A afirmação de que o queijo seria tão viciante quanto uma droga pesada não corresponde ao que o estudo usado como referência realmente investigou. A pesquisa avaliou relatos subjetivos de perda de controle diante de diferentes alimentos, sem comparar queijo com cocaína, heroína ou qualquer outra substância.
O que foi estudado
O artigo Which Foods May Be Addictive? The Roles of Processing, Fat Content, and Glycemic Load, publicado em 2015 na revista PLOS ONE, reuniu dois estudos transversais.
No primeiro, 120 universitários receberam pares de imagens retiradas de uma lista de 35 alimentos. Eles deveriam indicar com qual alimento tinham maior probabilidade de enfrentar dificuldades, como comer mais do que pretendiam ou não conseguir reduzir o consumo.
No segundo, 384 adultos recrutados pela plataforma Amazon Mechanical Turk classificaram cada alimento em uma escala de 1 a 7, na qual 1 significava “nada problemático” e 7, “extremamente problemático”. Os participantes também responderam a uma versão da Escala de Dependência Alimentar de Yale.
O estudo não administrou alimentos em condições controladas, não mediu consumo real, abstinência, tolerância, atividade cerebral ou concentração de substâncias no sangue. Ele registrou apenas como os participantes percebiam sua relação com aqueles alimentos.
O que os resultados realmente mostraram
No primeiro estudo, o chocolate ficou em primeiro lugar, seguido por sorvete, batata frita e pizza. O queijo apareceu somente na 16ª posição entre os 35 alimentos.
No segundo estudo, a pizza ocupou o primeiro lugar, com média de 4,01 numa escala que chegava a 7. Chocolate e salgadinhos receberam média de 3,73. O queijo ficou em décimo, com média de 3,22. Nenhum alimento foi classificado, em média, como “extremamente problemático”.
Portanto, dois detalhes frequentemente repetidos precisam ser corrigidos.
O primeiro é que a pizza não liderou os dois levantamentos: no estudo com universitários, o primeiro lugar pertenceu ao chocolate.
O segundo é que o queijo não apareceu apenas porque estava presente na pizza. Ele foi apresentado e avaliado separadamente pelos participantes. Curiosamente, os próprios pesquisadores classificaram o queijo como alimento não altamente processado, com carga glicêmica igual a zero.
A conclusão central do artigo foi bem menos cinematográfica: alimentos altamente processados, especialmente aqueles que combinavam gordura com farinha ou açúcar refinado, foram mais frequentemente associados a relatos de perda de controle.
O estudo não comparou queijo com drogas pesadas
Os autores discutiram a hipótese de que alimentos altamente processados poderiam compartilhar algumas características com substâncias que causam dependência, como elevada concentração de componentes recompensadores e rápida absorção de carboidratos refinados.
Isso não equivale a demonstrar que um alimento produz os mesmos efeitos farmacológicos, neurológicos ou comportamentais de uma droga.
O artigo não comparou queijo com cocaína, heroína ou opioides. Também não investigou casomorfinas. A pesquisa utilizou expressões cautelosas, como “comportamentos semelhantes aos observados na dependência” e “evidência preliminar”.
Os autores reconheceram que seria necessário medir respostas biológicas e observar diretamente tolerância, abstinência e consumo compulsivo antes de estabelecer mecanismos de dependência.
A comparação com drogas pesadas foi acrescentada posteriormente em manchetes, reportagens e publicações nas redes sociais.
Onde entram as casomorfinas
As beta-casomorfinas são pequenos fragmentos de proteínas que podem ser liberados durante a digestão da caseína. Algumas conseguem interagir com receptores opioides em experimentos laboratoriais, especialmente com receptores do tipo μ.
Entretanto, chamar uma molécula de “opioide” ou “semelhante a opioide” não significa que ela se comporte como uma droga opioide no organismo humano.
Para produzir efeitos comparáveis aos de um narcótico, o composto precisaria sobreviver à digestão, atravessar o intestino em quantidade relevante, permanecer estável no sangue, alcançar o cérebro e ativar receptores em concentração suficiente.
A evidência sobre essas etapas permanece limitada. Uma revisão da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos concluiu que não era possível estabelecer uma relação de causa e efeito entre a ingestão de beta-casomorfina-7 e doenças humanas.
Revisões posteriores também destacaram que grande parte das hipóteses se apoia em estudos laboratoriais, animais ou observacionais, não em demonstrações clínicas de dependência provocada pelo queijo.
Um estudo experimental publicado em 2026 avaliou concentrações compatíveis com a exposição alimentar e encontrou atividade opioide local em células intestinais, mas translocação mínima do peptídeo.
Uma ação local no intestino está muito distante de comprovar entrada relevante no cérebro ou comportamento semelhante ao provocado por uma droga.
Casomorfinas também existem no leite humano
Peptídeos classificados como beta-casomorfinas também foram identificados no leite materno. Pesquisadores já mediram beta-casomorfina-5 e beta-casomorfina-7 em diferentes fases da lactação.
As sequências humanas e bovinas não são necessariamente idênticas, e sua atividade biológica pode variar.
Esse fato não transforma o leite materno em droga. Ele apenas demonstra como é inadequado concluir que qualquer molécula capaz de interagir com um receptor opioide necessariamente provoca intoxicação ou dependência.
Levado ao pé da letra, o argumento transformaria a amamentação no primeiro contato farmacológico da vida. O problema está na analogia, não no leite materno.
Limitações importantes
O trabalho de 2015 teve desenho transversal e utilizou respostas subjetivas. As amostras não eram representativas da população geral, a altura e o peso de parte dos participantes foram autorrelatados e nenhum consumo foi observado diretamente.
Os pesquisadores também não avaliaram como o contexto modificava as respostas. Uma pessoa poderia relatar dificuldade diante de uma pizza inteira, por exemplo, sem apresentar o mesmo comportamento diante de queijo consumido isoladamente durante uma refeição.
Além disso, a combinação de farinha refinada, gordura, sal, textura, aroma e facilidade de consumo torna a pizza um produto muito diferente do queijo usado como alimento isolado.
O próprio artigo reconheceu que seria necessário separar melhor os efeitos da gordura, dos carboidratos refinados e do processamento.
Em resumo
O estudo mostrou que participantes relataram maior dificuldade para controlar o consumo de alimentos altamente processados, sobretudo produtos que combinavam gordura e carboidratos refinados.
Ele não demonstrou que o queijo:
- produz dependência equivalente à de drogas pesadas;
- provoca intoxicação opioide;
- causa abstinência farmacológica;
- leva casomorfinas ao cérebro em quantidade relevante;
- ou é o principal responsável pelo comportamento observado com a pizza.
Conclusão
O achado original era plausível e relativamente simples: determinados alimentos muito palatáveis e altamente processados foram percebidos como mais difíceis de consumir com moderação.
A narrativa de que “queijo é tão viciante quanto uma droga pesada” exigia muito mais evidência do que o estudo forneceu. As casomorfinas foram acrescentadas posteriormente como explicação atraente, embora não tenham sido medidas e sequer fizessem parte da pesquisa.
A ciência encontrou relatos de perda de controle diante de pizza, chocolate, sorvete e outros produtos altamente processados. A internet preferiu transformar o queijo em entorpecente. Como costuma acontecer, a versão menos precisa viajou mais depressa.
Fonte: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0117959
