Os estudos citados no artigo sobre café apontam efeitos negativos reais, mas em contextos específicos: uso junto de certos medicamentos, consumo de café não filtrado, glaucoma ou hipertensão ocular, suscetibilidade à enxaqueca e refeições nas quais o ferro não heme é importante. A evidência não sustenta que “café faz mal” de forma geral. Ela mostra principalmente situações em que dose, preparo, horário ou condição clínica mudam o resultado.
Café pode reduzir a absorção de ferro não heme
Um dos achados negativos mais claros é a interferência na absorção de ferro. Em um estudo com humanos de 1983, uma xícara de café consumida com uma refeição contendo hambúrguer reduziu em 39% a absorção de ferro não heme. Em uma refeição semipurificada, a absorção caiu de 5,88% com água para 1,64% com café coado e 0,97% com café instantâneo. Com café instantâneo mais forte, caiu para 0,53%. O efeito não apareceu quando o café foi tomado uma hora antes da refeição, mas permaneceu quando consumido uma hora depois. Estudo.
Outro ensaio mostrou redução dependente da quantidade de polifenóis: bebidas com 20 a 50 mg por porção reduziram a absorção de ferro não heme em cerca de 50% a 70%, enquanto 100 a 400 mg reduziram em 60% a 90%. O café estava entre as bebidas avaliadas, e adicionar leite pouco alterou o efeito. Estudo.
Esses trabalhos avaliaram principalmente ferro não heme e não demonstram que café provoque anemia em qualquer pessoa. A relevância tende a ser maior quando as reservas de ferro já estão baixas ou quando boa parte do ferro da dieta vem de fontes vegetais.
Alguns medicamentos podem ser afetados
A interação com levotiroxina é bem documentada. Em pacientes e voluntários, tomar o medicamento junto com café reduziu a área sob a curva da tiroxina em aproximadamente 36% e 27%, respectivamente, além de atrasar o pico de absorção. Quando o café foi consumido 60 minutos depois, os resultados ficaram semelhantes aos obtidos com água. Estudo.
O alendronato também é sensível ao modo de ingestão. Tomá-lo com café preto reduziu sua biodisponibilidade em aproximadamente 60%, um dado relevante porque sua absorção oral já é muito baixa. Estudo.
Para a clozapina, um pequeno estudo cruzado encontrou concentrações mínimas cerca de 20% maiores durante a fase com café cafeinado do que com café descafeinado. Os autores consideraram o efeito de pequena relevância clínica para a maioria, mas admitiram maior sensibilidade em alguns indivíduos. Estudo.
A interação pode ocorrer no sentido contrário. Em dez voluntários saudáveis, a ciprofloxacina aumentou a meia-vida da cafeína de 5,2 para 8,2 horas e reduziu sua depuração de 106 para 58,2 mL/min/1,73 m². Isso não prova efeitos adversos em todos, mas mostra que a cafeína pode permanecer circulando por mais tempo durante o uso desse antibiótico. Estudo.
Café não filtrado pode elevar LDL-colesterol e triglicerídeos
O resultado cardiovascular negativo mais direto envolve cafestol e kahweol, diterpenos presentes em maior quantidade no café não filtrado. Em um ensaio cruzado com dez homens saudáveis, cerca de 61 a 64 mg de cafestol por dia durante 28 dias elevaram o colesterol total em aproximadamente 31 mg/dL, o LDL-colesterol em 22 mg/dL e os triglicerídeos em 58 mg/dL. A alanina aminotransferase também aumentou em 18 U/L. Estudo.
Esse resultado não deve ser aplicado automaticamente a qualquer xícara de café: o estudo administrou diterpenos purificados em dose experimental e relacionou o efeito ao café não filtrado. Outro trabalho citado encontrou redução de lipoproteína(a) com esses compostos, embora os próprios autores tenham mencionado efeitos adversos que impediriam seu uso com essa finalidade. Estudo.
Pressão intraocular: efeito concentrado em quem já tem risco
Uma revisão sistemática com seis ensaios randomizados e 144 participantes encontrou resultados diferentes entre pessoas saudáveis e indivíduos com glaucoma ou hipertensão ocular. Nos saudáveis, a cafeína não alterou significativamente a pressão intraocular. Já nos 41 participantes com essas condições, houve aumento significativo, chegando a aproximadamente 2,4 mmHg após uma hora e 2,0 mmHg após uma hora e meia. A relevância clínica desse aumento permaneceu incerta. Estudo.
Enxaqueca: excesso e retirada abrupta podem ser problema
Uma revisão de 21 estudos encontrou cafeína ou retirada de cafeína como gatilho em 2% a 30% dos participantes, dependendo do estudo. Ao mesmo tempo, a cafeína também pode ajudar no tratamento agudo. Os autores não encontraram base para recomendar abstinência a todas as pessoas com enxaqueca, mas destacaram consumo excessivo e retirada abrupta como possíveis gatilhos. Revisão.
Um ensaio randomizado planejado para 80 pessoas recrutou apenas dez. Entre nove participantes que chegaram à fase de retirada, sete apresentaram crises intensas de enxaqueca após suspensão abrupta da cafeína. O resultado é relevante, mas a amostra muito pequena impede estimar o risco com precisão. Estudo.
Refluxo e intestino: evidência menos conclusiva
O artigo afirma que o café pode piorar refluxo em algumas pessoas, mas os links não demonstram uma relação causal simples. A revisão gastrointestinal usada como referência classifica a influência do café sobre refluxo como controversa. Outro link discute manifestações respiratórias da doença do refluxo, sem demonstrar diretamente que o café seja sua causa. Revisão sobre café e trato gastrointestinal e revisão sobre refluxo.
Na parte sobre o intestino, um dos links é um estudo de manometria em 25 adultos saudáveis que descreveu maior atividade do cólon ao despertar e após refeições; ele não foi um experimento sobre café. Outros dois links tratam de FODMAPs e polióis, que podem estar presentes em ingredientes adicionados à bebida. Portanto, esses trabalhos não devem ser usados como prova de que o café isoladamente causa sintomas intestinais. Manometria colônica, FODMAPs e polióis.
As demais alegações não mostram dano clínico convincente
Os outros estudos ajudam a explicar a química do café, metabolismo de ácidos clorogênicos, microbiota intestinal, função vascular e apetite, mas não fornecem evidência forte de prejuízo clínico. Alguns encontraram resultados potencialmente favoráveis; outros são estudos in vitro ou revisões com conclusões ainda incertas. Compostos bioativos, ácido clorogênico e pressão arterial, função vascular, metabolismo intestinal, fermentação in vitro, microbiota humana, função gastrointestinal e apetite.
O que a evidência permite concluir
Considerando todos os estudos do artigo, os efeitos negativos mais bem sustentados são específicos: menor absorção de ferro não heme quando o café acompanha determinadas refeições; interferência com alguns medicamentos; aumento de LDL-colesterol, triglicerídeos e enzimas hepáticas com diterpenos em dose experimental, sobretudo do café não filtrado; aumento transitório da pressão intraocular em pessoas com glaucoma ou hipertensão ocular; e crises de enxaqueca relacionadas ao excesso ou à retirada abrupta de cafeína em indivíduos suscetíveis.
Os próprios estudos não sustentam a conclusão de que o café seja prejudicial para todas as pessoas. A leitura mais fiel é que horário, método de preparo, dose e contexto clínico podem mudar bastante seus efeitos.
Fonte: https://medicalxpress.com/news/2026-09-ways-coffee-affects-body-caffeine.html
