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Fome e obesidade na Bahia: o paradoxo do prato que não existe


O editorial “O paradoxo do prato”, publicado pelo A TARDE em 31 de outubro de 2026, apresenta como contradição a convivência entre fome e obesidade na Bahia. A explicação, porém, é bem menos misteriosa: uma pessoa pode consumir calorias suficientes para ganhar peso e, ainda assim, ter uma alimentação pobre em nutrientes. Os dados sobre a comida adquirida pelas famílias baianas ajudam a entender como isso acontece.

O curioso é que o editorial chama a situação de “inequívoca figura de paradoxo” e termina com duas palavras: “Sem paradoxo”. A conclusão está correta; o paradoxo parece ter servido mais ao título do que à explicação. Ao falar em combate à fome e “estímulo ao sobrepeso”, o texto também sugere uma relação que não demonstra: ampliar o acesso à alimentação não é o mesmo que incentivar a obesidade.

Fome e obesidade não são opostos

O editorial coloca lado a lado o combate à fome e o aumento do excesso de peso, como se uma realidade anulasse a outra. Não anula. A Organização Mundial da Saúde descreve há anos a chamada dupla carga da má nutrição: carências alimentares e deficiências nutricionais podem coexistir com sobrepeso e obesidade, inclusive dentro da mesma comunidade.

Insegurança alimentar também não significa obrigatoriamente passar dias sem comer. Ela pode começar com a preocupação de faltar comida ou com a necessidade de trocar alimentos nutritivos por alternativas mais acessíveis. Na Bahia, 37,8% dos domicílios apresentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024; em 5,4%, a situação era grave.

O jornal cita ainda um crescimento de 54,5% na proporção de adultos com obesidade acompanhados pelo Sisvan ao longo de dez anos. É um sinal relevante para os serviços de saúde, mas não equivale a dizer que a obesidade cresceu exatamente 54,5% entre todos os adultos baianos: o sistema registra pessoas atendidas e acompanhadas, não uma amostra representativa de toda a população.

O que os baianos compravam para comer?

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2017–2018, divulgada pelo IBGE, mostrou a participação dos alimentos nas calorias disponíveis nos domicílios da Bahia:

  • Arroz: 11,5%.
  • Açúcar: 11,0%.
  • Pães: 9,3%.
  • Óleo vegetal: 8,8%.
  • Feijão: 6,7%.
  • Farinha: 5,4%.
  • Carne de aves: 4,7%.
  • Carne bovina: 3,4%.

Arroz, açúcar, pães e farinha, juntos, representavam 37,2% das calorias disponíveis. O açúcar sozinho contribuía com mais energia do que as carnes de aves e bovina somadas. Para cada 100 calorias adquiridas para consumo doméstico, cerca de 11 vinham do açúcar e pouco mais de três da carne bovina.

Com esse retrato, seria estranho colocar a carne no centro da explicação para a obesidade e deixar o açúcar em segundo plano. O bife tinha participação relativamente pequena nas compras, mas frequentemente recebe um papel de protagonista no debate sobre alimentação.

Esses percentuais não representam tudo o que cada baiano efetivamente come: a pesquisa mede aquisições domiciliares, não desconta desperdício nem contabiliza as refeições feitas fora de casa. Também não é um levantamento de 2026. O IBGE anunciou os primeiros resultados da nova POF 2024–2025 para 27 de novembro de 2026. Até lá, esse é o retrato estadual detalhado disponível para discutir a composição das compras.

O problema não cabe apenas na palavra “ultraprocessados”

O A TARDE tem razão ao chamar atenção para bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados. O que falta é olhar para o restante da alimentação. Na pesquisa, os ultraprocessados respondiam por 14,7% das calorias domiciliares da Bahia. Já o açúcar de cozinha era classificado como ingrediente culinário processado, e boa parte dos pães aparecia entre os alimentos processados. O arroz, por sua vez, era classificado como minimamente processado.

Portanto, discutir somente embalagens chamativas e produtos industriais não resolve toda a questão. Uma refeição feita em casa também pode concentrar grandes porções de arroz, farinha, macarrão e uma bebida adoçada, enquanto a fonte de proteína fica reduzida. O fato de a comida ser caseira não torna sua composição automaticamente adequada.

Isso não coloca feijão, arroz e refrigerante no mesmo nível nutricional. O ponto é mais simples: interessa a composição do conjunto, incluindo quanto açúcar entra, quantos acompanhamentos se acumulam e qual espaço sobra para alimentos ricos em proteína e micronutrientes.

Quando o dinheiro falta, a carne costuma encolher primeiro

Há outro dado que merecia destaque. No VIGISAN Bahia, com entrevistas realizadas entre 2021 e 2022, 70,3% dos domicílios relataram ter reduzido a compra de carne nos três meses anteriores. Também diminuíram as compras de feijão (60%), frutas (54%) e arroz (51,6%). Isso descreve redução nas compras, não abandono completo desses alimentos.

Imagine uma família com orçamento apertado: para fazer o almoço render, divide uma porção pequena de carne entre várias pessoas e aumenta os acompanhamentos. O prato pode continuar cheio, embora a quantidade de proteína e de determinados nutrientes por refeição diminua. É um exemplo possível, não uma medição feita pela pesquisa.

Essa é uma parte essencial da discussão sobre acesso à comida. Uma família pode enfrentar insegurança alimentar por não conseguir manter variedade e qualidade, enquanto algum de seus integrantes vive com obesidade. Não há contradição lógica nisso.

Menos açúcar e mais alimentos nutritivos: uma discussão necessária

Se o objetivo é melhorar a alimentação, faz sentido discutir a substituição de parte do açúcar, dos pães e dos acompanhamentos ricos em amido por alimentos como ovos, peixes, frango e carne bovina. Esses alimentos fornecem proteínas de alta qualidade e nutrientes como vitamina B12, ferro e zinco, aspectos discutidos também no artigo sobre proteínas animais e comida de verdade.

Para pessoas com diabetes tipo 2, diminuir carboidratos pode ainda facilitar o controle da glicose. Uma revisão de 23 ensaios clínicos com 1.357 participantes encontrou, aos seis meses, hemoglobina glicada abaixo de 6,5% em 57% dos participantes dos grupos com menos carboidratos, contra 31% nos controles, na análise de oito estudos. A definição incluía pessoas em uso de medicamentos; sem medicação, a vantagem foi menos clara, e parte dos benefícios diminuiu aos 12 meses. A Sociedade Brasileira de Diabetes considera a redução de carboidratos uma opção para o controle glicêmico de adultos não gestantes com diabetes tipo 2.

Não se trata de exigir uma dieta única para a população nem de supor que toda porção de arroz cause obesidade. Trata-se de levar a sério uma estratégia com evidências clínicas e reconhecer o papel nutricional de alimentos de origem animal. Para uma família que mal consegue comprar carne, recomendar “comer melhor” sem discutir preço e acesso soa mais como slogan do que como solução.

O editorial acerta na preocupação, mas deixa a análise incompleta

O texto do A TARDE defende educação alimentar, acesso à comida de verdade e atenção ao excesso de peso. São preocupações legítimas. O que enfraquece o editorial é transformar em paradoxo uma situação já conhecida e concentrar a crítica nos ultraprocessados sem examinar a participação de açúcar, pães, farinhas e alimentos animais nas compras dos baianos.

Combater a fome exige comida suficiente. Melhorar a saúde metabólica exige também olhar para a qualidade e a distribuição do que se come. O próprio editorial termina admitindo que não há paradoxo. Os números ajudam a explicar por quê: um prato pode estar cheio de calorias e continuar pobre em nutrientes importantes. E, antes de responsabilizar a carne pela epidemia de obesidade, talvez convenha observar quanto espaço ela realmente ocupa nesse prato.

Fonte: https://atarde.com.br/opiniao/o-paradoxo-do-prato-1407791

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