A margarina foi associada a maior risco de eczema e sensibilização alérgica em crianças de 2 anos no estudo LISA, enquanto a manteiga não apresentou associação estatisticamente significativa com esses desfechos.
O estudo, publicado em 2006 na revista Pediatric Allergy and Immunology, avaliou se o consumo predominante de margarina ou manteiga estava relacionado a eczema e sensibilização alérgica em crianças pequenas. A hipótese partia de uma mudança alimentar importante observada em países ocidentais: o aumento do consumo de óleos vegetais, margarina e ácidos graxos poli-insaturados ômega-6, especialmente o ácido linoleico.
O que foi estudado
O artigo analisou dados da coorte de nascimento LISA, conduzida na Alemanha, com crianças acompanhadas desde o nascimento até os 2 anos de idade.
Os pesquisadores queriam saber se o uso predominante de margarina ou manteiga estava associado a:
- eczema sintomático;
- eczema diagnosticado por médico;
- sensibilização alérgica medida por IgE específica;
- sensibilização a alérgenos alimentares ou inalantes.
A ideia biológica discutida pelos autores era que margarinas e óleos vegetais costumam conter mais ácido linoleico, um ácido graxo ômega-6. Em teoria, uma dieta mais rica em ômega-6 poderia favorecer a produção de mediadores inflamatórios derivados do ácido araquidônico, como a prostaglandina E2, que pode estimular a produção de IgE e se relacionar ao risco de doenças atópicas.
Como o estudo foi feito
Foram analisadas 2.582 crianças com informações completas sobre dieta e desfechos alérgicos aos 2 anos de idade. O consumo alimentar foi estimado por questionário de frequência alimentar preenchido pelos pais.
As crianças foram classificadas em três grupos:
- Grupo manteiga: consumo frequente de manteiga em casa, pouco consumo de margarina e uso de manteiga como pasta.
- Grupo margarina: consumo frequente de margarina em casa, pouco consumo de manteiga e uso de margarina como pasta.
- Grupo misto: crianças que consumiam combinações de manteiga e margarina.
O grupo misto foi usado como referência nas análises estatísticas.
Os autores ajustaram os resultados para vários fatores de confusão, incluindo cidade do estudo, sexo, idade materna, tabagismo materno na gravidez, escolaridade dos pais, amamentação exclusiva por pelo menos 4 meses, histórico familiar de doenças atópicas, consumo de frutas, consumo de salada e vegetais crus, presença de cachorro e presença de gato em casa.
Principais resultados
O consumo predominante de margarina foi associado a maior risco de alguns desfechos alérgicos aos 2 anos.
Em comparação com o grupo misto, o grupo da margarina apresentou:
- maior prevalência ao longo da vida de eczema sintomático: aOR 1,71; IC 95% 1,12–2,61;
- maior prevalência ao longo da vida de eczema diagnosticado por médico: aOR 2,10; IC 95% 1,36–3,25;
- maior sensibilização a alérgenos inalantes: aOR 2,10; IC 95% 1,01–4,41.
Em termos simples, crianças com consumo predominante de margarina tiveram maior chance estatística de apresentar eczema e sensibilização alérgica a inalantes.
A manteiga, por outro lado, não apresentou associação estatisticamente significativa com eczema ou sensibilização alérgica nos modelos principais. Isso não significa que a manteiga tenha sido “protetora” nesse estudo. Significa apenas que, nesta análise, ela não apareceu como preditora dos desfechos alérgicos avaliados.
O papel do histórico familiar
Um ponto importante do estudo foi a análise por histórico familiar de doenças atópicas, como asma, rinite alérgica e eczema.
Os resultados sugeriram que a associação entre margarina e desfechos alérgicos foi mais forte em crianças com pais atópicos. Entre crianças com histórico familiar positivo, o consumo predominante de margarina se associou a maior prevalência de eczema e maior sensibilização alérgica, especialmente contra alérgenos inalantes.
Esse achado sugere que a susceptibilidade individual pode modificar a resposta ao padrão alimentar. No entanto, os próprios autores alertaram que essas análises estratificadas devem ser interpretadas com cautela, pois os grupos ficam menores e a incerteza estatística aumenta.
O que isso significa na prática
O estudo não prova que a margarina cause eczema ou alergia. Ele mostra uma associação observacional: crianças que consumiam predominantemente margarina apresentaram maior frequência de alguns marcadores de doença alérgica.
Essa distinção é essencial. Em estudos observacionais, o alimento pode ser parte do problema, mas também pode funcionar apenas como marcador de um estilo de vida mais amplo.
No próprio estudo, o grupo da margarina apresentava diferenças sociais e comportamentais em relação ao grupo da manteiga. Por exemplo, o consumo de margarina foi mais frequente em famílias com menor escolaridade, maior tabagismo materno durante a gestação e menor consumo diário de salada e vegetais crus. Esses fatores podem influenciar risco alérgico e saúde infantil de várias maneiras.
Ainda assim, o resultado é relevante porque se encaixa em uma discussão maior: a substituição de gorduras animais tradicionais por óleos vegetais e margarinas não deve ser automaticamente tratada como uma troca neutra ou superior. Em crianças pequenas, especialmente com histórico familiar de atopia, o padrão de gordura da dieta pode merecer atenção.
Limitações do estudo
As limitações são importantes.
Primeiro, a dieta foi avaliada por questionário preenchido pelos pais, o que pode gerar erro de memória ou classificação imprecisa.
Segundo, os pesquisadores não mediram com precisão a ingestão total de ômega-6, nem a composição exata das margarinas consumidas. Portanto, o estudo não consegue demonstrar que o ácido linoleico foi o responsável pela associação.
Terceiro, existe possibilidade de causalidade reversa. Crianças com eczema ou suspeita de alergia alimentar poderiam ter recebido margarina sem leite no lugar da manteiga justamente por já apresentarem sintomas. Nesse caso, a margarina poderia aparecer associada ao eczema não por causar o problema, mas por ter sido escolhida depois do início dele.
Quarto, o consumo avaliado ocorreu entre aproximadamente 18 e 24 meses, enquanto parte dos casos de eczema já poderia ter surgido no primeiro ano de vida. Isso dificulta estabelecer uma sequência temporal clara entre exposição e desfecho.
Por fim, os autores reconheceram que a margarina também pode ser um indicador de outros fatores de estilo de vida não totalmente capturados na análise.
Em resumo
O estudo LISA encontrou associação entre consumo predominante de margarina e maior risco de eczema e sensibilização alérgica em crianças de 2 anos. A manteiga não foi associada a maior risco nos modelos principais.
A leitura mais correta não é afirmar que “margarina causa alergia”, mas sim que, nesta coorte alemã, a margarina apareceu como marcador de maior risco alérgico, enquanto a manteiga não apresentou o mesmo padrão.
O estudo reforça a necessidade de avaliar com mais cuidado a substituição de gorduras tradicionais por produtos industriais ricos em óleos vegetais, especialmente em fases precoces da vida e em crianças com predisposição familiar para doenças alérgicas.
Conclusão
A evidência apresentada sugere que o consumo predominante de margarina esteve associado a eczema e sensibilização alérgica em crianças pequenas, mas não permite concluir causalidade. A manteiga não se associou a maior risco no estudo.
O resultado é mais uma peça no debate sobre qualidade das gorduras alimentares na infância. Ele não encerra a questão, mas enfraquece a ideia simplista de que trocar manteiga por margarina seja automaticamente uma escolha mais saudável para todos os contextos.
