Imagine o cenário. Janeiro de 1806, costa do atual Oregon. Trinta e três pessoas estão isoladas em Fort Clatsop depois de atravessar boa parte do continente norte-americano. O inverno é úmido, frio e interminavelmente cinzento. Ao final dos 106 dias que passariam ali, o sargento Patrick Gass registraria que choveu em todos, exceto 12 dias — e apenas seis desses dias tiveram céu claro.
A floresta estava cheia de alces. Durante o inverno, a expedição abateu mais de 130 deles. Portanto, à primeira vista, comida não parecia ser exatamente o problema.
Mas havia um detalhe importante: os alces estavam muito magros.
Em 13 de janeiro, Meriwether Lewis escreveu que os animais abatidos apresentavam uma quantidade muito pequena de sebo. Havia carne, muita carne, mas relativamente pouca gordura. E os próprios diários mostram que essa diferença importava bastante para homens submetidos a frio, chuva e esforço físico diário.
Então surgiu uma notícia capaz de colocar parte da expedição novamente em movimento: uma baleia havia encalhado na costa.
A notícia que mudou o humor do acampamento
No dia 5 de janeiro, dois homens voltaram do acampamento onde a expedição produzia sal carregando algo incomum: um pedaço da gordura da baleia obtido dos povos da região.
Lewis mandou cozinhar.
Ele descreveu a gordura como branca, parecida com gordura de porco, porém mais esponjosa. E deixou registrada uma avaliação bastante direta: era macia e muito palatável.
O comentário seguinte é ainda mais revelador.
Lewis escreveu que a falta de pão lhe parecia algo trivial desde que tivesse carne gorda. Depois de meses atravessando um continente, o pão aparentemente tinha descido bastante na lista de prioridades.
Naquela mesma noite, William Clark organizou dois canoas e cerca de 12 homens. O objetivo era encontrar a baleia ou, caso já não houvesse nada disponível diretamente na carcaça, comprar sua gordura dos habitantes locais.
Sacagawea também queria ver a baleia
Há um detalhe humano desse episódio que costuma ficar perdido quando a história é resumida apenas à busca por alimento.
Sacagawea quis acompanhar o grupo.
Ela havia atravessado boa parte do continente com a expedição carregando seu filho Jean Baptiste, ainda bebê. Quando soube da viagem, insistiu para participar. Lewis registrou a justificativa: ela havia viajado uma distância enorme para conhecer as “grandes águas” e agora havia também aquele “peixe monstruoso” para ver. Considerava injusto não poder conhecer nenhum dos dois.
O detalhe torna a cena quase cinematográfica: Clark, uma dúzia de homens, Sacagawea e seu bebê seguindo pela costa do Pacífico no inverno para encontrar uma baleia morta.
A viagem estava longe de ser um passeio pela praia
O grupo precisou atravessar riachos, áreas alagadas, praias rochosas e montanhas costeiras extremamente íngremes. Clark descreveu trechos escorregadios e exaustivos. Em determinados pontos, a geografia era tão difícil que a viagem exigia subir e descer encostas abruptas em terreno encharcado.
Quando finalmente chegaram à baleia, em 8 de janeiro, tiveram uma surpresa.
Praticamente não havia mais baleia.
Restava o enorme esqueleto.
Clark mediu a estrutura e registrou impressionantes 105 pés de comprimento — cerca de 32 metros. A estimativa histórica não permite identificar com segurança o tamanho exato que o animal teria em vida, mas mostra a dimensão da carcaça que encontraram.
O motivo de quase não restar gordura estava logo ali.
Os Tillamook já haviam aproveitado a baleia
Os habitantes locais tinham retirado e processado grande parte do animal.
Clark observou um método engenhoso. A gordura era colocada em grandes recipientes de madeira e aquecida utilizando pedras quentes. O óleo extraído era então guardado em bexigas e partes do trato digestivo da própria baleia.
A gordura parcialmente processada também era preservada. Segundo Clark, pedaços eram posteriormente aquecidos sobre o fogo e consumidos sozinhos, junto com raízes ou mergulhados no próprio óleo.
A cena deixa claro que aquilo não era tratado como resto de animal. Era comida armazenável e um recurso valorizado.
E eles não queriam vender
Clark queria comprar uma quantidade significativa. Os Tillamook, porém, demonstraram pouca disposição para se desfazer do estoque.
Mesmo oferecendo os artigos comerciais que havia levado, Clark relatou grande dificuldade para conseguir que negociassem a gordura e o óleo.
Depois de toda a travessia, o grupo conseguiu aproximadamente 300 libras de gordura de baleia — cerca de 136 kg — e alguns galões de óleo.
Pode parecer muita coisa, mas havia 33 pessoas no grupo principal e ainda restavam semanas de inverno.
Clark deixou claro o que achou da aquisição: apesar de considerar a quantidade pequena, escreveu que a valorizava muito.
E então registrou uma das frases mais curiosas de toda a história.
Ele agradeceu à providência por ter sido mais gentil com eles do que havia sido com Jonas: desta vez, a baleia tinha sido enviada para ser engolida pelos homens, em vez de engoli-los.
Antes da baleia, até o cachorro havia entrado na comparação
Dois dias antes de receberem a primeira amostra da baleia, Lewis fez outra anotação interessante.
A expedição havia passado períodos consumindo cães adquiridos de povos indígenas ao longo da viagem. Lewis observou que, durante esses períodos, os homens haviam ficado, segundo sua própria percepção, mais fortes, mais saudáveis e com mais peso corporal do que em outros momentos desde que haviam deixado a região dos búfalos.
E foi ainda mais explícito sobre sua preferência pessoal: escreveu que preferia carne de cachorro a veado ou alce magros. Clark concordou com a observação sobre a condição física do grupo, embora tenha admitido que ainda não havia se acostumado ao sabor do cachorro.
É importante não acrescentar ao diário aquilo que ele não demonstra. Esses registros não permitem concluir que a gordura seja a explicação para a diferença percebida na saúde do grupo. Havia inúmeras variáveis envolvidas: quantidade de alimento disponível, esforço físico, doenças, clima e condições gerais da viagem.
Mas a preferência explícita por alimentos menos magros aparece repetidamente nos registros.
Uma floresta cheia de carne — e homens atravessando montanhas por gordura
Esse talvez seja o aspecto mais interessante de toda a história.
Não se tratava de pessoas cercadas por uma completa ausência de animais para caçar. Fort Clatsop havia sido escolhido, entre outros motivos, porque havia muitos alces na região. O National Park Service estima que mais de 130 foram abatidos durante aquele inverno.
Mesmo assim, quando Lewis falou sobre alimentação, não escreveu simplesmente que queria carne.
Ele escreveu que queria carne gorda.
Quando avaliou os alces, destacou que tinham pouco sebo. Quando recebeu gordura de baleia, aprovou imediatamente. No dia seguinte, Clark partiu com cerca de uma dúzia de homens para buscá-la. Depois de uma travessia difícil, encontrou uma população local que também considerava aquele recurso valioso demais para vender facilmente.
E voltou carregando aproximadamente 136 quilos.
Não é necessário transformar essa história em uma defesa de qualquer dieta moderna. Diários de uma expedição do século XIX não são experimentos nutricionais, e a alimentação desses povos e exploradores incluía outros alimentos.
Mas o registro histórico é curioso justamente porque dispensa uma interpretação complicada.
Em janeiro de 1806 havia carne de alce nas florestas ao redor de Fort Clatsop. Mesmo assim, um grupo atravessou montanhas, riachos e praias escorregadias para conseguir gordura.
E, do outro lado da negociação, os Tillamook não estavam exatamente ansiosos para entregá-la.
Fonte: https://lewisandclarkjournals.unl.edu/item/lc.jrn.1806-01-05
