A margarina foi associada a maior incidência de doença coronariana em homens no estudo de Framingham, mas essa associação apareceu apenas na segunda metade do acompanhamento. O estudo não provou causalidade, porém levantou uma hipótese importante: margarinas ricas em gorduras trans industriais poderiam ter contribuído para maior risco cardiovascular.
O que foi estudado
O artigo “Margarine Intake and Subsequent Coronary Heart Disease in Men”, publicado em 1997 na revista Epidemiology, analisou a relação entre consumo de margarina e desenvolvimento posterior de doença coronariana em homens.
A pergunta central era simples: homens que consumiam mais margarina tinham maior risco de apresentar eventos coronarianos ao longo do tempo?
Essa pergunta fazia sentido no contexto histórico. A margarina era uma das principais fontes alimentares de ácidos graxos trans industriais. Essas gorduras eram formadas durante a hidrogenação de óleos vegetais, processo usado para tornar o produto mais firme, mais estável e mais parecido com uma gordura sólida.
Os autores destacaram que os ácidos graxos trans já haviam sido associados a alterações desfavoráveis em marcadores cardiovasculares, como aumento do LDL-colesterol, redução do HDL-colesterol, elevação da lipoproteína(a) e maior tendência à trombose. Esses mecanismos poderiam, em tese, favorecer o desenvolvimento de doença coronariana.
Como o estudo foi feito
O estudo usou dados do Framingham Study, uma das coortes cardiovasculares mais conhecidas da medicina. A análise incluiu 832 homens, com idade entre 45 e 64 anos, livres de doença coronariana no início do acompanhamento.
Entre 1966 e 1969, os participantes passaram por uma avaliação alimentar baseada em recordatório de 24 horas. A partir desse registro, os pesquisadores estimaram o consumo diário de margarina em colheres de chá.
Os homens foram acompanhados por 18 a 21 anos. Os eventos de doença coronariana incluíram angina, insuficiência coronariana, infarto do miocárdio e morte súbita cardíaca.
Ao longo do acompanhamento, ocorreram 267 novos casos de doença coronariana.
Principais resultados
O consumo médio de margarina foi de 1,8 colher de chá por dia, com variação de 0 a 12 colheres de chá por dia.
Quando os pesquisadores analisaram todo o período de acompanhamento, observaram que a incidência de doença coronariana aumentava conforme subia o consumo de margarina. Porém, o detalhe mais importante foi o tempo: a associação não apareceu nos primeiros 10 anos.
Nos primeiros 10 anos, cada aumento de 1 colher de chá de margarina por dia teve razão de risco de 0,98, com intervalo de confiança de 95% entre 0,91 e 1,05. Esse resultado não indica aumento claro de risco.
Já nos anos 11 a 21 de acompanhamento, cada aumento de 1 colher de chá de margarina por dia foi associado a uma razão de risco de 1,10, com intervalo de confiança de 95% entre 1,04 e 1,17. Após ajuste para vários fatores de risco cardiovascular, a razão de risco subiu para 1,12, com intervalo de confiança de 95% entre 1,05 e 1,20.
Na comparação por categorias, os homens no grupo de maior consumo, 5 ou mais colheres de chá por dia, tiveram razão de risco de 1,89 em comparação com os que não consumiam margarina, nos anos finais de acompanhamento. Isso equivale a uma associação de risco substancialmente maior, embora ainda observacional.
Outro achado relevante foi que o consumo de manteiga não previu a incidência de doença coronariana nessa análise. Esse ponto deve ser interpretado com cautela, porque o próprio estudo reconheceu limitações importantes na avaliação dietética.
O que isso significa na prática
O estudo sugere que o problema não estava simplesmente no fato de uma gordura ser sólida, calórica ou usada para passar no pão. O ponto central era a composição da margarina da época, especialmente o conteúdo de gorduras trans industriais.
Nos anos 1960, muitas margarinas eram produtos bastante diferentes das versões modernas. Segundo os autores, naquele período quase todas tinham pelo menos 80% de gordura, e muitas continham quantidades elevadas de ácidos graxos trans, em torno de 30%, refletidas inclusive pela sua maior dureza.
Essa observação é essencial para evitar uma leitura simplista. O estudo não avaliou as margarinas atuais, nem permite afirmar que todo produto vendido hoje com esse nome tenha o mesmo efeito. Ele avaliou o consumo de margarina em homens norte-americanos de meia-idade nas décadas de 1960 e 1970, em um contexto em que a presença de gorduras trans industriais era muito mais relevante.
Ainda assim, o estudo permanece importante porque ajuda a explicar por que a substituição automática de gorduras tradicionais por produtos industriais “mais modernos” nem sempre foi uma vitória para a saúde cardiovascular. Durante muito tempo, a margarina foi apresentada como alternativa preferível à manteiga, mas evidências como esta indicaram que a troca poderia ter introduzido outro problema metabólico: os ácidos graxos trans de origem industrial.
Limitações do estudo
A principal limitação foi a avaliação alimentar. O consumo de margarina foi estimado a partir de um único recordatório de 24 horas. Esse método não mede com precisão a dieta habitual de cada pessoa ao longo de décadas.
Outra limitação é que o banco de dados alimentar da época não tinha estimativas diretas de ácidos graxos trans. Portanto, os pesquisadores analisaram o consumo de margarina como marcador indireto de exposição às gorduras trans, mas não conseguiram medir exatamente quanto de gordura trans cada participante consumia.
Também é importante lembrar que se tratava de um estudo observacional de coorte. Esse tipo de estudo pode encontrar associações fortes e úteis, mas não consegue provar sozinho que a margarina causou os eventos coronarianos. Fatores residuais ou não medidos sempre podem influenciar os resultados.
Os próprios autores consideraram a possibilidade de acaso e confundimento, especialmente porque o aumento de risco apareceu apenas na segunda metade do acompanhamento. Ainda assim, os ajustes para idade, energia total, gordura total, gordura saturada, álcool, tabagismo, intolerância à glicose, hipertrofia ventricular esquerda, índice de massa corporal, atividade física, pressão arterial e colesterol não mudaram materialmente os resultados.
Em resumo
O estudo de Framingham encontrou uma associação entre maior consumo de margarina e maior risco de doença coronariana em homens, especialmente após mais de 10 anos de acompanhamento.
A manteiga não foi associada ao aumento de risco nesse estudo, mas os autores alertaram que esse achado não deve ser usado como prova de segurança absoluta da manteiga, devido à imprecisão da avaliação alimentar.
A interpretação mais consistente é que as margarinas antigas, ricas em gorduras trans industriais, podem ter sido um fator alimentar relevante para risco cardiovascular. O estudo também mostra a importância de avaliar alimentos reais em seu contexto histórico e tecnológico, não apenas categorias genéricas como “gordura vegetal” ou “gordura animal”.
Conclusão
A margarina analisada no estudo de Framingham não se comportou como uma escolha cardioprotetora. Entre homens acompanhados por até 21 anos, maior consumo de margarina foi associado a maior incidência de doença coronariana na segunda metade do acompanhamento.
A evidência não prova causalidade, mas é coerente com o conhecimento sobre gorduras trans industriais e risco cardiovascular. O estudo reforça uma lição simples: trocar alimentos tradicionais por produtos industriais só faz sentido quando a nova opção é comprovadamente melhor, não apenas quando parece mais moderna ou recebe um rótulo mais saudável.
