Um estudo publicado em 1972 no Journal of Clinical Investigation mostrou que, após cerca de dois meses de jejum prolongado, homens com obesidade passaram a tolerar quedas muito acentuadas da glicose sem apresentar os sintomas de hipoglicemia observados antes do jejum. Ao mesmo tempo, o cérebro aumentou a extração de beta-hidroxibutirato (BHB), um dos principais corpos cetônicos. O achado sugere que, durante adaptação prolongada ao jejum, as cetonas podem substituir parte da glicose como combustível cerebral.
Como o experimento foi feito
Os pesquisadores estudaram nove homens com obesidade internados em uma unidade metabólica. Antes do jejum, eles receberam insulina intravenosa em doses de 0,1 a 0,2 U/kg para provocar uma queda rápida da glicose. Os participantes apresentaram reações hipoglicêmicas que incluíram sudorese, nervosismo, taquicardia, aumento da pressão, dor no peito ou confusão mental.
Depois de pelo menos 60 dias de jejum, com perda média de 73 libras, cerca de 33 kg, o teste foi repetido com a dose de insulina ajustada ao novo peso corporal. As concentrações máximas de insulina e sua velocidade de desaparecimento foram semelhantes às observadas antes do jejum, permitindo comparar a resposta metabólica nas duas situações.
O objetivo do experimento não era testar uma estratégia para emagrecimento nem avaliar a segurança do jejum prolongado. A pergunta era mais específica: um cérebro adaptado ao uso de cetonas continuaria apresentando os mesmos sinais de disfunção quando a disponibilidade de glicose caísse de forma aguda?
A glicose caiu, mas os sintomas desapareceram
Antes do jejum, os sintomas surgiam aproximadamente 30 minutos após a aplicação de insulina, coincidindo com o ponto mais baixo da glicose. Depois do jejum, os mesmos nove participantes não apresentaram as reações anteriores, apesar de a glicose cair em magnitude semelhante e permanecer baixa por mais tempo.
A glicose média atingiu 2,11 mmol/L após o jejum, aproximadamente 38 mg/dL. Em um dos participantes, a concentração chegou a 0,50 mmol/L, cerca de 9 mg/dL, sem provocar a reação hipoglicêmica que havia ocorrido antes da adaptação ao jejum.
Esse resultado não demonstra que uma glicemia de 9 mg/dL seja segura para pessoas em geral. O valor foi observado em uma situação experimental extrema, com hipoglicemia provocada por insulina, em indivíduos hospitalizados e depois de semanas de adaptação metabólica. Tentar reproduzir algo semelhante fora desse contexto seria transformar um experimento de fisiologia em uma recomendação que o estudo nunca fez.
O cérebro passou a retirar mais cetonas do sangue
Para investigar qual combustível estava sendo utilizado pelo cérebro, cinco participantes adicionais foram avaliados após 45 a 60 dias de jejum. Os pesquisadores coletaram sangue arterial e da veia jugular interna, que drena o cérebro, e compararam as concentrações de glicose e BHB antes e depois da passagem pelo tecido cerebral.
A diferença arteriovenosa de BHB aumentou, em média, de 0,21 para 0,70 mmol/L durante a hipoglicemia induzida por insulina. Ao mesmo tempo, a diferença de glicose caiu de 0,24 para 0,07 mmol/L. Em termos simples, enquanto o cérebro retirava menos glicose da circulação, aumentava consideravelmente a extração de corpos cetônicos.
O mesmo padrão não apareceu de forma consistente no antebraço. Para os autores, essa diferença fortalecia a hipótese de que o aumento da utilização de BHB estava particularmente relacionado ao cérebro durante a falta aguda de glicose.
O BHB plasmático também caiu após a aplicação da insulina, de uma média próxima de 8,0 para cerca de 6,7 mmol/L. Parte dessa redução poderia resultar da diminuição da produção hepática de cetonas causada pela insulina, mas os pesquisadores consideraram que o aumento da extração cerebral também contribuía.
Menos resposta de estresse diante da queda da glicose
Antes do jejum, a excreção urinária de catecolaminas aumentou significativamente após o teste com insulina. Essas substâncias fazem parte da resposta do organismo à hipoglicemia e estão relacionadas a manifestações como tremor, palpitação e sudorese.
Depois do período de jejum, esse aumento deixou de ser estatisticamente significativo. A mudança acompanhou o desaparecimento dos sintomas, embora a glicose tivesse atingido valores tão baixos ou ainda menores.
Para os pesquisadores, isso indicava que o cérebro adaptado ao jejum estava menos vulnerável à redução aguda de glicose porque dispunha de outro substrato energético em grande quantidade. As cetonas não impediram a glicose de cair. O que mudou foi a resposta do organismo à mesma privação de glicose.
O que o estudo realmente permite concluir
Os resultados apoiam a existência de flexibilidade metabólica no cérebro humano. Em condições habituais, a glicose fornece grande parte de sua energia. Após jejum prolongado, quando os corpos cetônicos atingem concentrações muito mais altas, o cérebro aumenta sua capacidade de captá-los e reduz sua dependência imediata da glicose.
O experimento também mostra que, naquele contexto específico, a intensidade dos sintomas não acompanhou rigidamente o valor absoluto da glicemia. Após a adaptação ao jejum, concentrações de glicose ainda menores deixaram de provocar a resposta observada anteriormente nos mesmos indivíduos.
Isso ajuda a separar duas ideias frequentemente confundidas: ter menos glicose disponível e ter menos energia disponível para o cérebro não são necessariamente a mesma coisa quando há grande quantidade de corpos cetônicos circulando.
As limitações impedem extrapolações amplas
O grupo principal tinha apenas nove participantes, todos homens e todos com obesidade. A avaliação da extração cerebral de BHB incluiu cinco pessoas adicionais, e dificuldades técnicas impediram a obtenção de séries completas de amostras em todos elas.
A diferença arteriovenosa mostra que mais BHB desaparecia do sangue ao atravessar o cérebro, mas não mede diretamente quanto desse BHB era completamente oxidado para produzir energia. Os próprios autores reconheceram que parte poderia seguir outras vias metabólicas.
Também não havia um grupo controle paralelo submetido ao mesmo período de observação sem jejum. Cada participante foi comparado consigo mesmo antes e depois da intervenção. Além disso, trata-se de um experimento publicado há mais de cinco décadas, conduzido com métodos e padrões clínicos próprios daquela época.
O trabalho, portanto, é mais útil para compreender a fisiologia humana do que para justificar uma intervenção clínica específica. Seu principal achado permanece relevante: após semanas de jejum e exposição contínua a concentrações elevadas de corpos cetônicos, o cérebro humano aumentou de forma mensurável a extração de BHB justamente quando a disponibilidade de glicose caiu. A capacidade de mudar de combustível ficou evidente no experimento.
