Em 1885, a restrição de açúcar e amido já era descrita como a parte mais importante do tratamento do diabetes.
O registro aparece no capítulo “Diabetes Mellitus”, escrito pelo médico James Tyson para o segundo volume de A System of Practical Medicine, obra editada por William Pepper e Louis Starr. O texto mostra como a doença era compreendida e tratada décadas antes da descoberta da insulina.
A medicina daquele período ainda não separava claramente diabetes tipo 1, diabetes tipo 2 e outras formas da doença. O diagnóstico se apoiava principalmente na presença de glicose na urina, chamada de glicosúria, além de sintomas como sede intensa, aumento do volume urinário, perda de peso e fraqueza.
A alimentação era considerada o principal tratamento
Tyson dividia o tratamento em três partes: alimentação, medicamentos e cuidados gerais com o estilo de vida. Entre elas, a dieta era apresentada como a mais importante.
A recomendação central consistia em retirar alimentos que forneciam açúcar ou amido. Entravam nessa lista o açúcar comum, pães, bolos, farinhas, arroz, batatas, massas e outros alimentos ricos em carboidratos. Segundo as observações clínicas descritas no livro, esses alimentos aumentavam a eliminação de glicose pela urina.
Quando açúcares e amidos eram substituídos por alimentos ricos em proteína e gordura, a glicosúria frequentemente diminuía. O objetivo prático não era seguir uma teoria alimentar abstrata, mas observar se o açúcar desaparecia ou se reduzia na urina do paciente.
O autor também registrou que a urina da manhã costumava conter menos glicose do que a coletada mais tarde. Ansiedade e excitação emocional podiam aumentar a quantidade de açúcar eliminada. Essas observações mostram que, mesmo com recursos diagnósticos limitados, os médicos já percebiam variações da doença ao longo do dia e em resposta ao estresse.
O que aparecia no cardápio para diabetes
A lista de alimentos permitidos era extensa. Incluía carnes, aves, peixes, frutos do mar, ovos, bacon, queijos, manteiga, creme de leite e caldos preparados sem farinha. Também eram aceitos vegetais folhosos e com pouco amido, como espinafre, alface, couve-flor, aspargos, pepino, cogumelos e agrião.
Algumas frutas sem adição de açúcar, como morangos e cranberries, podiam ser usadas em casos considerados menos graves. Castanhas e amêndoas também apareciam entre as opções.
O livro recomendava evitar batatas, arroz, beterraba, cenoura, nabo, ervilha, feijão e outros vegetais que, segundo a classificação da época, continham quantidade relevante de açúcar ou amido. Doces, sobremesas com farinha, bebidas adoçadas e a maior parte das cervejas também eram excluídos.
Para substituir o pão de trigo, eram sugeridas preparações com glúten, farelo, farinha de amêndoas ou inulina. Entretanto, o próprio Tyson relatou que o pão de glúten ainda continha amido e podia fazer a glicose voltar à urina.
Esse detalhe mostra que a resposta do paciente era usada para testar se um produto anunciado como apropriado realmente funcionava. O rótulo ou a reputação do alimento importavam menos do que o efeito observado na glicosúria.
A controversa dieta de leite
Uma parte do tratamento defendia o uso de leite, inclusive leite desnatado, com base na ideia de que a lactose seria mais bem tolerada do que outros açúcares. Tyson relatou casos em que uma dieta à base de leite reduziu a glicosúria.
Essa recomendação deve ser entendida como um registro histórico, não como orientação atual. A lactose é um carboidrato e pode elevar a glicose. A resposta depende da quantidade consumida, do tipo de diabetes, dos medicamentos utilizados e das características individuais.
O mesmo cuidado vale para a autorização de vinhos secos e destilados. O texto permitia algumas bebidas alcoólicas porque continham pouco açúcar, mas reconhecia que o consumo excessivo podia fazer a glicosúria retornar. Atualmente, o uso de álcool precisa ser avaliado individualmente e não deve ser considerado parte necessária do tratamento.
Por que os casos em jovens pareciam mais graves
O capítulo observava que o diabetes surgido em pessoas jovens costumava progredir rapidamente, enquanto alguns adultos mais velhos podiam viver durante anos quando seguiam a dieta prescrita.
Hoje, essa diferença pode ser compreendida em parte pela ausência da classificação moderna. Muitos casos graves em crianças e adultos jovens provavelmente correspondiam ao diabetes tipo 1, no qual o organismo produz pouca ou nenhuma insulina.
Sem reposição de insulina, o diabetes tipo 1 é fatal. A insulina foi descoberta em 1921 e começou a transformar o tratamento nos anos seguintes. Pessoas com diabetes tipo 1 precisam de insulina diariamente para controlar a glicose e permanecer vivas.
Por isso, a melhora obtida com restrição alimentar não deve ser confundida com cura. No diabetes tipo 1, a alimentação não substitui a insulina.
No diabetes tipo 2, mudanças alimentares podem contribuir para o controle da glicose, mas precisam ser integradas ao acompanhamento clínico, à atividade física, ao monitoramento e, quando necessário, aos medicamentos. O tratamento atual deve considerar o tipo de diabetes, a condição metabólica e as necessidades de cada pessoa.
O que o documento histórico acertava e onde estava limitado
O texto de 1885 contém explicações incorretas ou incompletas sobre as causas do diabetes, a função do fígado, a participação do sistema nervoso, a distribuição da doença entre países e a utilização de determinados alimentos e bebidas.
O livro também reunia pacientes com doenças diferentes sob o mesmo diagnóstico. Uma pessoa com deficiência absoluta de insulina e outra com resistência à insulina podiam ser tratadas como portadoras da mesma condição, embora apresentassem causas e prognósticos muito distintos.
Mesmo assim, o documento registra uma observação clínica relevante: alimentos ricos em açúcar e amido podiam aumentar a glicosúria, enquanto sua retirada frequentemente reduzia esse sinal da doença.
Antes da insulina, esse controle dietético era uma das poucas ferramentas disponíveis para aliviar sintomas e tentar prolongar a vida. A restrição era especialmente rigorosa porque a medicina ainda não possuía medicamentos capazes de substituir o hormônio ausente.
A dieta não era apenas carne
Embora carnes, peixes, ovos e gorduras animais ocupassem grande parte do cardápio, Tyson não defendia uma alimentação exclusivamente carnívora para todos os pacientes.
O próprio autor considerava difícil manter uma dieta formada apenas por carne. Por isso, incluía vegetais com pouco amido, algumas frutas, castanhas, laticínios e substitutos especiais para o pão.
A intensidade da restrição variava conforme a quantidade de glicose encontrada na urina. Em casos considerados leves, havia maior tolerância a frutas e vegetais. Quando a glicosúria permanecia elevada, o cardápio se tornava mais restritivo.
Essa abordagem antecipava, de forma rudimentar, a ideia de ajustar a alimentação de acordo com a resposta metabólica. Entretanto, a medição era limitada à urina e não permitia acompanhar com precisão as variações da glicose no sangue.
Em resumo
A medicina de 1885 ainda desconhecia os diferentes tipos de diabetes e não dispunha de insulina, hemoglobina glicada ou monitorização contínua de glicose. Ainda assim, já reconhecia que a quantidade e o tipo de carboidrato consumido influenciavam diretamente a eliminação de glicose pela urina.
O tratamento alimentar retirava açúcar, farinhas, arroz, batatas, doces e outros alimentos ricos em amido. Em seu lugar, priorizava carnes, peixes, ovos, laticínios, gorduras, vegetais com pouco amido e algumas frutas sem açúcar adicionado.
O valor desse registro está na história da medicina. Ele mostra que a alimentação já era usada como intervenção metabólica muito antes dos tratamentos modernos. Ao mesmo tempo, suas recomendações não devem ser copiadas como protocolo atual, pois misturavam observações válidas com conceitos posteriormente corrigidos pela pesquisa.
Conclusão
O capítulo de James Tyson revela que a restrição de açúcar e amido ocupava posição central no tratamento do diabetes em 1885. Carnes, peixes, ovos, laticínios e vegetais com pouco amido formavam a base da dieta, enquanto pães, farinhas, arroz, batatas e doces eram retirados.
A principal lição histórica não é reproduzir literalmente aquele cardápio, mas reconhecer que o efeito dos carboidratos sobre a glicose já era observado na prática clínica. A medicina moderna acrescentou classificação, monitoramento, medicamentos e insulina, tornando o tratamento mais seguro e adequado a cada tipo de diabetes.
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