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Fórmula de soja em bebês: efeitos hormonais e reprodutivos observados pela ciência

Mamadeira de fórmula infantil próxima a grãos de soja, representando a exposição de bebês às isoflavonas da soja

A fórmula de soja é nutricionalmente capaz de sustentar o crescimento de bebês nas situações em que é indicada, mas também produz uma exposição incomum a isoflavonas justamente em uma fase de intenso desenvolvimento. Esses compostos vegetais, principalmente genisteína e daidzeína, conseguem interagir com receptores de estrogênio. Estudos em humanos já encontraram sinais de atividade estrogênica durante a infância e algumas associações posteriores com saúde ginecológica. Isso não significa que a fórmula de soja tenha sido comprovada como causa de infertilidade ou doença hormonal, mas existem achados negativos que merecem ser conhecidos.

Bebês que recebem fórmula de soja ficam altamente expostos a isoflavonas

O ponto de partida dessa discussão é bem estabelecido. Um estudo publicado no The Lancet em 1997 encontrou concentrações circulantes muito elevadas de isoflavonas em bebês alimentados com fórmula de soja.

Os pesquisadores calcularam que as concentrações plasmáticas desses compostos eram milhares de vezes superiores às concentrações naturais de estradiol presentes nessa fase da vida. Isso não significa milhares de vezes mais atividade estrogênica, porque isoflavonas são muito menos potentes que o estradiol. Ainda assim, demonstra que a exposição é biologicamente relevante.

A questão, portanto, não é simplesmente se há isoflavonas no sangue. A pergunta mais importante é se essa exposição consegue provocar respostas em tecidos sensíveis aos hormônios.

Alterações estrogênicas foram observadas no útero e no tecido vaginal

Uma das evidências humanas mais importantes surgiu em um estudo longitudinal publicado em 2018 no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.

Os pesquisadores acompanharam 410 bebês e compararam crianças alimentadas com leite materno, fórmula de leite de vaca ou fórmula de soja. Entre as meninas que receberam fórmula de soja, foram observadas alterações em tecidos sensíveis ao estrogênio.

As células vaginais apresentaram maior índice de maturação e o útero diminuiu de volume mais lentamente do que entre meninas alimentadas com fórmula de leite de vaca. Os próprios pesquisadores consideraram esse padrão compatível com resposta à exposição a estrogênio externo.

Em termos simples, não foi apenas uma substância vegetal aparecendo em um exame de sangue. O organismo apresentou uma resposta mensurável em tecidos que normalmente respondem ao estrogênio.

O estudo não demonstrou que essas alterações provoquem doença posteriormente. Mas confirmou um ponto importante: as isoflavonas presentes na fórmula de soja podem exercer atividade estrogênica detectável durante o desenvolvimento infantil.

Maior dor menstrual apareceu em mais de um estudo

Alguns dos achados mais interessantes aparecem décadas depois da exposição.

Em um estudo publicado no JAMA, mulheres que haviam recebido fórmula de soja quando bebês apresentaram duração ligeiramente maior do sangramento menstrual e maior relato de desconforto durante a menstruação em comparação com mulheres alimentadas com fórmula de leite de vaca.

A diferença média na duração da menstruação foi pequena, de aproximadamente 0,37 dia, e a maioria dos outros desfechos avaliados não apresentou diferenças. Por isso, isoladamente, esse estudo não seria suficiente para estabelecer um problema.

Entretanto, anos depois, outro trabalho encontrou um sinal semelhante.

No Study of Environment, Lifestyle & Fibroids, que acompanhou mulheres negras norte-americanas, aquelas que haviam recebido fórmula de soja na infância apresentaram maior frequência de indicadores de dor menstrual importante.

A exposição foi associada a risco 40% maior de ter utilizado contraceptivos hormonais especificamente para tratar dor menstrual e a risco aproximadamente 50% maior de relatar dor ou desconforto menstrual moderado a intenso durante boa parte das menstruações no início da vida adulta.

Como se trata de um estudo observacional, esses números representam associação, e não demonstram que a fórmula tenha causado a dor. O fato de um estudo anterior ter encontrado um sinal semelhante, porém, torna o achado relevante.

Sangramento menstrual intenso também foi associado à exposição

Outra análise da mesma coorte investigou especificamente o sangramento menstrual intenso.

Mulheres alimentadas com fórmula de soja na infância apresentaram maior frequência de histórico de sangramento menstrual abundante e maior utilização de medicamentos anti-inflamatórios para controlar o problema. Entre algumas participantes, os pesquisadores também encontraram sinais de fluxo menstrual mais intenso e maior impacto da menstruação sobre a qualidade de vida.

Mais uma vez, não se trata de prova de causalidade. Mas o achado reforça a possibilidade de que uma exposição durante uma janela sensível do desenvolvimento possa estar relacionada a características menstruais muitos anos depois.

Endometriose: um sinal que merece atenção, mas ainda não prova causalidade

Uma associação ainda mais relevante foi encontrada em um estudo caso-controle sobre fatores presentes no início da vida e risco de endometriose.

Mulheres que haviam recebido regularmente fórmula de soja quando bebês apresentaram aproximadamente 2,4 vezes a chance de endometriose em comparação com mulheres não expostas.

Esse resultado chama atenção porque a endometriose é uma doença influenciada por hormônios. No entanto, o estudo avaliou retrospectivamente uma exposição ocorrida décadas antes e, apesar de muitas participantes confirmarem a informação com familiares, esse tipo de desenho está sujeito a erros de memória e fatores de confusão.

Por isso, o resultado deve ser descrito corretamente: houve associação entre fórmula de soja na infância e endometriose na vida adulta, mas não foi demonstrado que a fórmula de soja cause endometriose.

Miomas uterinos também entraram no radar

Pesquisadores do National Institute of Environmental Health Sciences analisaram ainda a relação entre fórmula de soja na infância e miomas uterinos.

Em um estudo com 1.553 mulheres, a exposição à fórmula de soja não esteve associada a maior prevalência de miomas. Entretanto, entre as mulheres que apresentavam miomas, aquelas expostas à soja na infância tinham tumores maiores. O diâmetro do maior mioma foi, em média, 32% maior e o volume tumoral total 127% maior.

Um acompanhamento prospectivo posterior não encontrou aumento estatisticamente significativo do risco geral de desenvolver novos miomas. Entretanto, mulheres que receberam fórmula de soja nos primeiros dois meses de vida e continuaram por mais de seis meses apresentaram um sinal de risco aumentado, embora o intervalo de confiança incluísse a possibilidade de ausência de efeito.

Portanto, os dados sobre miomas são sugestivos, mas ainda insuficientes para concluir causalidade.

A soja pode interferir no tratamento do hipotireoidismo congênito

Há uma situação em que a preocupação é mais prática e bem estabelecida.

A soja pode reduzir a absorção intestinal da levotiroxina, medicamento utilizado para tratar hipotireoidismo congênito. Isso é especialmente importante em bebês porque níveis adequados dos hormônios tireoidianos são essenciais para o desenvolvimento cerebral.

As recomendações da American Academy of Pediatrics sobre hipotireoidismo congênito orientam que a levotiroxina seja administrada em leite materno, água ou fórmula que não contenha soja. A administração juntamente com soja pode prejudicar a absorção do medicamento.

Nesse contexto, portanto, não estamos falando apenas de uma hipótese baseada em fitoestrogênios. Existe uma interação clinicamente relevante que exige acompanhamento médico adequado.

O que os estudos não demonstraram

Até o momento, estudos em humanos não comprovaram que a fórmula de soja cause infertilidade, feminização de meninos ou comprometimento generalizado do desenvolvimento reprodutivo. Uma revisão sistemática com meta-análise sobre puberdade também não encontrou evidência consistente de que a exposição provoque puberdade precoce.

Essa distinção é fundamental. A ciência já documentou exposição elevada a isoflavonas, atividade estrogênica mensurável em tecidos de meninas e algumas associações posteriores com dor menstrual, sangramento, endometriose e características de miomas. Transformar esses achados em uma afirmação de que a fórmula de soja “destrói o sistema hormonal”, porém, iria além das evidências disponíveis.

Em resumo

O aspecto mais relevante da fórmula de soja não é simplesmente o fato de conter um composto vegetal chamado fitoestrogênio. É que ela pode representar uma exposição relativamente elevada a isoflavonas durante uma das fases mais sensíveis do desenvolvimento humano.

Estudos em bebês já demonstraram respostas compatíveis com atividade estrogênica no útero e no tecido vaginal. Estudos observacionais realizados anos depois encontraram associações com maior dor e sangramento menstrual e sinais relacionados à endometriose e aos miomas uterinos. Além disso, a soja pode interferir na absorção da levotiroxina em crianças tratadas por hipotireoidismo.

Esses resultados justificam investigação e cautela, especialmente quando a fórmula de soja é utilizada sem uma indicação específica. Ao mesmo tempo, a evidência disponível não permite afirmar que esses produtos causem infertilidade ou doença hormonal de forma generalizada. A escolha da fórmula para um bebê deve considerar a indicação clínica, a idade, possíveis alergias e a orientação do pediatra.

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