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Ingestão de carne e gordura e risco de câncer pancreático no estudo de coorte da Holanda


O consumo de carne e gordura não foi associado a maior risco de câncer de pâncreas neste grande estudo prospectivo holandês. A análise acompanhou mais de 120 mil adultos por 13,3 anos e não encontrou associação clara entre câncer de pâncreas e ingestão de carne fresca, carne processada, peixe, ovos, gordura total, gordura saturada, gordura poli-insaturada, colesterol ou ácido linoleico.

O que foi estudado

O estudo “Meat and fat intake and pancreatic cancer risk in the Netherlands Cohort Study”, publicado em 2009 no International Journal of Cancer, avaliou se diferentes alimentos de origem animal e tipos de gordura dietética estariam relacionados ao risco de câncer de pâncreas.

A hipótese fazia sentido do ponto de vista biológico. Carnes podem conter ou formar compostos como aminas heterocíclicas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e compostos N-nitrosos, especialmente dependendo do processamento e do método de preparo. Além disso, estudos em animais haviam sugerido que dietas ricas em gordura e, em especial, em ácidos graxos poli-insaturados como o ácido linoleico, poderiam aumentar o risco de tumores pancreáticos.

A pergunta central era simples: em humanos acompanhados ao longo do tempo, maior ingestão de carne, ovos ou gordura realmente aparece associada a maior risco de câncer de pâncreas?

Como o estudo foi feito

A pesquisa usou dados do Netherlands Cohort Study, uma coorte iniciada em 1986 com 120.852 homens e mulheres de 55 a 69 anos. Os participantes preencheram um questionário detalhado sobre dieta, estilo de vida, histórico médico e outros fatores de risco.

A dieta foi avaliada por um questionário de frequência alimentar com 150 itens. Os pesquisadores estimaram o consumo de carne fresca, carne vermelha fresca, carne bovina, carne suína, carne moída, frango, fígado, carne processada, peixe, ovos, gordura total, gordura vegetal, gordura da carne, gordura saturada, gordura monoinsaturada, gordura poli-insaturada, colesterol, gordura trans, ácido linoleico, ácido linolênico, EPA e DHA.

Após 13,3 anos de acompanhamento, 350 casos de câncer pancreático exócrino foram incluídos nas análises principais. Desses, 234 tinham confirmação microscópica, o que aumentou a segurança diagnóstica em uma análise adicional.

Os modelos estatísticos foram ajustados para fatores importantes, incluindo idade, sexo, ingestão energética, tabagismo, álcool, índice de massa corporal, histórico de diabetes, hipertensão, consumo de vegetais e consumo de frutas.

Principais resultados

O principal achado foi negativo: o estudo não encontrou associação entre maior ingestão de carne fresca total e câncer de pâncreas. O mesmo ocorreu para carne bovina, carne suína, carne moída, fígado, frango, carne processada, peixe e ovos.

A carne processada também não foi associada a maior risco. Isso é relevante porque compostos N-nitrosos podem estar presentes ou ser formados a partir de alimentos preservados com nitrito. Mesmo assim, nesta coorte, nem a carne processada nem a ingestão de nitrito mostraram associação com câncer pancreático.

A ingestão de gordura total também não foi associada ao risco. O mesmo padrão apareceu para gordura vegetal, gordura saturada, gordura monoinsaturada, gordura poli-insaturada, colesterol, gordura trans, ácido linoleico, ácido linolênico, EPA e DHA.

Um achado secundário chamou atenção: entre os casos com confirmação microscópica, o maior quintil de carne vermelha fresca apareceu associado a menor risco em comparação ao menor quintil. Porém, os próprios autores pediram cautela. Esse resultado não apareceu com a mesma força no conjunto total de casos, a interação com o tempo não foi estatisticamente significativa e havia múltiplas comparações. Portanto, esse achado não deve ser interpretado como prova de efeito protetor da carne vermelha.

Também foi observada uma menor estimativa de risco para gordura proveniente da carne em algumas análises, mas os autores consideraram provável que isso estivesse relacionado à correlação com a ingestão de carne vermelha, não necessariamente a um efeito independente da gordura da carne.

O que isso significa na prática

Este estudo não sustenta a ideia de que comer mais carne, ovos ou gordura, por si só, aumente o risco de câncer de pâncreas. A conclusão vale especialmente para o padrão alimentar avaliado nessa população holandesa de adultos mais velhos, com consumo alimentar medido no início do acompanhamento.

O resultado também ajuda a separar hipótese biológica de evidência epidemiológica. É possível imaginar mecanismos pelos quais certos compostos formados no preparo da carne poderiam ter efeito cancerígeno. No entanto, quando os pesquisadores avaliaram a ingestão habitual de carne e gordura nessa grande coorte, a associação esperada não apareceu.

Isso não significa que todos os modos de preparo sejam equivalentes. O próprio estudo reconhece que não avaliou métodos de cozimento, como grelhar, fritar, assar em alta temperatura ou churrasquear. Esse ponto é importante porque parte dos compostos potencialmente problemáticos depende mais da temperatura, da queima e do contato com fumaça do que da carne em si.

Portanto, a leitura mais fiel é: neste estudo, carne e gordura não foram associadas ao aumento do risco de câncer de pâncreas, mas o estudo não conseguiu responder de forma adequada se carnes muito queimadas, grelhadas em alta temperatura ou preparadas com fumaça intensa poderiam ter relação diferente.

Limitações do estudo

A principal limitação foi o uso de uma única medida alimentar no início do estudo. Embora o questionário tenha sido validado e os autores indiquem boa capacidade de classificar os participantes segundo o consumo de carne e gordura, a dieta pode mudar ao longo dos anos.

Outra limitação importante foi a ausência de dados sobre método de preparo da carne. Sem essa informação, não é possível distinguir carne cozida lentamente de carne carbonizada em alta temperatura, embora esses contextos possam gerar exposições químicas muito diferentes.

Também é preciso lembrar que estudos observacionais não provam causa e efeito. Eles identificam associações, ou ausência de associações detectáveis, dentro das condições avaliadas. Mesmo com ajustes estatísticos, sempre pode haver erro de medição alimentar, fatores residuais de confusão ou limitações próprias do desenho do estudo.

Em resumo

O Estudo de Coorte dos Países Baixos acompanhou 120.852 adultos por 13,3 anos e avaliou 350 casos de câncer de pâncreas. A análise não encontrou associação entre câncer pancreático e consumo de carne fresca, carne vermelha, carne bovina, carne suína, frango, carne processada, peixe, ovos, gordura total, gordura saturada, gordura poli-insaturada, colesterol ou ácido linoleico.

O achado mais importante não foi que carne “protege” contra câncer, mas que a hipótese de aumento de risco por maior ingestão de carne e gordura não foi confirmada nessa coorte. A questão dos métodos de preparo permaneceu em aberto.

Conclusão

Este estudo prospectivo não encontrou evidência de que maior consumo de carne, ovos ou gordura dietética esteja associado a maior risco de câncer de pâncreas. A conclusão mais prudente é que, nesse conjunto de dados, a ingestão habitual desses alimentos não explicou o risco observado da doença.

A lacuna principal permanece no preparo da carne. Estudos futuros precisariam diferenciar carne cozida, assada, frita, grelhada, defumada ou carbonizada para avaliar melhor se o risco, quando existe, está mais ligado ao alimento em si ou aos compostos formados durante o preparo em alta temperatura.

Fonte: https://doi.org/10.1002/ijc.24387

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