O ferro heme não foi associado a maior risco de câncer colorretal em três grandes coortes acompanhadas por até 36 anos. O estudo também não encontrou evidência de que o cálcio alterasse essa relação.
Publicado em 2026 na revista Cancer Causes & Control, o trabalho analisou dados do Nurses’ Health Study, do Nurses’ Health Study II e do Health Professionals Follow-Up Study. Ao todo, foram incluídos 211.851 participantes, com 2.983 casos de câncer colorretal registrados ao longo de 5,67 milhões de pessoas-ano de acompanhamento.
O que foi estudado
O ferro heme é a forma de ferro presente na hemoglobina e na mioglobina de alimentos animais, como carnes, aves e peixes. Por ser mais abundante na carne vermelha e em carnes processadas, ele costuma ser apresentado como um possível mecanismo para explicar a associação observada entre esses alimentos e o câncer colorretal.
Os pesquisadores avaliaram três exposições: ferro heme total; ferro heme proveniente de carne vermelha e processada; e ferro heme vindo de outras fontes animais. Também investigaram se a ingestão de cálcio total ou de cálcio proveniente de laticínios modificava alguma dessas associações.
Como o estudo foi feito
Este foi um estudo observacional prospectivo, não um ensaio clínico. A alimentação foi estimada por questionários de frequência alimentar aplicados repetidamente ao longo dos anos. Os pesquisadores calcularam a média cumulativa da ingestão para representar melhor o padrão alimentar de longo prazo.
Os modelos estatísticos foram ajustados para idade, sexo, índice de massa corporal, tabagismo, álcool, atividade física, histórico familiar, endoscopia, uso de aspirina, ingestão energética, fibra de cereais e qualidade global da dieta.
Principais resultados
Na comparação entre o maior e o menor quintil de ingestão, as razões de risco permaneceram muito próximas de 1, valor compatível com ausência de associação:
- Ferro heme total: HR 1,03; intervalo de confiança de 95% de 0,91 a 1,17.
- Ferro heme de carne vermelha e processada: HR 1,02; intervalo de confiança de 0,91 a 1,16.
- Ferro heme de outras fontes animais: HR 1,02; intervalo de confiança de 0,90 a 1,15.
Nenhum desses resultados foi estatisticamente significativo. Também não surgiram associações relevantes quando os casos foram separados em câncer de cólon, cólon proximal, cólon distal ou reto. As análises por índice de massa corporal, tabagismo, idade, diabetes e histórico de endoscopia igualmente não mostraram modificações consistentes.
Na coorte NHS II, formada pelas participantes mais jovens, apareceu um sinal positivo, mas inconclusivo: o maior quintil teve HR 1,34, com intervalo de 0,93 a 1,92 e tendência de p igual a 0,08. Como o intervalo incluiu 1 e o padrão não se repetiu nas outras duas coortes, o resultado pode refletir acaso, faixa etária ou alguma característica não medida.
O que aconteceu com o cálcio
O cálcio apresentou uma associação inversa com o câncer colorretal, mas esse resultado foi independente do ferro heme. Na comparação entre o maior e o menor quintil, a ingestão total de cálcio foi associada a uma razão de risco 23% menor, com HR 0,77, enquanto o cálcio de laticínios foi associado a uma razão de risco 21% menor, com HR 0,79.
Entretanto, não houve interação estatística entre cálcio e ferro heme. O valor de interação foi 0,91, muito distante do limite convencional de significância. O gráfico da página 9 reforça esse ponto: os grupos com menor cálcio apresentaram risco mais alto em diferentes níveis de ferro heme, sem um padrão que indicasse neutralização específica do ferro pelo cálcio.
Assim, o estudo não sustenta a hipótese de que o cálcio protege principalmente por “bloquear” os efeitos do ferro heme no intestino. A associação observada com o cálcio parece seguir outro caminho ou refletir outros aspectos da alimentação e do estilo de vida. Como o desenho é observacional, o resultado também não prova que suplementos de cálcio previnam câncer.
O que isso significa na prática
O trabalho enfraquece a alegação de que o ferro heme seja, por si só, um dos principais responsáveis pelo câncer colorretal associado ao consumo de carne. A hipótese biológica continua plausível em experimentos com animais e marcadores laboratoriais, mas não apareceu de forma clara nesta análise de longo prazo em seres humanos.
Isso não permite concluir que qualquer quantidade ou tipo de carne seja incapaz de influenciar o risco de câncer. O estudo agrupou carne vermelha não processada e carne processada ao calcular o ferro heme dessas fontes. Portanto, não conseguiu separar adequadamente os efeitos de um bife in natura dos efeitos de bacon, salsicha, salame e outros produtos processados.
Os próprios autores observam que possíveis associações com carnes processadas podem envolver fatores além do ferro heme, como nitritos, nitratos, compostos N-nitrosos e substâncias formadas durante o preparo em temperaturas elevadas. Logo, um resultado nulo para ferro heme não equivale a uma absolvição automática de todo alimento que o contém.
Limitações do estudo
A principal limitação é a medição indireta da alimentação. Questionários de frequência alimentar dependem da memória, da estimativa de porções e de tabelas de composição dos alimentos. Erros desse tipo tendem a reduzir a capacidade de detectar associações reais, especialmente quando a diferença de ingestão entre os grupos é pequena.
Esse ponto é relevante porque a faixa de ferro heme foi relativamente estreita. O maior quintil começou acima de 1,26 mg por dia no NHS, 1,33 mg no NHS II e 1,53 mg no HPFS. Os autores reconhecem que estudos anteriores com resultados positivos incluíram participantes com ingestões superiores a aproximadamente 2 mg por dia. Portanto, os achados não excluem efeitos em níveis mais altos do que os observados nessas coortes.
Também havia diferenças importantes entre os participantes. Quem consumia mais ferro heme tendia a fumar mais, praticar menos atividade física, apresentar maior índice de massa corporal e consumir menos frutas, grãos integrais e laticínios. Os ajustes estatísticos foram extensos, mas não eliminam completamente o risco de confusão residual.
Além disso, a maioria dos participantes era formada por profissionais de saúde brancos dos Estados Unidos. Isso melhora a qualidade do acompanhamento, mas limita a generalização para populações com outras origens, padrões alimentares e níveis de consumo.
O estudo foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e pela American Cancer Society. Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Em resumo
Em 211.851 adultos acompanhados por até 36 anos, a ingestão estimada de ferro heme não foi associada a maior risco de câncer colorretal. O cálcio apresentou associação inversa com o risco, mas não modificou a relação entre ferro heme e câncer.
O resultado mostra que dentro das faixas de consumo avaliadas, o ferro heme não se comportou como o grande mecanismo carcinogênico que frequentemente se presume.
Fonte: https://doi.org/10.1007/s10552-026-02195-4
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