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Postergação da morte com o uso de estatinas: revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados

Capa de estudo sobre estatinas e ganho médio de sobrevida em ensaios clínicos randomizados

As estatinas adiaram a morte por todas as causas em média por poucos dias dentro da duração dos ensaios clínicos analisados. Nesta revisão sistemática e meta-análise, o ganho médio estimado foi de 12,6 dias.

O que foi estudado

O estudo Postponement of Death by Statin Use: a Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials, publicado em 2019 no Journal of General Internal Medicine, avaliou uma forma diferente de comunicar o benefício das estatinas: em vez de usar apenas redução relativa de risco, redução absoluta de risco ou número necessário para tratar, os autores calcularam o chamado “adiamento do desfecho”.

Esse conceito tenta responder a uma pergunta mais intuitiva: em média, por quanto tempo o tratamento adiou a ocorrência da morte durante o período observado nos ensaios clínicos?

A análise teve foco específico em mortalidade por todas as causas, e não apenas em eventos cardiovasculares. Isso é importante porque um medicamento pode reduzir infarto, AVC ou outros eventos cardiovasculares sem necessariamente produzir um grande aumento médio de sobrevida no curto período de acompanhamento dos estudos.

Como o estudo foi feito

Os autores realizaram uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados, controlados por placebo, com pelo menos 1.000 participantes, acompanhamento mínimo de 2 anos e dados sobre morte por qualquer causa. Ao todo, 16 ensaios clínicos preencheram os critérios de inclusão. Entre eles, 2 eram de prevenção primária, 6 de prevenção secundária e 8 misturavam participantes com e sem doença cardiovascular manifesta.

A prevenção primária envolve pessoas sem doença cardiovascular estabelecida no início do estudo. A prevenção secundária envolve pessoas que já tinham doença cardiovascular, como infarto prévio, doença coronariana, AVC ou outra manifestação aterosclerótica.

Os pesquisadores calcularam o adiamento médio da morte usando dados publicados dos estudos, como razão de risco, mortalidade no grupo placebo e duração do ensaio. Também compararam esse modelo com estimativas obtidas a partir das curvas de Kaplan-Meier quando elas estavam disponíveis.

Principais resultados

Na meta-análise dos 16 ensaios, o uso de estatinas foi associado a um adiamento médio da morte de 12,6 dias durante a duração dos estudos, com intervalo de 7,1 a 18,0 dias. Quando os autores padronizaram os estudos para uma duração de 5 anos, a estimativa ficou muito próxima: 12,8 dias.

A análise por tipo de prevenção mostrou diferenças:

  • prevenção primária: 10,2 dias;
  • prevenção secundária: 17,4 dias;
  • prevenção mista: 8,5 dias.

Isso indica que o ganho médio foi maior nos estudos de prevenção secundária, nos quais os participantes já tinham doença cardiovascular conhecida. Esse achado é coerente com a ideia de que pessoas com maior risco basal tendem a ter maior benefício absoluto com intervenções preventivas.

A meta-análise tradicional por razão de risco também encontrou redução da mortalidade por todas as causas. Considerando todos os ensaios, a razão de risco foi de 0,89, sugerindo menor risco relativo de morte no grupo tratado com estatinas em comparação ao placebo.

O que isso significa na prática

O resultado não significa que cada pessoa que usa estatina vive exatamente 12,6 dias a mais. Trata-se de uma média estimada dentro do período de acompanhamento dos ensaios clínicos.

A informação central é mais limitada e mais precisa: nos estudos analisados, as estatinas produziram um pequeno ganho médio de sobrevida durante a duração dos ensaios. Esse ganho foi maior em prevenção secundária e menor em populações mistas ou de menor risco.

Também é importante separar mortalidade total de outros desfechos. Os próprios autores destacam que as estatinas reduzem eventos cardiovasculares, e esse efeito pode ter valor para o paciente mesmo quando o ganho médio em mortalidade por todas as causas, dentro do tempo do ensaio, é pequeno.

Limitações do estudo

A principal limitação é que a análise mede apenas o adiamento da morte dentro da duração dos ensaios clínicos. Ela não estima com segurança o possível benefício acumulado após o fim dos estudos.

Os autores explicam que modelos de tratamento ao longo da vida podem produzir estimativas muito diferentes, dependendo das premissas usadas. Alguns modelos assumem que a razão de risco permanece constante por décadas e que os pacientes mantêm o tratamento por toda a vida, o que nem sempre ocorre na prática.

Outro ponto relevante é que alguns ensaios tiveram troca de tratamento entre grupos. Em certas pesquisas, uma parte dos participantes originalmente alocados ao placebo passou a usar estatina, ou participantes alocados à estatina interromperam o tratamento. Isso pode reduzir a diferença observada entre os grupos.

Apesar disso, os ensaios incluídos eram grandes, randomizados, controlados por placebo, com alocação oculta e cegamento, e foram classificados como de baixo risco geral de viés.

Em resumo

Esta revisão sistemática e meta-análise mostrou que as estatinas adiaram a morte por todas as causas em média por 12,6 dias dentro da duração dos ensaios clínicos avaliados.

O benefício médio foi maior em prevenção secundária, especialmente entre pessoas com doença cardiovascular já estabelecida. Em prevenção primária, o ganho médio foi menor, embora ainda tenha havido redução relativa da mortalidade nas análises agrupadas.

O estudo não prova que estatinas sejam inúteis, nem que todos devam usá-las. Ele mostra que, quando o desfecho avaliado é mortalidade por todas as causas dentro do tempo dos ensaios, o ganho médio de sobrevida foi pequeno. Essa forma de apresentar o efeito pode ajudar médicos e pacientes a discutirem benefícios, limitações, tolerância ao tratamento e contexto individual de risco.

Conclusão

As estatinas reduziram o risco relativo de morte nos ensaios analisados, mas o adiamento médio da morte durante o período dos estudos foi modesto. O achado reforça que decisões sobre estatinas devem considerar risco cardiovascular basal, prevenção primária ou secundária, efeitos adversos, expectativa de vida, preferências do paciente e os desfechos que realmente importam em cada caso.

Fonte: https://doi.org/10.1007/s11606-019-05024-4

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