O relato de caso analisou um atleta masculino de endurance, com 53 anos, que adotou a dieta carnívora após testar outras estratégias alimentares, incluindo dieta Paleo, low carb e dieta cetogênica. O foco do estudo foi observar efeitos fisiológicos, metabólicos, clínicos e de desempenho associados a essa mudança alimentar.
A dieta carnívora foi descrita como uma abordagem baseada exclusivamente em alimentos de origem animal, com exclusão de alimentos vegetais. No caso analisado, ela não foi apresentada como uma intervenção genérica para qualquer pessoa, mas como uma estratégia adotada por um atleta experiente, já adaptado a provas longas, com rotina intensa de treinamento e acompanhamento por exames.
O ponto mais relevante do estudo é que, nesse indivíduo específico, a dieta carnívora foi associada a uma série de desfechos positivos: melhora subjetiva da disposição, sono mais reparador, recuperação muscular mais consistente, redução de episódios de dor muscular, melhor estabilidade energética e manutenção de desempenho competitivo em provas de longa duração.
Melhora de disposição, sono e qualidade de vida
Após retomar a dieta carnívora em 2020, o atleta relatou melhora significativa da performance física, da qualidade de vida, do sono e da disposição geral. Esses dados foram baseados em auto-observação e relatórios periódicos, o que limita a força da conclusão, mas ainda assim oferece uma descrição clínica relevante.
Para atletas de endurance, a percepção de energia estável é um ponto importante. Provas longas exigem não apenas capacidade cardiorrespiratória, mas também regularidade metabólica, tolerância gastrointestinal, boa recuperação e menor oscilação de energia ao longo do esforço. Segundo o relato, a dieta carnívora parece ter favorecido esse padrão no caso estudado.
O atleta também relatou menor ocorrência de dores musculares e recuperação mais rápida após esforços prolongados. Esse ponto foi interpretado pelos autores como uma possível consequência da melhor adaptação ao uso de gordura e corpos cetônicos como fontes de energia, além de possível redução de processos inflamatórios.
Desempenho em provas longas
Um dos desfechos positivos mais claros do relato foi a continuidade do desempenho competitivo em provas de longa duração. Em 2020, o atleta realizou o desafio de correr 10 meias maratonas em 10 dias, sempre entre 4h e 6h da manhã. O maior tempo registrado para completar uma dessas corridas foi de 1h40min.
Ainda em 2020, após o cancelamento de uma prova oficial de 160 km por causa da pandemia, o atleta realizou um desafio pessoal na mesma distância. Ele completou os 160 km em 19h43min, seguindo dieta carnívora e utilizando hidratação baseada em sais minerais.
Em 2021, participou de uma prova de 160 km em Key West, também sob dieta carnívora, alcançando 7º lugar geral e 1º lugar em sua categoria. No mesmo ano, competiu no Ultraman Brasil, prova de 515 km, terminando em 5º lugar. Em 2022, participou do Campeonato Mundial de Ultraman em Kona, no Havaí, atingindo a 10ª colocação.
Esses resultados não provam que a dieta carnívora seja superior para todos os atletas. No entanto, mostram que, nesse caso, a ausência de carboidratos dietéticos convencionais não impediu alta performance em eventos prolongados. O atleta conseguiu sustentar provas extremas mantendo uma estratégia alimentar baseada em alimentos de origem animal.
Eficiência metabólica e ventilatória
O estudo comparou testes cardiopulmonares realizados em 2021 e 2024. Embora o VO₂ máximo tenha permanecido estável, outros indicadores sugeriram melhora na eficiência fisiológica durante o exercício.
Um dos achados positivos foi a redução da relação VE/VCO₂ no primeiro limiar ventilatório. Esse marcador indica quanto o atleta precisa ventilar para eliminar determinada quantidade de dióxido de carbono. Em termos simples, uma redução pode sugerir que o organismo está fazendo o mesmo trabalho respiratório com menor custo ventilatório.
No primeiro limiar ventilatório, o VE/VCO₂ passou de 30,7 em 2021 para 29,4 em 2024. O estudo interpretou essa mudança como sinal de maior eficiência ventilatória. Para um atleta de endurance, isso pode ser relevante porque menor demanda respiratória durante o esforço pode ajudar a economizar energia e retardar a fadiga.
Outro ponto positivo foi o aumento do pulso de oxigênio, de 20,8 ml por batimento em 2021 para 21,4 ml por batimento em 2024. Esse dado foi interpretado como melhora na utilização de oxigênio por batimento cardíaco, sugerindo maior eficiência cardiovascular durante o exercício.
Em conjunto, esses achados indicam que o atleta manteve alta capacidade aeróbica e apresentou sinais de melhora na eficiência do metabolismo energético. O estudo atribui esses resultados à combinação entre treinamento, estilo de vida e adaptação alimentar.
Maior uso de gordura como combustível
A dieta carnívora, por excluir carboidratos vegetais e se basear em alimentos de origem animal, tende a funcionar como uma dieta cetogênica extrema em muitos contextos. Nesse cenário, o corpo passa a depender mais de gordura e corpos cetônicos como fontes de energia.
No caso descrito, os autores destacaram que o atleta parecia bem adaptado a esse padrão metabólico. Ele relatou estabilidade energética, boa recuperação e capacidade de sustentar esforços prolongados sem depender de ingestão convencional de carboidratos.
Esse ponto é relevante porque grande parte da nutrição esportiva tradicional enfatiza carboidratos como fonte central para desempenho. O relato não nega a utilidade dos carboidratos em outros contextos, mas mostra que alguns atletas podem desenvolver boa performance usando predominantemente gordura como combustível, desde que haja adaptação individual.
Genética favorável à adaptação
O estudo também avaliou polimorfismos genéticos do atleta. Os autores destacaram variantes associadas ao metabolismo lipídico, à biogênese mitocondrial, à angiogênese, à utilização de oxigênio e à menor fadiga.
Entre os genes citados estão PPARGC1A, PPARA, LPL, VEGFA e AMPD1. Segundo a interpretação do trabalho, esse conjunto genético poderia favorecer maior capacidade de metabolizar gorduras, produzir energia de forma eficiente e sustentar atividades prolongadas.
Esse é um dos aspectos mais importantes do relato: os bons resultados não foram atribuídos apenas à dieta. A resposta positiva parece ter ocorrido pela interação entre dieta carnívora, histórico de treinamento, características genéticas, adaptação metabólica e monitoramento contínuo.
Na prática, isso reforça a ideia de personalização nutricional. O atleta não representa uma regra universal, mas demonstra que certos perfis metabólicos podem responder bem a dietas muito baixas em carboidratos e baseadas em alimentos de origem animal.
Microbioma intestinal sem prejuízo aparente
Outro desfecho positivo descrito foi o microbioma intestinal. Em 2023, após mais de três anos de dieta carnívora estrita, o atleta realizou teste de microbioma. O resultado mostrou presença de bactérias associadas à produção de ácidos graxos de cadeia curta, como Faecalibacterium prausnitzii e Blautia.
Essas bactérias são frequentemente associadas à produção de compostos como o butirato, envolvido na manutenção da barreira intestinal e na modulação imunológica. O estudo também relatou baixa proporção de Proteobacteria, grupo frequentemente associado à disbiose quando aparece em excesso.
Além disso, houve ausência de Parasutterella excrementihominis em comparação com teste anterior e aumento de Bacteroides stercoris, espécie associada ao maior consumo de proteína animal. Os autores interpretaram esses achados como evidência de que, nesse atleta, a dieta carnívora não prejudicou o perfil intestinal avaliado.
Esse ponto é particularmente relevante porque uma crítica comum à dieta carnívora é a ausência de fibras vegetais. No caso analisado, a falta de alimentos vegetais não se traduziu, no exame apresentado, em um microbioma claramente desfavorável. Isso não significa que todas as pessoas terão o mesmo resultado, mas mostra que a resposta intestinal pode variar conforme o indivíduo.
Menos sintomas gastrointestinais durante a trajetória
Antes de adotar estratégias de menor carboidrato, o atleta relatava episódios gastrointestinais relevantes durante provas longas. Em uma dupla maratona de 84 km, dentro de um Ultraman, precisou interromper a prova várias vezes por sintomas intestinais.
Após a transição alimentar ao longo dos anos, incluindo dieta cetogênica e depois dieta carnívora, o relato descreve melhora geral de desempenho e maior estabilidade em provas prolongadas. Embora o estudo não apresente uma medida objetiva isolada para sintomas gastrointestinais, a narrativa sugere que a mudança alimentar foi percebida pelo atleta como favorável nesse aspecto.
Para atletas de provas longas, tolerância gastrointestinal pode ser decisiva. Náuseas, evacuações frequentes, cólicas e desconforto intestinal podem comprometer resultados mesmo quando o condicionamento físico está adequado. Nesse caso, a dieta carnívora aparece como parte de uma estratégia que teria reduzido problemas associados ao esforço prolongado.
Composição corporal e recuperação
O atleta relatou melhora na composição corporal após fases de restrição de carboidratos e adaptação à dieta carnívora. Em uma experiência inicial com consumo exclusivo de carne por 15 dias, houve perda aproximada de 3 kg. Mais tarde, com a dieta carnívora mantida de forma mais prolongada, os autores destacaram composição corporal otimizada e recuperação muscular mais consistente.
Em atletas de endurance, composição corporal pode influenciar economia de corrida, tolerância ao esforço e desempenho em provas longas. No entanto, o ponto mais relevante do relato não é apenas perda de peso, mas a manutenção da capacidade competitiva enquanto seguia uma estratégia alimentar altamente restritiva.
O estudo também sugeriu que a dieta pode ter contribuído para menor inflamação percebida e melhor recuperação entre treinos e competições. Esses desfechos são apresentados como relatos e interpretações clínicas, não como prova causal definitiva.
O que esse caso acrescenta
O relato acrescenta uma observação importante ao debate sobre dieta carnívora e esporte: ao menos em um atleta altamente treinado, com perfil genético favorável e adaptação progressiva, a dieta carnívora foi compatível com desempenho elevado em provas extremas.
Os principais desfechos positivos foram:
- manutenção de desempenho competitivo em provas de longa duração;
- melhora relatada de disposição e sono;
- maior estabilidade energética;
- menor dor muscular relatada;
- recuperação mais consistente;
- melhora de eficiência ventilatória em teste cardiopulmonar;
- sinais de melhor utilização de oxigênio por batimento cardíaco;
- microbioma intestinal sem prejuízo aparente no exame apresentado;
- adaptação ao uso predominante de gordura como fonte energética.
Esses resultados tornam o caso relevante porque desafiam a ideia de que alto desempenho em endurance depende necessariamente de uma dieta rica em carboidratos. Ao mesmo tempo, o estudo continua sendo um relato de caso, e não um ensaio clínico.
Uma leitura equilibrada
O foco positivo do estudo é claro: neste atleta, a dieta carnívora esteve associada a boa performance, melhora subjetiva de energia, recuperação favorável, eficiência metabólica e um microbioma intestinal considerado saudável pelos autores.
A leitura mais prudente é reconhecer que esse caso não encerra o debate, mas amplia a discussão. Ele mostra que a dieta carnívora pode ser viável em alguns contextos esportivos específicos, especialmente quando há adaptação, acompanhamento e individualização.
A principal mensagem não é que todos os atletas devam seguir dieta carnívora. A mensagem é que o metabolismo humano pode apresentar maior flexibilidade do que muitas recomendações simplificadas sugerem. Em alguns indivíduos, alimentos de origem animal, gordura, proteína, cetose e adaptação ao baixo carboidrato podem sustentar desempenho prolongado, recuperação e estabilidade energética.
Esse relato, portanto, reforça a necessidade de mais estudos clínicos com atletas, amostras maiores, grupos comparativos e acompanhamento de longo prazo. Até lá, seu valor está em documentar um caso positivo, bem descrito, que ajuda a abrir espaço para perguntas mais precisas sobre dieta carnívora, metabolismo energético e performance de endurance.

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