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Grupos alimentares e carcinoma de células renais: um estudo caso-controle da Itália

Capa do estudo sobre grupos alimentares e câncer renal, com destaque para pão, vegetais e carnes avaliados na pesquisa italiana

Câncer renal pode ter relação com alguns padrões alimentares, mas este estudo italiano não encontrou associação significativa com carne vermelha, ovos, peixe, queijo, frutas, batatas, doces ou açúcar. O sinal mais forte apareceu para pão, enquanto vegetais, aves e carne processada foram associados a menor risco de carcinoma de células renais.

O estudo Food groups and renal cell carcinoma: A case-control study from Italy, publicado no International Journal of Cancer, investigou a relação entre grupos alimentares e carcinoma de células renais, o principal tipo histológico de câncer de rim. A pesquisa incluiu 767 pacientes com carcinoma de células renais confirmado histologicamente e 1.534 controles hospitalares sem câncer, entrevistados em quatro áreas da Itália entre 1992 e 2004.

O que foi estudado

A pesquisa avaliou se o consumo de diferentes alimentos estava associado ao risco de carcinoma de células renais. Os autores analisaram grupos como leite e iogurte, café e chá, pão, massas e arroz, sopas, ovos, aves, carne vermelha, carne processada, peixe, queijo, leguminosas, vegetais, batatas, frutas, sobremesas e açúcares.

A alimentação foi avaliada por um questionário de frequência alimentar com 78 alimentos e bebidas, além de uma seção separada sobre bebidas alcoólicas. Os participantes relataram seus hábitos alimentares habituais nos dois anos anteriores ao diagnóstico de câncer ou à internação hospitalar, no caso dos controles.

Como o estudo foi feito

O desenho foi caso-controle, um tipo de estudo observacional. Isso significa que os pesquisadores compararam pessoas com a doença com pessoas sem a doença e observaram retrospectivamente diferenças nos hábitos alimentares.

Os casos eram pacientes com menos de 79 anos, com carcinoma de células renais incidente e confirmado por histologia. Os controles foram escolhidos nos mesmos hospitais, entre pessoas internadas por condições agudas não neoplásicas, como traumas, problemas ortopédicos, cirurgias e outras condições não relacionadas a mudanças alimentares prolongadas.

As análises foram ajustadas para fatores importantes que poderiam confundir os resultados, incluindo idade, sexo, centro de estudo, período da entrevista, escolaridade, tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal, histórico familiar de câncer renal e ingestão total de energia.

Principais resultados

O achado mais forte foi observado para o pão. Pessoas no maior quintil de consumo tiveram maior risco de carcinoma de células renais em comparação com aquelas no menor quintil. A razão de chances foi de 1,94, com intervalo de confiança de 95% entre 1,40 e 2,71, e tendência estatisticamente significativa.

Massas e arroz mostraram uma associação positiva mais modesta, com razão de chances de 1,29 no maior nível de consumo. Leite e iogurte também apresentaram uma elevação discreta, com razão de chances de 1,27. Esses dois resultados, porém, foram menos robustos do que o achado para pão.

Em direção oposta, o consumo de vegetais foi associado a menor risco. O grupo de maior consumo de todos os vegetais apresentou razão de chances de 0,65 em comparação com o menor consumo. Essa associação apareceu tanto para vegetais crus quanto cozidos.

Entre os alimentos de origem animal, o resultado não apoiou a ideia de que carne vermelha estivesse associada a maior risco neste conjunto de dados. Carne vermelha, ovos, peixe e queijo não tiveram relação significativa com carcinoma de células renais. Aves foram associadas a menor risco, com razão de chances de 0,74, e carne processada também apareceu inversamente associada, com razão de chances de 0,64.

Esse ponto exige cautela. Embora aves e carne processada tenham aparecido associadas a menor risco na análise, os próprios autores observaram que a relação entre carnes, proteínas e câncer renal ainda permanece incerta. Em estudos observacionais, uma associação inversa pode refletir características da população, mudanças dietéticas prévias, fatores clínicos ou vieses de informação, e não necessariamente um efeito protetor direto do alimento.

O que isso significa na prática

O estudo sugere que, nessa população italiana, uma dieta mais rica em cereais refinados, especialmente pão, pode ter tido papel desfavorável no risco de carcinoma de células renais. Os autores mencionam que uma possível explicação seria o alto índice glicêmico desses alimentos e sua relação potencial com vias metabólicas envolvendo insulina e fatores de crescimento semelhantes à insulina.

Ao mesmo tempo, o estudo não encontrou aumento de risco associado à carne vermelha. Isso é relevante porque discussões sobre câncer e dieta muitas vezes colocam carnes no centro do problema, mesmo quando os dados de um estudo específico não apontam nessa direção.

No caso deste artigo, o padrão observado foi outro: o sinal desfavorável mais evidente veio de pão e, de forma menos consistente, de massas e arroz. Já vegetais apareceram associados a menor risco. Aves e carne processada também tiveram associação inversa, mas essa leitura precisa ser feita com maior prudência.

Limitações do estudo

Por ser um estudo caso-controle, a pesquisa não pode provar causa e efeito. Ela mostra associações entre consumo alimentar relatado e risco de carcinoma de células renais, mas não demonstra que um alimento específico causou ou preveniu a doença.

Outra limitação é o uso de questionário alimentar retrospectivo. Mesmo com instrumento validado, existe possibilidade de erro de memória, estimativa imprecisa de porções e diferenças na forma como casos e controles relatam a alimentação anterior.

Além disso, os controles eram hospitalares. Essa estratégia tem vantagens, como entrevistar pessoas em condições semelhantes às dos casos, mas também pode limitar a generalização dos achados para a população geral.

Os resultados também refletem o contexto alimentar italiano entre 1992 e 2004. O padrão de consumo de pão, massas, carnes, vegetais e alimentos processados pode ser diferente em outros países e períodos históricos.

Em resumo

Este estudo caso-controle italiano encontrou maior risco de carcinoma de células renais associado ao maior consumo de pão. Massas e arroz mostraram uma elevação mais modesta. Vegetais foram associados a menor risco.

Carne vermelha, ovos, peixe, queijo, frutas, batatas, sobremesas e açúcares não mostraram associação significativa com câncer renal no conjunto dos dados avaliados. Aves e carne processada apareceram inversamente associadas, embora esse resultado deva ser interpretado com cautela.

Conclusão

A principal mensagem do estudo é que o risco de câncer renal não se distribuiu de forma uniforme entre os grupos alimentares. O achado mais consistente apontou para cereais refinados, especialmente pão, como possível marcador alimentar desfavorável. Já a carne vermelha não apareceu como fator de risco nesta análise.

O estudo não encerra a discussão sobre dieta e carcinoma de células renais, mas reforça a importância de analisar os dados específicos antes de atribuir risco a um alimento. Neste caso, a principal suspeita alimentar não foi a carne vermelha, mas o maior consumo de pão e, em menor grau, outros cereais refinados.

Fonte: https://doi.org/10.1002/ijc.22225

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