A ideia de que a demência seria apenas uma consequência inevitável da idade está sendo cada vez mais questionada. Uma análise publicada no JAMA em setembro de 2026 reuniu evidências segundo as quais uma parcela importante do risco de demência está associada a fatores modificáveis. A estimativa mais citada vem da Comissão Lancet de 2024: até 45% dos casos poderiam, em teoria, ser prevenidos ou adiados se determinados fatores de risco fossem eliminados ou reduzidos.
Esse número, porém, precisa ser interpretado corretamente. Ele não significa que 45% das pessoas conseguiriam evitar a demência apenas mudando hábitos. Trata-se de uma estimativa populacional baseada em associações entre fatores de risco e ocorrência da doença. Parte importante dessa literatura é observacional e, portanto, não permite concluir causalidade. Ainda assim, alguns fatores já contam também com apoio de ensaios clínicos randomizados.
O risco de demência é alto, mas não é totalmente imutável
Uma estimativa norte-americana de 2025 calculou que o risco de desenvolver demência ao longo da vida após os 55 anos é de aproximadamente 42%. O risco foi maior em alguns grupos, como mulheres, adultos negros e portadores da variante genética APOE ε4.
Ao mesmo tempo, ainda não existe um tratamento comprovado capaz de impedir o aparecimento da doença em uma pessoa cognitivamente normal. Medicamentos como lecanemabe estão sendo estudados antes do surgimento dos sintomas, mas seu papel preventivo ainda não foi estabelecido.
Por isso, a atenção dos pesquisadores vem se deslocando também para algo aparentemente mais simples: reduzir fatores que prejudicam vasos sanguíneos, metabolismo e saúde geral ao longo de décadas.
Pressão alta, diabetes e cigarro aparecem repetidamente
Entre os fatores discutidos estão hipertensão, diabetes, tabagismo, sono inadequado, perda auditiva, colesterol LDL elevado e isolamento social. Eles não apresentam todos o mesmo nível de evidência, mas apontam para uma ideia importante: saúde cerebral e saúde cardiovascular estão intimamente relacionadas.
Um estudo observacional citado pelo JAMA acompanhou cerca de 12 mil adultos norte-americanos, com média de 56 anos, durante uma mediana de 26 anos. Os pesquisadores observaram três fatores bastante conhecidos: hipertensão, diabetes e tabagismo atual.
As pessoas que não apresentavam nenhum desses fatores tiveram aproximadamente 30 anos de sobrevida livre de demência, contra 17,5 anos entre aquelas que apresentavam os três.
A diferença chama atenção, mas não significa que eliminar esses fatores acrescentaria automaticamente 12,5 anos sem demência. Como o estudo foi observacional, outros fatores podem ter contribuído para o resultado.
O controle da pressão arterial tem evidências particularmente relevantes
Entre os fatores modificáveis, a hipertensão é um dos exemplos em que existem resultados de ensaios clínicos.
No estudo CRHCP-3, quase 34 mil pessoas com hipertensão não controlada foram randomizadas para uma estratégia de tratamento com meta de pressão inferior a 130/80 mmHg ou para os cuidados habituais. Após aproximadamente quatro anos, o grupo submetido ao controle mais intensivo apresentou menor risco de demência por todas as causas.
Dados de seguimento apresentados posteriormente indicaram que o benefício persistiu ao longo de sete anos, com redução relativa de aproximadamente 15% no risco de demência em comparação aos cuidados habituais.
Outro ensaio, o SPRINT MIND, encontrou um resultado semelhante, mas com uma diferença importante. O tratamento intensivo da pressão arterial reduziu significativamente o risco de comprometimento cognitivo leve, estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência, mas não produziu uma redução estatisticamente significativa nos casos de demência propriamente dita.
Esse resultado ajuda a entender por que é inadequado transformar prevenção de demência em uma promessa simples. Alguns desfechos melhoram; outros ainda permanecem incertos.
E quando vários hábitos são modificados ao mesmo tempo?
Outra estratégia de pesquisa consiste em atuar simultaneamente sobre diversos fatores. Em vez de testar apenas exercício, alimentação ou pressão arterial, os pesquisadores combinam várias intervenções.
O estudo finlandês FINGER acompanhou aproximadamente 1.300 pessoas entre 60 e 77 anos com risco aumentado de demência. Durante dois anos, o grupo de intervenção recebeu orientações envolvendo alimentação, exercício físico, treinamento cognitivo e acompanhamento de fatores vasculares.
A melhora global nos testes cognitivos foi, em média, 25% maior no grupo de intervenção do que entre aqueles que receberam apenas orientações gerais de saúde.
É importante observar que isso não significa uma redução de 25% nos casos de demência. O desfecho analisado foi o desempenho em testes cognitivos.
O estudo US POINTER reforçou essa estratégia
O ensaio US POINTER, publicado no JAMA em 2025, avaliou cerca de 2.100 adultos de 60 a 79 anos com risco aumentado de declínio cognitivo.
Uma intervenção estruturada e mais intensa produziu benefício estatisticamente maior na cognição global do que uma abordagem autoguiada. Entretanto, a diferença entre os grupos foi relativamente pequena.
Os próprios pesquisadores ressaltaram que ainda será necessário acompanhar os participantes por mais tempo para saber se essa melhora em testes cognitivos realmente se traduzirá em menos casos de comprometimento cognitivo ou demência.
Nem todos os estudos apresentam resultados simples
O estudo Look AHEAD mostra bem essa complexidade. Uma intervenção prolongada envolvendo restrição calórica e maior atividade física foi aplicada a pessoas com diabetes.
O efeito sobre comprometimento cognitivo variou conforme o índice de massa corporal inicial. Entre participantes com sobrepeso houve menor incidência de comprometimento cognitivo. Entre pessoas com obesidade o mesmo benefício não apareceu e, no grupo com maior grau de obesidade, a incidência chegou a aumentar.
Os pesquisadores não encontraram uma explicação simples baseada na quantidade ou na trajetória da perda de peso. Os resultados também não significam que pessoas com obesidade devam evitar o emagrecimento, já que a perda de peso pode trazer benefícios importantes para diabetes e saúde cardiovascular.
Por que é tão difícil estudar prevenção da demência?
Um dos grandes problemas é o tempo. A demência não costuma surgir de maneira abrupta. Alterações biológicas associadas à doença podem começar 20 anos ou mais antes dos sintomas clínicos.
Isso significa que um ensaio realmente capaz de demonstrar se determinada intervenção impede demência pode exigir muitos anos de acompanhamento. Alguns participantes morrem por outras causas antes de desenvolver sintomas, outros abandonam o estudo e mudanças de comportamento são difíceis de manter durante décadas.
Por isso, grande parte do conhecimento disponível ainda vem de estudos observacionais. Novos exames sanguíneos capazes de detectar biomarcadores associados à doença de Alzheimer podem facilitar pesquisas futuras, permitindo observar alterações biológicas antes do aparecimento dos sintomas.
O que isso significa na prática?
A evidência atual não permite afirmar que existe uma fórmula capaz de impedir a demência. Entretanto, ela sugere que cuidar de fatores modificáveis, principalmente a partir da meia-idade, pode contribuir para preservar a saúde cerebral.
Controlar adequadamente a pressão arterial e o diabetes, não fumar, manter atividade física, cuidar do sono, investigar e tratar perda auditiva quando presente e preservar vínculos sociais são medidas que aparecem repetidamente na literatura sobre saúde cerebral. Além disso, muitas delas já possuem benefícios conhecidos para coração, vasos sanguíneos, metabolismo e qualidade de vida.
Em resumo
A estimativa de que até 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados deve ser entendida como uma estimativa de saúde pública, e não como uma garantia individual.
Idade, genética e outros processos biológicos não modificáveis continuam desempenhando papel importante. Também existem diferenças consideráveis na força das evidências para cada fator de risco.
A mensagem mais consistente é que o cérebro não funciona isoladamente. O que acontece com pressão arterial, glicemia, vasos sanguíneos, sono, atividade física e interação social durante décadas também pode influenciar a maneira como o cérebro envelhece.
Fonte: https://doi.org/10.1001/jama.2026.9439
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