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Dieta cetogênica e diabetes tipo 2: estudo encontrou maior redução da glicemia

Comparação da resposta glicêmica entre dietas de maior e menor potencial cetogênico em pessoas com diabetes tipo 2

Uma pesquisa publicada em 1996 no American Journal of Clinical Nutrition encontrou uma redução maior da glicemia em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 submetidas a uma dieta cetogênica, quando comparadas a uma dieta com mais carboidratos e quantidade semelhante de calorias. O resultado foi observado mesmo sem diferença significativa na perda de peso entre as sequências de tratamento.

O trabalho, conduzido por Barry Gumbiner, Jacqueline Wendel e Michael McDermott, investigou se a cetose poderia contribuir para o controle glicêmico além dos efeitos normalmente associados ao emagrecimento.

Como o estudo foi realizado?

Os pesquisadores acompanharam 13 adultos com obesidade e diabetes tipo 2 durante seis semanas. Sete participantes começaram com uma dieta de maior potencial cetogênico, enquanto os outros seis receberam uma dieta com mais carboidratos. Após três semanas, todos trocaram de alimentação, passando a seguir o protocolo oposto.

As duas dietas tinham restrição calórica bastante intensa, com aproximadamente 600 a 650 kcal diárias. A quantidade de proteína foi planejada a partir do mesmo critério, enquanto carboidratos e gorduras foram ajustados para estimular ou reduzir a produção de corpos cetônicos.

As médias de composição foram:

  • Dieta mais cetogênica: 624 kcal, 24,1 g de carboidratos e 29,3 g de gordura por dia.
  • Dieta menos cetogênica: 644 kcal, 94,4 g de carboidratos e aproximadamente 4 g de gordura por dia.

Foram utilizadas fórmulas nutricionais industrializadas. A versão cetogênica continha proteínas lácteas, amido, sacarose e óleos vegetais, incluindo óleo de cártamo. Portanto, o experimento não avaliou uma alimentação cetogênica convencional baseada em alimentos integrais, tampouco uma dieta carnívora.

Os medicamentos para diabetes, quando utilizados, foram suspensos duas semanas antes do protocolo. Durante o acompanhamento, os participantes tiveram peso e glicemia monitorados diariamente, além de avaliações metabólicas periódicas.

A dieta cetogênica apresentou resultados glicêmicos superiores

As duas estratégias produziram emagrecimento expressivo. Ao final das seis semanas, a perda média foi de 11,6 ± 1,0 kg entre aqueles que começaram pela dieta mais cetogênica e 10,3 ± 1,3 kg entre os que iniciaram pela outra dieta. Essa diferença não foi estatisticamente significativa.

Entretanto, a resposta da glicemia foi diferente.

Durante os períodos de alimentação mais cetogênica, a glicose em jejum permaneceu significativamente mais baixa (P < 0,001). O resultado apareceu independentemente de os participantes receberem essa dieta nas primeiras ou nas últimas três semanas.

A vantagem também foi observada no teste oral de tolerância à glicose, no qual os participantes ingeriram 75 g de glicose e tiveram a resposta metabólica acompanhada durante três horas.

Após a dieta cetogênica, os níveis de glicose nesse teste foram significativamente menores do que após a dieta menos cetogênica (P < 0,05).

Um detalhe interessante apareceu quando as dietas foram invertidas. Os participantes que saíram da alimentação cetogênica apresentaram um pequeno aumento da glicemia em jejum, apesar de continuarem emagrecendo. Já aqueles que passaram da dieta mais rica em carboidratos para a cetogênica tiveram reduções adicionais.

Esse comportamento reforça a interpretação de que a composição alimentar influenciou o controle glicêmico durante o experimento, além do efeito compartilhado da restrição calórica.

O fígado também passou a produzir menos glicose

Outro resultado relevante envolveu a produção hepática de glicose.

Mesmo durante o jejum, o organismo precisa manter glicose disponível no sangue. O fígado participa desse processo, produzindo ou liberando glicose conforme a necessidade. No diabetes tipo 2, essa produção pode permanecer excessivamente elevada, contribuindo para a hiperglicemia.

Os pesquisadores estimaram essa produção utilizando uma técnica de diluição isotópica com glicose marcada.

Após as primeiras três semanas, os valores médios foram:

  • Dieta mais cetogênica: 1,27 ± 0,08 mg/kg/min.
  • Dieta menos cetogênica: 1,56 ± 0,14 mg/kg/min.

A análise estatística do protocolo completo identificou um efeito significativo da composição da dieta sobre a produção hepática basal de glicose (P < 0,002).

Também foi encontrada uma correlação inversa entre a concentração de corpos cetônicos e a produção hepática de glicose: r = -0,71 na terceira semana e r = -0,67 na sexta semana, ambas estatisticamente significativas.

Isso indica que maiores concentrações de corpos cetônicos estiveram associadas a uma menor produção de glicose pelo organismo.

E quanto à insulina?

A insulina, o peptídeo C e o glucagon em jejum diminuíram ao longo do emagrecimento, mas não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas modalidades alimentares para esses indicadores.

O peptídeo C é utilizado como marcador da secreção de insulina pelo pâncreas. Sua avaliação ajuda a distinguir mudanças na produção de insulina de outras alterações metabólicas.

O resultado sugere que a melhora adicional da glicemia durante a dieta mais cetogênica não dependeu de uma diferença demonstrável nas concentrações circulantes desses hormônios.

Os autores levantaram outras possibilidades, incluindo mudanças na disponibilidade de glicose, nos estoques de glicogênio do fígado e na sensibilidade à insulina. Entretanto, esses mecanismos não foram diretamente esclarecidos pelo experimento.

A melhora pode ser atribuída exclusivamente à cetose?

Embora os resultados favoreçam a hipótese investigada, existe uma distinção importante entre observar uma correlação com corpos cetônicos e demonstrar que eles foram os responsáveis pela melhora metabólica.

Os próprios autores reconheceram essa limitação. A relação estatística encontrada não explicava integralmente a redução da glicemia, e houve sobreposição nas concentrações de corpos cetônicos entre participantes submetidos às diferentes dietas.

Além disso, carboidratos e gorduras foram modificados simultaneamente. Assim, a menor disponibilidade alimentar de glicose também pode ter contribuído para o resultado.

O experimento demonstrou uma diferença entre duas composições alimentares, mas não conseguiu isolar completamente o efeito metabólico da cetose.

Quais são as limitações do estudo?

O número reduzido de participantes (13 pessoas) e a duração de apenas seis semanas limitam a generalização dos resultados.

Outro aspecto fundamental é a intensidade da restrição energética. Uma alimentação com aproximadamente 600 kcal diárias, realizada sob acompanhamento clínico, representa uma intervenção bastante diferente de uma dieta cetogênica habitual, sem restrição calórica tão acentuada.

O protocolo também utilizou períodos consecutivos, sem descrever uma etapa intermediária destinada a eliminar possíveis efeitos residuais da dieta anterior.

Não foram demonstrados benefícios sustentados sobre hemoglobina glicada, remissão do diabetes, complicações da doença ou segurança em longo prazo. O estudo concentrou-se principalmente nas respostas metabólicas de curto prazo.

Ainda assim, seus resultados são relevantes para a pergunta que os pesquisadores procuraram responder: sob restrição calórica semelhante e com perdas de peso comparáveis, modificar a composição da alimentação produziu diferenças mensuráveis no controle da glicose.

A dieta mais cetogênica apresentou uma redução adicional da glicemia e da produção hepática de glicose. O trabalho oferece evidência experimental de que a composição alimentar pode influenciar o controle glicêmico durante o emagrecimento, embora não permita atribuir todo esse benefício aos corpos cetônicos nem garantir resultados equivalentes com intervenções menos restritivas.

Fonte: https://doi.org/10.1093/ajcn/63.1.110

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