Uma dieta cetogênica modificada, combinada com reabilitação, apresentou resultados positivos em crianças com transtorno do espectro autista (TEA). Em um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 na revista BMC Pediatrics, pesquisadores chineses observaram reduções significativamente maiores nas pontuações de duas escalas usadas para avaliar características comportamentais e gravidade dos sintomas do autismo.
O estudo acompanhou 62 crianças de 2 a 5 anos durante oito semanas. Aquelas que receberam a intervenção cetogênica, além da reabilitação convencional, apresentaram melhores resultados do que as crianças submetidas apenas à reabilitação.
Os resultados sugerem que intervenções nutricionais podem ter utilidade complementar no acompanhamento de determinadas crianças com TEA. Entretanto, a relevância clínica das diferenças observadas e sua manutenção ao longo do tempo ainda não foram estabelecidas.
Como foi realizado o estudo?
Os pesquisadores recrutaram 62 crianças diagnosticadas com autismo em um hospital de Hefei, na China, entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos de 31 crianças:
- Grupo cetogênico: recebeu uma dieta cetogênica modificada, com suplemento nutricional específico, juntamente com o programa habitual de reabilitação.
- Grupo controle: manteve uma alimentação convencional e participou do mesmo programa de reabilitação.
Ambos os grupos receberam intervenções de reabilitação durante a semana, incluindo treinamento verbal e cognitivo, integração sensorial, atividades educativas orientadas e estimulação magnética transcraniana. Nos fins de semana, os exercícios continuavam em casa, com acompanhamento dos responsáveis.
Essa organização permitiu avaliar se acrescentar a intervenção nutricional ao tratamento habitual proporcionaria benefícios adicionais.
Como funcionava a dieta cetogênica utilizada?
A estratégia alimentar não correspondia à dieta cetogênica clássica, frequentemente utilizada no tratamento de epilepsia, com proporções de gordura para proteína e carboidratos de 3:1 ou 4:1.
Os pesquisadores utilizaram uma abordagem modificada, com restrição de alimentos ricos em carboidratos, aumento da participação das gorduras e inclusão de um suplemento nutricional cetogênico.
O suplemento apresentava aproximadamente 78% de suas calorias provenientes de gorduras, 10% de proteínas, 6% de carboidratos e 6% de fibras, conforme a classificação energética apresentada pelos pesquisadores. Cerca de 44% da gordura era composta por triglicerídeos de cadeia média (TCM).
Cada sachê fornecia aproximadamente 100 kcal. A administração começava gradualmente e podia chegar a três sachês por dia, enquanto os demais alimentos eram ajustados conforme as necessidades nutricionais individuais.
As refeições priorizavam alimentos como carnes, ovos e vegetais, com restrição de arroz, macarrão, pães e outros alimentos ricos em amido ou açúcar.
A alimentação era supervisionada por nutricionistas, com participação ativa dos familiares. Os responsáveis receberam orientações sobre preparo das refeições, monitoramento da glicemia, avaliação de cetonas urinárias e identificação de possíveis efeitos adversos.
As cetonas foram detectadas na urina a partir do quarto dia de intervenção. Entretanto, o estudo não apresentou medições seriadas de corpos cetônicos no sangue, impossibilitando estabelecer uma relação quantitativa entre o grau de cetose e a melhora comportamental.
Quais foram os resultados positivos?
Os pesquisadores utilizaram duas escalas de avaliação: a Autism Behavior Checklist (ABC), que examina diferentes características comportamentais relacionadas ao autismo, e a Childhood Autism Rating Scale (CARS), utilizada para avaliar a gravidade das manifestações do TEA.
Em ambas, pontuações menores representam menor intensidade das características avaliadas.
Melhora nas avaliações comportamentais (ABC)
No grupo que recebeu a intervenção cetogênica, a pontuação mediana da ABC caiu de 67 para 56 pontos. No grupo controle, passou de 66 para 59 pontos.
Ao analisar a mudança individual de cada participante, os pesquisadores encontraram uma redução mediana de 9 pontos no grupo cetogênico, contra 4 pontos no grupo controle.
A diferença entre os grupos foi estatisticamente significativa (p = 0,027).
Na análise principal, que considerou as pontuações iniciais, idade, sexo e tempo desde o diagnóstico, a intervenção cetogênica também apresentou vantagem: diferença ajustada de -4,12 pontos na ABC (IC 95%: -6,65 a -1,60; p = 0,001).
Redução nas pontuações de gravidade do autismo (CARS)
Os resultados da CARS seguiram a mesma direção.
No grupo cetogênico, a pontuação mediana diminuiu de 36 para 32 pontos. No grupo controle, passou de 35 para 34 pontos.
A redução mediana individual foi de 4 pontos entre as crianças submetidas à intervenção cetogênica e de 2 pontos entre aquelas que receberam apenas a reabilitação convencional.
A diferença entre os grupos também foi estatisticamente significativa (p = 0,003).
Após o ajuste pelas características iniciais dos participantes, a diferença favorável ao grupo cetogênico permaneceu significativa: -1,33 ponto na CARS (IC 95%: -2,38 a -0,27; p = 0,014).
Portanto, as duas medidas utilizadas no ensaio apontaram resultados favoráveis à combinação de dieta cetogênica modificada e reabilitação.
A dieta cetogênica foi bem tolerada pelas crianças?
Das 62 crianças inicialmente incluídas, 51 completaram o acompanhamento: 24 no grupo cetogênico e 27 no grupo controle.
No grupo cetogênico, sete crianças interromperam a participação. Três não conseguiram seguir o protocolo alimentar, duas saíram por dificuldades relacionadas ao tratamento ou acompanhamento e duas apresentaram efeitos adversos: um caso de diarreia e outro de erupção cutânea.
Esses dois episódios corresponderam a 6,45% das crianças inicialmente alocadas ao grupo cetogênico.
Durante as oito semanas, os pesquisadores não observaram episódios de hipoglicemia, desidratação, vômitos, refluxo gastroesofágico ou hiperlipidemia. Também não foi identificada perda de peso clinicamente aparente no acompanhamento realizado pelos responsáveis.
Os resultados indicam que a intervenção foi viável para boa parte das famílias, embora a necessidade de acompanhamento nutricional e as dificuldades de adesão continuem sendo aspectos relevantes.
Por que a cetose poderia influenciar o comportamento?
O interesse científico pela dieta cetogênica no autismo está relacionado, em parte, à possibilidade de modificar o metabolismo energético cerebral.
Quando a disponibilidade de carboidratos diminui, o fígado aumenta a produção de corpos cetônicos, que podem ser utilizados pelo cérebro como combustível.
Além do fornecimento de energia, pesquisas anteriores investigaram possíveis efeitos das intervenções cetogênicas sobre a atividade mitocondrial, o equilíbrio entre neurotransmissores excitatórios e inibitórios e processos inflamatórios.
Um dos mecanismos discutidos envolve o GABA, neurotransmissor com função predominantemente inibitória no sistema nervoso. Alterações no equilíbrio entre excitação e inibição neuronal são investigadas como possíveis componentes da fisiopatologia do autismo.
Também existem pesquisas experimentais sugerindo que dietas cetogênicas podem modificar a microbiota intestinal e determinadas vias metabólicas relacionadas à função cerebral.
Essas hipóteses ajudam a justificar o interesse pela intervenção, mas o ensaio de 2026 não mediu GABA, marcadores de inflamação, função mitocondrial ou composição da microbiota. Portanto, não permite identificar qual mecanismo, caso exista, explicaria os resultados observados.
O que limita as conclusões do estudo?
Embora se trate de um ensaio clínico randomizado, algumas características precisam ser consideradas para interpretar os resultados corretamente.
Primeiro, o acompanhamento durou apenas oito semanas. Não é possível saber se as diferenças permaneceriam após vários meses ou depois da interrupção da dieta.
Segundo, houve uma diferença importante entre os grupos antes da intervenção. O tempo mediano desde o diagnóstico era de 1,5 mês no grupo cetogênico e de 20 meses no controle. Os pesquisadores ajustaram estatisticamente essa diferença, mas reconhecem que ela ainda pode influenciar a interpretação dos resultados.
Terceiro, o grupo cetogênico recebeu acompanhamento nutricional adicional. Maior contato com profissionais e orientação específica aos responsáveis podem ter contribuído para os resultados. Assim, não é possível atribuir toda a diferença exclusivamente à composição da dieta.
Outra limitação foi a perda de 11 participantes durante o acompanhamento. Os autores utilizaram métodos estatísticos para incluir os participantes randomizados e realizaram análises adicionais para verificar a consistência dos resultados, mas essas estratégias não eliminam completamente a incerteza causada pelas perdas.
Além disso, as escalas ABC e CARS registram características e gravidade dos sintomas, mas ainda não existem diferenças mínimas clinicamente importantes bem estabelecidas para interpretar mudanças de curto prazo nessas pontuações. Uma melhora estatisticamente significativa não permite determinar, sozinha, quanto a criança avançou em sua comunicação ou autonomia cotidiana.
O estudo também não acompanhou suficientemente possíveis efeitos nutricionais de longo prazo sobre crescimento, saúde óssea, perfil lipídico ou formação de cálculos renais.
O que esse estudo acrescenta ao conhecimento sobre dieta cetogênica e autismo?
O trabalho de Le Liu e colaboradores acrescenta evidência experimental favorável à investigação da dieta cetogênica modificada como intervenção complementar no transtorno do espectro autista.
O principal resultado foi consistente nas duas escalas analisadas: crianças submetidas à estratégia cetogênica associada à reabilitação apresentaram reduções maiores nas pontuações do que aquelas que receberam apenas a reabilitação.
O estudo não demonstrou cura do autismo, nem estabeleceu que a dieta cetogênica deva ser adotada rotineiramente para crianças com TEA. Também não permite concluir que outras versões da dieta cetogênica produziriam os mesmos resultados.
A contribuição está em mostrar que uma intervenção nutricional estruturada, sob supervisão profissional, pode produzir diferenças mensuráveis em avaliações comportamentais de curto prazo. Para determinar sua utilidade clínica, será necessário verificar se os benefícios se traduzem em melhorias funcionais relevantes, persistem ao longo do tempo e compensam as dificuldades e os riscos de manutenção da dieta na infância.
