Um relato de caso publicado no CMAJ descreveu a história de um homem de 61 anos que chegou ao pronto-socorro com dor abdominal intensa, náuseas e vômitos. Ele estava com sinais vitais normais e sem alterações neurológicas, mas apresentava dor no abdome superior, principalmente na região epigástrica. Seu peso era de 141,5 kg, com índice de massa corporal de 43,7, valor compatível com obesidade grave.
O histórico médico era relevante. O paciente tinha diabetes tipo 2, hipotireoidismo, obesidade e dislipidemia. Também havia histórico familiar de síndrome coronariana aguda precoce em um irmão e hipercolesterolemia em uma filha. Ele havia usado atorvastatina no passado, mas interrompeu por uma intolerância que não soube detalhar. No momento da internação, seu único medicamento era levotiroxina.
Dois anos antes, após o diagnóstico de diabetes, ele havia iniciado mudanças alimentares importantes. Primeiro adotou uma dieta cetogênica com baixo teor de carboidratos. Depois, passou para uma dieta carnívora rica em gordura, composta exclusivamente por carne, aves, ovos e laticínios, com exclusão de vegetais, frutas e grãos. Nesse período, relatou perda de 40 kg.
Esse detalhe é importante porque mostra que a dieta esteve associada a um desfecho aparentemente positivo: grande perda de peso. No entanto, a perda de peso não significou controle metabólico global. Durante esse mesmo período, ele não monitorava a glicose e não usava medicação para diabetes.
O que os exames mostraram
Na chegada ao hospital, os exames revelaram um quadro grave. A lipase sérica estava acima de 3000 U/L, valor muito elevado e compatível com pancreatite aguda. Os triglicerídeos estavam acima de 50 mmol/L, um nível extremamente alto. O sangue do paciente estava lipêmico, ou seja, com aspecto turvo e gorduroso, a ponto de impedir a análise adequada do restante do painel lipídico.
A glicose também estava elevada, em 17,3 mmol/L, e a hemoglobina glicada era de 7,9%, sugerindo controle inadequado do diabetes. O hormônio estimulante da tireoide estava elevado e o T4 livre estava baixo, indicando hipotireoidismo não controlado adequadamente. A ultrassonografia abdominal mostrou pancreatite intersticial aguda, aumento do fígado e esteatose hepática grave.
O paciente não chegou ao hospital apenas com “um problema de dieta”. Ele chegou com uma combinação de fatores: diabetes descompensado, hipotireoidismo descompensado, obesidade, esteatose hepática grave e triglicerídeos em nível muito perigoso.
Qual era a composição da dieta carnívora
O artigo não detalha a dieta com precisão nutricional. Ele não informa calorias totais, quantidade de gordura, quantidade de proteína, tipos de carne, volume de laticínios, uso de manteiga, creme de leite, queijos, nata, embutidos ou gordura adicionada.
O que o relato informa é que a dieta era composta por carne, aves, ovos e laticínios, sem vegetais, frutas ou grãos. Também informa que se tratava de uma dieta carnívora rica em gordura. Na discussão, os autores interpretam essa dieta como rica em gordura saturada animal.
Isso faz diferença. “Dieta carnívora” pode significar padrões muito diferentes na prática. Algumas pessoas comem basicamente carne e água. Outras incluem ovos. Outras usam grandes quantidades de queijo, manteiga, creme de leite e cortes muito gordos. Algumas fazem uma versão mais proteica. Outras fazem uma versão muito hiperlipídica.
No caso descrito, o que se sabe é que a dieta incluía laticínios e foi classificada como rica em gordura. Portanto, o relato não permite afirmar que qualquer versão de dieta carnívora produziria o mesmo resultado. Ele descreve uma versão específica, em uma pessoa específica, com várias comorbidades importantes.
A dieta carnívora foi a causa da pancreatite?
A resposta mais correta é: não é possível dizer que foi a causa única, mas é plausível que tenha contribuído para agravar ou precipitar o quadro.
Os autores consideraram que o paciente provavelmente tinha quilomicronemia multifatorial. Esse termo descreve uma situação em que há acúmulo importante de partículas ricas em triglicerídeos, especialmente quilomícrons e VLDL, geralmente por combinação de predisposição genética e fatores adquiridos.
No caso, os fatores adquiridos eram claros: diabetes mal controlado, resistência à insulina, hipotireoidismo descompensado e dieta muito rica em gordura. O painel genético não encontrou variante patogênica conhecida para hipertrigliceridemia, mas isso não exclui predisposição poligênica ou multifatorial.
A própria discussão do artigo reconhece que a evidência sobre dietas muito baixas em carboidratos, como cetogênica e carnívora, e triglicerídeos é mista. Muitos estudos mostram redução dos triglicerídeos, enquanto algumas coortes e relatos de caso mostram piora. A resposta pode depender de déficit calórico, proporção de gordura saturada e gordura trans, ingestão de proteína e carboidrato, etnia e variação genética.
Portanto, o caso não mostra que “dieta carnívora causa pancreatite” de modo geral. Ele mostra algo mais específico: em uma pessoa metabolicamente vulnerável, uma dieta carnívora rica em gordura pode ter sido um fator agravante importante para hipertrigliceridemia extrema e pancreatite aguda.
Por que triglicerídeos tão altos são perigosos
Triglicerídeos são gorduras transportadas no sangue por partículas chamadas lipoproteínas. Quando estão levemente elevados, geralmente fazem parte de um quadro metabólico mais amplo, muitas vezes associado a resistência à insulina, diabetes, obesidade, esteatose hepática, consumo excessivo de calorias, álcool ou carboidratos refinados.
Quando estão extremamente elevados, o problema muda de escala. Valores acima de 10 mmol/L já são considerados hipertrigliceridemia grave. No caso descrito, o paciente estava acima de 50 mmol/L. Nesse nível, há risco de pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas que pode variar de um quadro autolimitado a uma condição potencialmente grave.
A gordura da dieta é transportada inicialmente em quilomícrons. Em pessoas com dificuldade de metabolizar essas partículas, uma dieta muito rica em gordura pode aumentar ainda mais essa carga. Quando isso ocorre em alguém com diabetes descompensado e hipotireoidismo, o metabolismo dos lipídios pode ficar ainda mais prejudicado.
Esse é o ponto central do caso: a dieta não agiu em um organismo metabolicamente neutro. Ela entrou em um cenário já vulnerável.
O tratamento e a melhora posterior
No hospital, o paciente foi colocado em jejum e recebeu infusão de insulina, com controle da glicose. Após 72 horas sem alimentação oral, os triglicerídeos caíram para 9,59 mmol/L. Depois, foi introduzida uma dieta líquida clara, que progrediu para uma dieta diabética com baixo teor de gordura.
Na alta, ele recebeu insulina glargina, fenofibrato, suplemento de ômega-3, metformina e aumento da dose de levotiroxina. No mês seguinte, também introduziu carboidratos complexos de origem vegetal, fibras e vegetais. Nesse período, perdeu mais 11 kg, e os triglicerídeos caíram para 4,86 mmol/L.
Aqui também é necessário cuidado na interpretação. Não é correto dizer que a melhora ocorreu apenas porque ele voltou a comer vegetais ou fibras. A queda dos triglicerídeos aconteceu junto com várias intervenções ao mesmo tempo: jejum hospitalar, insulina, fenofibrato, ômega-3, metformina, ajuste do hipotireoidismo, dieta com baixo teor de gordura e perda de peso adicional.
O relato mostra melhora após uma abordagem clínica ampla. Ele não isola um único fator responsável pela melhora.
O que é possível inferir sobre a dieta ao longo do histórico
O impacto da dieta carnívora na saúde desse paciente parece ter sido ambíguo.
Por um lado, ele perdeu 40 kg em dois anos após iniciar mudanças alimentares, começando com dieta cetogênica e depois seguindo uma dieta carnívora rica em gordura. A perda de peso é um dado relevante e não deve ser ignorada.
Por outro lado, no momento da internação, seu estado metabólico era preocupante. Ele tinha diabetes mal controlado, hipotireoidismo não controlado, esteatose hepática grave, triglicerídeos extremos e pancreatite aguda. Isso mostra que perda de peso, isoladamente, não garante segurança metabólica.
O caso sugere que a dieta carnívora rica em gordura pode ter contribuído para o agravamento da hipertrigliceridemia em um paciente com múltiplos fatores de risco. Mas não permite afirmar que a dieta, sozinha, causou todos os problemas. Também não permite concluir que o mesmo ocorreria em todos os indivíduos.
A inferência mais fiel é que aquele paciente tinha um terreno metabólico vulnerável. Nesse terreno, uma dieta carnívora rica em gordura, sem acompanhamento adequado e sem monitoramento laboratorial, pode ter ajudado a transformar uma predisposição em um evento clínico grave.
A mensagem prática do caso
A principal mensagem prática não é demonizar a dieta carnívora nem tratá-la como isenta de riscos. O ponto mais útil é reconhecer que dietas muito restritivas, especialmente quando ricas em gordura, exigem contexto, monitoramento e acompanhamento profissional.
Para uma pessoa saudável, sem alterações metabólicas conhecidas, a resposta a uma dieta muito baixa em carboidratos pode ser uma. Para alguém com diabetes tipo 2, obesidade, hipotireoidismo, esteatose hepática, dislipidemia, histórico familiar de doença cardiovascular ou triglicerídeos elevados, o cenário é outro.
Nesses casos, o acompanhamento profissional não serve apenas para “autorizar” ou “proibir” uma dieta. Ele serve para ajustar o processo, acompanhar exames, identificar sinais precoces de risco, corrigir fatores como glicose e tireoide, avaliar triglicerídeos, função hepática, função renal, medicações em uso e evolução clínica real.
O caso também mostra que emagrecer não basta. A saúde metabólica precisa ser acompanhada por marcadores objetivos. Uma pessoa pode perder peso e, ainda assim, manter diabetes descompensado, hipotireoidismo mal controlado ou triglicerídeos perigosamente elevados.
A lição mais equilibrada é esta: em pessoas com comorbidades, a dieta deve ser tratada como intervenção clínica relevante, não como experimento solitário. O acompanhamento adequado pode ajudar a preservar os benefícios desejados, como perda de peso e melhora glicêmica, enquanto reduz o risco de complicações evitáveis.
