Reduzir açúcar pode provocar sintomas parecidos com abstinência, sugere estudo


A ideia de que algumas pessoas têm dificuldade real para reduzir açúcar não é nova. O que faltava era observar esse processo em tempo quase real, em vez de depender apenas de lembranças posteriores. Foi isso que este estudo tentou fazer. Os pesquisadores acompanharam 203 adultos da Nova Zelândia que aceitaram parar de consumir açúcares livres por 14 dias. Antes disso, avaliaram consumo habitual de açúcar, índice de massa corporal, desejo por comida, autoeficácia e sofrimento psicológico. Depois, durante duas semanas, os participantes recebiam cinco questionários por dia no celular para relatar consumo de açúcar e sintomas semelhantes aos usados no DSM-5 para transtornos por uso de substâncias, como fissura, perda de controle, tolerância, abstinência, prejuízo social e uso apesar de problemas.

O termo açúcares livres incluía açúcares adicionados a alimentos e bebidas e também os açúcares presentes em mel, xaropes, sucos de fruta e concentrados de suco. O pano de fundo do estudo é conhecido: a ingestão excessiva de açúcar está associada a disfunção metabólica, obesidade, doença cardiovascular e problemas de saúde bucal, e a própria introdução do artigo lembra que a recomendação da Organização Mundial da Saúde é manter esse consumo abaixo de 10% da energia diária.

O que os pesquisadores encontraram

Os resultados mostram que a redução do açúcar pode vir acompanhada de sintomas relevantes em parte das pessoas. Quase um terço dos participantes, 31%, conseguiu permanecer sem açúcar durante todo o acompanhamento. Ainda assim, quando houve consumo, ele apareceu em 9% das avaliações, com pico no período da noite, especialmente na forma de lanches, sobremesas e produtos assados.

Os sintomas mais frequentes foram fissura, preocupação constante com açúcar e dificuldade de se manter abstinente. Entre os sinais classificados como abstinência, os mais relatados foram baixa energia, dores no corpo e humor mais baixo. Em outras palavras: não foi só “vontade de um docinho”. Para uma parte dos participantes, a tentativa de cortar açúcar veio acompanhada de desconforto físico e mental mensurável.

Quando os pesquisadores analisaram a evolução ao longo dos 14 dias, apareceram duas trajetórias principais. Um grupo teve baixa carga de sintomas e outro apresentou alta carga de sintomas, com proporções estimadas de 47% e 53%, respectivamente. No grupo de baixa carga, quase metade conseguiu ficar sem açúcar durante todo o período. No grupo de alta carga, essa abstinência contínua foi muito menos comum, em torno de 14%. O gráfico da página 5 mostra bem essa separação: uma curva permanece baixa e tende a cair, enquanto a outra se mantém mais alta durante quase todo o acompanhamento.

O grupo com maior carga de sintomas também teve mais episódios de fissura ao longo do estudo. Além disso, vários fatores avaliados antes do início do monitoramento se associaram a maior chance de pertencer a esse grupo: maior consumo prévio de açúcar, maior índice de massa corporal, mais fissura, mais ansiedade, mais estresse, menor autoeficácia e presença de “dependência” segundo a escala YFAS adaptada para açúcar. Esta última associação foi particularmente forte: quem preenchia esse critério teve cerca de três vezes mais chance de cair no grupo de alta carga de sintomas.

O que isso significa na prática

O estudo dá suporte à ideia de que algumas pessoas realmente passam por um processo difícil ao tentar reduzir açúcar. Isso não prova, por si só, que açúcar deva ser tratado como uma substância aditiva nos mesmos moldes de álcool, nicotina ou outras drogas. Mas também não permite tratar o tema como mera falta de disciplina, como se tudo fosse apenas “questão de querer”. Os dados mostram que, para uma parte dos participantes, houve um padrão consistente de fissura, desconforto e dificuldade de controle durante a tentativa de interrupção.

Esse ponto é importante porque o debate sobre açúcar costuma oscilar entre dois exageros: de um lado, a banalização total; de outro, a conclusão apressada de que tudo já está resolvido. O próprio artigo adota uma posição mais cuidadosa. Os autores afirmam que os achados indicam a presença de sintomas semelhantes aos de transtornos por uso de substâncias durante tentativas de reduzir ou interromper o açúcar, mas deixam claro que ainda não há evidência suficiente para classificar esse padrão como um transtorno mental estabelecido.

O que o estudo não prova

Primeiro, o acompanhamento durou apenas 14 dias. Isso ajuda a capturar sintomas iniciais, especialmente aqueles parecidos com abstinência, mas não permite saber com segurança se esses sintomas persistem, desaparecem, recaem ou geram prejuízo funcional duradouro. Segundo, não houve um período de observação antes da interrupção para comparar, em tempo real, como a pessoa estava antes de parar o açúcar. Terceiro, a amostra foi autoselecionada, majoritariamente feminina e recrutada por anúncios direcionados a pessoas interessadas em saber se açúcar era viciante. Isso pode introduzir viés de expectativa. Quarto, parte das medidas foi baseada em autorrelato, e um dos itens usados para “grande quantidade de tempo” incluía simplesmente pensar em açúcar, algo que os autores reconhecem que pode ter superestimado esse sintoma.

Além disso, o próprio estudo admite que outros fatores podem contribuir para sintomas como fissura, preocupação, excesso de consumo e sensação de perda de controle, incluindo hormônios, apetite, regulação emocional, índice de massa corporal e resposta ao sabor doce. Ou seja, o fenômeno pode ser real sem que a explicação seja única ou simples. Infelizmente, o corpo humano não costuma colaborar com soluções simplistas.

Conclusão

No conjunto, este trabalho oferece uma evidência nova e metodologicamente interessante de que reduzir açúcar pode desencadear sintomas relevantes em parte das pessoas, especialmente fissura, dificuldade de controle e sinais parecidos com abstinência. Também mostra que esses sintomas não aparecem com a mesma intensidade em todos: existe um grupo que quase não sofre com a redução e outro que passa por um processo claramente mais difícil.

Ao mesmo tempo, o estudo não autoriza concluir que o açúcar já deva ser formalmente tratado como uma substância aditiva nos critérios psiquiátricos tradicionais. O que ele mostra é algo mais específico e mais útil: quando algumas pessoas tentam cortar açúcar, os sintomas relatados se parecem, em parte, com os observados em modelos de dependência. Esse achado merece ser levado a sério, mas ainda precisa de estudos mais longos, com linha de base antes da interrupção, medidas objetivas de consumo e avaliação de prejuízo clínico ao longo do tempo.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.appet.2026.108549

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