Diretrizes dietéticas para gestantes e lactantes, níveis de adesão e fatores associados: uma revisão de escopo


O artigo de Rahmannia e colaboradores, publicado na revista Nutrition Research Reviews, analisou diretrizes alimentares para gestantes e lactantes de vários países e o quanto essas orientações são seguidas na prática. Dentro desse conjunto de recomendações, os alimentos de origem animal aparecem de forma recorrente como parte importante da dieta nesses períodos.

De modo geral, as diretrizes baseadas em alimentos (FBDG) descrevem grupos como:

  • alimentos ricos em proteína, onde entram carnes, peixes, ovos e, em alguns casos, leguminosas;
  • leite e derivados, com porções específicas para gestantes e lactantes.

Esses alimentos são apresentados como fontes relevantes de proteína e de micronutrientes importantes na gestação e lactação, apesar de o artigo não detalhar nutriente por nutriente em todos os países. Em vários guias, há recomendações explícitas para:

  • incluir carnes e outras fontes proteicas regularmente;
  • manter consumo adequado de laticínios (por exemplo, em torno de 2 a 3 porções ao dia em alguns países);
  • consumir peixes e frutos do mar em frequência mínima semanal, ao mesmo tempo em que se limita o contato com espécies de alto teor de mercúrio.

Assim, mesmo em guias que também valorizam frutas, vegetais e grãos, os alimentos de origem animal ocupam lugar central na estrutura das recomendações.

Cuidados de segurança com alimentos de origem animal

Além de indicar o consumo desses alimentos, as diretrizes analisadas também enfatizam cuidados de segurança alimentar. O artigo destaca que vários países orientam gestantes a:

  • evitar carnes cruas;
  • evitar ovos crus ou preparações em que o ovo não esteja totalmente cozido;
  • não consumir leite não pasteurizado e derivados feitos a partir dele;
  • ter cautela com produtos de origem animal prontos para consumo, mantidos refrigerados por longos períodos, para reduzir o risco de infecções como Listeria.

No caso dos peixes, as diretrizes geralmente combinam dois pontos:

  1. incentivo ao consumo regular de frutos do mar;
  2. restrição a espécies com maior contaminação por mercúrio.

Esse equilíbrio procura aproveitar os benefícios nutricionais do peixe, minimizando riscos.

O que as gestantes e lactantes realmente consomem?

A revisão mostra que, na prática, a adesão às recomendações sobre alimentos de origem animal é irregular e, muitas vezes, insuficiente.

Laticínios

  • Diversos estudos incluídos na revisão avaliaram o consumo de leite e derivados. Em resumo:
  • a adesão às porções recomendadas é, em geral, moderada, frequentemente próxima a metade das mulheres avaliadas;
  • o consumo médio costuma ficar abaixo do número de porções indicado nas diretrizes nacionais.

Isso indica que, mesmo em países de alta renda, onde o acesso a laticínios costuma ser amplo, muitas gestantes não atingem o patamar recomendado.

Carnes, ovos e outras fontes proteicas

Quando se olha para o grupo de alimentos considerados “proteicos” (carnes, ovos, peixes e, em alguns casos, leguminosas), os resultados variam bastante entre países:

  • em alguns contextos, a adesão alcança 30–80% das mulheres;
  • em outros, fica na faixa de 10–30%, mostrando que uma parte considerável das gestantes não atinge o padrão sugerido no guia alimentar do próprio país.

O artigo não detalha separadamente o consumo de ovos em todos os estudos, mas esses alimentos aparecem incluídos no grupo das fontes proteicas de origem animal em várias diretrizes.

Peixes e frutos do mar

O padrão mais consistente encontrado na revisão é o baixo consumo de peixes:

  • na maioria dos estudos, o consumo fica abaixo da frequência recomendada;
  • em alguns países, uma parcela pequena das gestantes atinge as metas de porções de peixe e frutos do mar.

Enquanto muitos guias estimulam o consumo de peixe, principalmente em função de seu valor nutricional, a prática mostra que esse grupo de alimentos é subconsumido com frequência durante a gestação.

Fatores que podem influenciar o consumo de alimentos de origem animal

Os fatores associados à adesão às diretrizes em geral, descritos na revisão, provavelmente afetam também o consumo de alimentos de origem animal (esta relação é uma inferência, pois o artigo analisa adesão global, não grupo a grupo em todos os casos).

De forma resumida, os estudos observacionais relatam que:

  • maior idade, mais escolaridade, melhor condição socioeconômica e emprego tendem a se associar a maior adesão ao padrão recomendado;
  • tabagismo, uso de álcool, IMC elevado e situações de vulnerabilidade social se relacionam com menor adesão.

Como carnes, peixes e laticínios muitas vezes têm custo mais elevado do que alimentos ultraprocessados ricos em açúcar e gordura vegetal, é plausível supor que limitações econômicas contribuam para o consumo abaixo do ideal desses alimentos. Essa interpretação, entretanto, é uma extrapolação lógica e não é explorada em detalhes no artigo.

Relação entre adesão às diretrizes e saúde da mãe e do bebê

A revisão descreve associações entre melhor adesão global às diretrizes e alguns desfechos favoráveis na gestação e na infância, como:

  • menor risco de hipertensão gestacional e outros transtornos hipertensivos;
  • menor risco de diabetes gestacional em alguns contextos;
  • menor ocorrência de hemorragia pós-parto que exige transfusão;
  • melhor neurodesenvolvimento infantil em determinados estudos;
  • marcadores metabólicos mais favoráveis em crianças (por exemplo, glicose e insulina) em uma coorte norte-americana.

É importante destacar que esses resultados se referem ao padrão alimentar como um todo. O artigo não atribui o efeito isoladamente às carnes, aos laticínios ou aos peixes, mas, como esses alimentos compõem parte central das diretrizes, é razoável entender que eles participam da construção desse padrão mais adequado.

Pontos principais

A partir da revisão, é possível sintetizar os seguintes pontos:

  1. Carnes, peixes, ovos e laticínios aparecem de forma consistente nas diretrizes para gestantes e lactantes como fontes importantes de proteína e micronutrientes.
  2. Ao mesmo tempo, há forte ênfase em segurança alimentar, com orientações para evitar alimentos de origem animal crus, mal cozidos ou não pasteurizados.
  3. Na prática, muitas gestantes e, em menor grau, lactantes não alcançam as porções recomendadas de laticínios, carnes e especialmente peixes, mesmo em países de alta renda.
  4. Fatores sociais e comportamentais influenciam a adesão global às diretrizes e, por consequência, ao consumo de alimentos de origem animal, embora o artigo não isole esses efeitos exclusivamente para esse grupo de alimentos.
  5. Melhor adesão ao conjunto das recomendações, que inclui alimentos de origem animal ao lado de frutas, vegetais e outros grupos, está associada a desfechos gestacionais e infantis mais favoráveis, mas ainda são necessários estudos mais detalhados e padronizados para esclarecer o papel específico de cada grupo alimentar.

Em resumo, o trabalho de Rahmannia e colaboradores reforça que, nas diretrizes oficiais analisadas, os alimentos de origem animal têm posição relevante na alimentação de gestantes e lactantes, mas o consumo real, sobretudo de peixes, frequentemente fica abaixo do que é recomendado.

Fonte: https://doi.org/10.1017/S0954422424000283

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