e participar das decisões terapêuticas junto aos pacientes.
Como foi realizado o treinamento?
Os pesquisadores desenvolveram um programa denominado Live It, Launch It, que pode ser entendido como uma proposta de aprender, experimentar e depois aplicar o conhecimento.
O treinamento foi dividido em duas etapas:
- Formação teórica: curso on-line de quatro horas, abordando fundamentos da cetose, diferentes modalidades de dieta cetogênica, planejamento alimentar, monitoramento e possíveis efeitos adversos.
- Experiência prática: quatro semanas seguindo uma dieta cetogênica, com orientação nutricional individualizada, acompanhamento dos corpos cetônicos e possibilidade de participar de encontros para esclarecer dúvidas.
Todos os 40 profissionais concluíram a etapa educacional. Desses, 25 iniciaram a intervenção alimentar e 21 completaram as quatro semanas.
A dieta foi planejada com uma proporção inicial aproximada de 1,5 grama de gordura para cada grama de proteínas e carboidratos somados, permitindo ajustes individuais. A meta era alcançar cetose nutricional, definida por concentrações sanguíneas de beta-hidroxibutirato iguais ou superiores a 0,5 mmol/L.
Os participantes receberam orientações de nutricionistas ou médicos especializados, além de equipamentos para medir glicose e corpos cetônicos. A alimentação também era registrada em aplicativo.
Portanto, não se tratava simplesmente de retirar pão, arroz e açúcar por algumas semanas. A intervenção envolvia planejamento, acompanhamento e ajustes para atingir os objetivos nutricionais.
A confiança dos profissionais aumentou expressivamente
O principal resultado foi a competência autodeclarada para implementar a dieta cetogênica no atendimento de pessoas com transtornos mentais.
Essa competência foi avaliada por uma escala de 0 a 100, na qual os participantes indicavam quanto se consideravam preparados para utilizar a intervenção.
As médias estimadas foram:
- Antes do treinamento: 17,40 pontos.
- Após o curso teórico: 68,08 pontos.
- Após a experiência com a dieta: 86,62 pontos.
O aumento após a educação foi de aproximadamente 50,7 pontos. A etapa prática esteve associada a um aumento adicional estimado de 17,4 pontos. As diferenças foram estatisticamente significativas, com p inferior a 0,0001.
O resultado sugere que a combinação entre explicação teórica e experiência pessoal pode contribuir para que os profissionais se sintam mais preparados para orientar pacientes.
Existe uma diferença, porém, entre sentir-se competente e demonstrar competência em situações reais. O estudo avaliou a percepção dos participantes, sem testes objetivos capazes de confirmar se eles adquiriram as habilidades necessárias para conduzir o tratamento adequadamente.
Experimentar a dieta também influenciou a confiança para conversar com pacientes
Outro resultado foi a chamada tomada de decisão compartilhada. Esse conceito descreve o processo em que profissional e paciente discutem as alternativas de tratamento, considerando evidências, riscos, dificuldades e preferências individuais.
A confiança dos profissionais nesse processo foi medida por uma segunda escala, também apresentada de 0 a 100.
As pontuações médias passaram de 53,64 antes do treinamento para 83,35 após o curso e 91,23 após a experiência alimentar.
O aumento entre o fim da educação e o fim da intervenção alimentar foi de aproximadamente 8,9 pontos, com p = 0,009.
Os pesquisadores também coletaram comentários dos participantes. Entre os 29 profissionais que responderam à avaliação qualitativa final, 28, equivalentes a 97%, afirmaram que o programa havia melhorado sua capacidade de implementar a dieta cetogênica com pacientes.
Os relatos indicaram que experimentar a alimentação ajudou a compreender dificuldades práticas, como identificar carboidratos nos alimentos, organizar refeições, monitorar a cetose e lidar com possíveis efeitos adversos.
Esse conhecimento pode ser relevante para a comunicação clínica. Explicar uma dieta em uma consulta é diferente de enfrentar pessoalmente suas exigências durante várias semanas. Entretanto, os comentários representam experiências subjetivas e não comprovam melhora efetiva na assistência.
Nem todos conseguiram completar a dieta
Embora os resultados educacionais tenham sido favoráveis, a etapa alimentar apresentou dificuldades que também precisam ser consideradas.
Dos 40 participantes iniciais, apenas 25 começaram a dieta e 21 chegaram ao final das quatro semanas.
Entre os motivos relatados para não participar da etapa alimentar estavam gravidez ou intenção de engravidar, conflitos de agenda, restrições alimentares e preocupações com efeitos adversos.
Dois participantes foram retirados da intervenção devido a eventos adversos moderados considerados possivelmente relacionados à dieta:
- Dores musculares: um participante interrompeu a dieta após três semanas e não havia apresentado resolução do problema até o encerramento do estudo.
- Palpitações cardíacas: outro interrompeu a dieta após duas semanas e relatou resolução das palpitações depois de suspender a intervenção alimentar e o óleo de triglicerídeos de cadeia média (TCM).
Essas ocorrências não permitem estabelecer com certeza a causa dos sintomas. Entretanto, mostram que a experiência prática não foi igualmente tolerada por todos.
Os autores informaram que resultados detalhados sobre composição alimentar, níveis de cetonas, benefícios, exames laboratoriais e outros efeitos adversos seriam apresentados em uma publicação separada. Consequentemente, este artigo não permite avaliar de maneira completa a segurança metabólica da intervenção.
Quais são as principais limitações da pesquisa?
O estudo foi um ensaio piloto, aberto e sem grupo de controle. Todos os profissionais receberam o treinamento, e aqueles que desejaram puderam participar da etapa alimentar.
Sem um grupo comparador, não é possível determinar quanto do aumento da confiança ocorreu especificamente por causa do programa. A familiaridade crescente com o assunto, as expectativas e a própria repetição das avaliações podem ter contribuído para os resultados.
Outro aspecto relevante é que a experiência alimentar foi opcional. Os profissionais que decidiram seguir a dieta poderiam ter maior interesse ou uma percepção mais favorável da abordagem do que aqueles que permaneceram apenas na formação teórica.
Isso dificulta concluir que a experiência prática produziria o mesmo resultado em profissionais de saúde com diferentes opiniões, experiências e níveis de interesse.
Além disso, integrantes da própria equipe de pesquisa participaram do treinamento e tiveram seus resultados incluídos nas análises. Os autores reconheceram que essa característica introduz possibilidades de viés, particularmente nas avaliações subjetivas.
A pesquisa também não verificou se os profissionais passaram a discutir a dieta com mais frequência, encaminhar pacientes para acompanhamento especializado ou implementar tratamentos com maior segurança.
Por fim, nenhum paciente psiquiátrico recebeu a intervenção como parte da avaliação principal. Assim, os resultados não demonstram melhora de depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia ou qualquer outra condição psiquiátrica.
O que esse estudo acrescenta à discussão sobre dieta cetogênica e saúde mental?
A pesquisa apresenta uma proposta de formação profissional em uma área que vem recebendo crescente atenção científica. Seus resultados sugerem que combinar conhecimento teórico com experiência prática pode aumentar a confiança de profissionais para discutir a terapia metabólica cetogênica no contexto da saúde mental.
O aumento observado foi expressivo nas duas dimensões avaliadas: competência autodeclarada e confiança para participar de decisões compartilhadas com pacientes.
Entretanto, o treinamento ainda precisa ser comparado com outras formas de educação e avaliado por medidas objetivas de desempenho clínico. Também será necessário verificar se a maior confiança se traduz em orientações mais adequadas, melhor acompanhamento e decisões terapêuticas mais bem fundamentadas.
O estudo contribui para compreender como preparar profissionais para uma possível aplicação clínica da dieta cetogênica. A eficácia dessa abordagem no tratamento dos transtornos psiquiátricos, por sua vez, depende de ensaios clínicos específicos que avaliem diretamente os pacientes, seus sintomas, a segurança e os resultados em longo prazo.
