A alimentação em Point Barrow, no extremo norte do Alasca, era descrita no fim do século XIX como quase inteiramente baseada em alimentos de origem animal. O registro vem do naturalista John Murdoch, integrante da International Polar Expedition to Point Barrow, que permaneceu na região entre 1881 e 1883 e documentou detalhadamente os hábitos da população indígena local.
O relato é especialmente interessante porque não se limita a dizer que aquelas pessoas comiam carne. Murdoch descreve quais animais eram consumidos, como os alimentos eram preparados, a importância relativa da gordura, o consumo ocasional de vegetais e até a frequência das refeições. Ao mesmo tempo, trata-se de uma observação etnográfica histórica, e não de um estudo clínico capaz de determinar se aquele padrão alimentar era mais ou menos saudável.
Uma alimentação dominada por alimentos animais
Murdoch é bastante direto ao descrever a dieta: segundo ele, a comida daquela população consistia “quase inteiramente de substâncias animais”.
O alimento básico era a carne de uma espécie local de foca, obtida em quantidade maior do que qualquer outra carne. Em seguida vinha a carne de rena, considerada inclusive uma espécie de iguaria.
Mas a variedade de alimentos animais era considerável. O relato registra o consumo de outras espécies de focas, morsa, urso-polar, baleia-da-Groenlândia, beluga, aves aquáticas e praticamente todos os tipos de peixe disponíveis.
Gansos, patos, gaivotas e outras aves maiores também faziam parte da alimentação. Os ovos eram procurados com entusiasmo sempre que estavam disponíveis. No caso dos peixes, Murdoch observa que muito pouco do animal era desperdiçado, com exceção das partes mais duras.
A pele externa da baleia também era valorizada como alimento, assim como determinadas partes associadas às barbatanas. Vísceras de aves eram cuidadosamente preparadas e consideradas uma iguaria.
Vegetais apareciam muito pouco no relato
Durante o período de observação, Murdoch afirma que sua equipe não viu aquela população consumir alimentos vegetais. Os moradores, porém, informaram aos pesquisadores que brotos de salgueiro eram consumidos ocasionalmente.
Isso é diferente de afirmar que absolutamente nenhum vegetal era ingerido durante toda a vida ou em todas as estações. O que o documento permite dizer é mais restrito: durante as observações da expedição, os alimentos animais dominavam claramente a dieta, enquanto o consumo vegetal observado era mínimo ou inexistente.
Naquela época, o contato com alimentos trazidos pela sociedade ocidental já estava modificando parcialmente esse cenário. Murdoch relata crescente interesse por pão, farinha, açúcar e melaço. Alguns habitantes também estavam começando a aceitar o uso do sal.
Esses produtos, entretanto, não parecem ter substituído imediatamente a alimentação tradicional. O autor registra que alimentos como mingau de farinha, pão e outros produtos obtidos dos integrantes da expedição eram frequentemente tratados como iguarias, lanches ou sobremesas, consumidos além da refeição habitual.
Nem tudo era simplesmente carne crua
Outra imagem popular sobre populações do Ártico é a de que toda a carne seria ingerida crua. O relato de Murdoch mostra uma realidade mais variada.
A carne era geralmente cozida em bastante água sobre fogo de madeira trazida pelas correntes marítimas. O caldo resultante do cozimento era bebido quente antes da carne. Peixes também podiam ser cozidos.
Alimentos crus ou congelados, entretanto, faziam parte da rotina. Peixes congelados eram particularmente úteis durante o inverno e em acampamentos de caça. Carne também podia ser consumida crua ou congelada dependendo das circunstâncias e da disponibilidade de combustível.
Murdoch descreve inclusive uma preparação destinada às viagens de inverno que lembra um alimento energético concentrado. A medula retirada dos ossos de rena era misturada com gordura de foca ou baleia e pedaços de carne de rena cozida. A mistura era moldada em porções e transportada em bolsas de pele de foca.
Isso mostra uma alimentação adaptada não apenas ao ambiente, mas também às necessidades práticas de caça e deslocamento em temperaturas extremas.
O relato traz uma surpresa sobre o consumo de gordura
Talvez um dos detalhes mais interessantes do documento seja que Murdoch não confirma a ideia de que aquela população passava o dia consumindo enormes quantidades de gordura ou bebendo óleo.
Segundo suas observações, a gordura podia ser consumida e determinadas partes gordurosas eram apreciadas, mas não havia o hábito constante de ingerir grandes quantidades de gordura isoladamente. Ele também afirma que não observou o consumo habitual de óleo como bebida ou como molho para alimentos secos, práticas registradas entre outras populações do Ártico.
O próprio autor critica a generalização, já comum no século XIX, de que todos os povos do Ártico necessariamente consumiriam quantidades enormes de gordura para suportar o frio.
Portanto, classificar simplesmente a alimentação de Point Barrow como uma dieta formada por “carne e enormes quantidades de gordura” não representaria corretamente o documento. Era uma dieta fortemente baseada em alimentos animais, mas a proporção de gordura aparentemente variava e não correspondia ao estereótipo popular.
Também não havia necessariamente três refeições por dia
A organização das refeições era bastante diferente do padrão moderno. Nas casas de inverno, Murdoch não identificou horários regulares para comer. As pessoas aparentemente se alimentavam quando sentiam fome e quando suas atividades permitiam.
As mulheres mantinham comida cozida disponível para que os integrantes da família pudessem comer conforme a necessidade.
Nos acampamentos de caça à rena, o padrão podia ser ainda mais espaçado. Segundo informações registradas pela expedição, comia-se pouco pela manhã e, em algumas situações, havia praticamente uma grande refeição por dia, realizada à noite depois do trabalho.
Durante deslocamentos, pequenas quantidades da preparação de medula, gordura e carne podiam ser consumidas pela manhã, sem nova refeição até o acampamento noturno.
Isso não significa que a população praticasse deliberadamente aquilo que hoje se chama de jejum intermitente. A frequência alimentar provavelmente refletia disponibilidade de alimentos, atividades de caça, deslocamentos, organização social e condições ambientais.
O que esse registro histórico realmente demonstra
O documento de Murdoch oferece uma evidência histórica importante de que uma população humana podia organizar sua subsistência tradicional com predomínio extremo de alimentos de origem animal.
Focas, renas, baleias, peixes, aves, ovos, vísceras e gordura animal forneciam praticamente toda a alimentação descrita. Vegetais tinham participação muito pequena, enquanto farinha, açúcar, melaço e outros alimentos trazidos de fora ainda apareciam principalmente como novidades ou complementos.
Esse registro, porém, não deve ser transformado em algo que ele não é. Murdoch não mediu colesterol, glicemia, vitaminas, composição corporal, mortalidade, expectativa de vida ou incidência de doenças crônicas. Também não comparou aquela população com um grupo submetido a outra dieta.
Portanto, o documento não prova que uma dieta carnívora seja superior, mais saudável ou ideal para populações modernas. Ele demonstra algo diferente e historicamente relevante: em Point Barrow, no início da década de 1880, existia uma população cuja alimentação tradicional observada era quase totalmente formada por alimentos animais.
Em resumo
Os registros da expedição mostram uma alimentação moldada por um dos ambientes mais extremos do planeta. Carne de foca constituía a principal fonte alimentar, acompanhada por rena, baleia, morsa, peixe, aves, ovos, vísceras e outras partes dos animais.
Os vegetais tinham participação mínima no que foi observado, e alimentos ocidentais ricos em farinha e açúcar começavam a aparecer como produtos especiais. A comida era consumida cozida, congelada ou crua, dependendo da situação, e os horários das refeições podiam variar bastante.
Talvez o aspecto mais importante seja separar história de prescrição nutricional. O relato de John Murdoch é uma documentação detalhada de como seres humanos efetivamente se alimentavam em determinado contexto ecológico e cultural. Isso o torna relevante para a história da alimentação humana e para a antropologia nutricional, mas não substitui estudos clínicos modernos sobre os efeitos de diferentes dietas na saúde.
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