Samuel Hearne ingressou na Companhia da Baía de Hudson por volta dos 20 anos, sendo enviado ao Forte Príncipe de Gales, um importante posto comercial na costa da Baía de Hudson. Durante anos, ele trabalhou no comércio de peles com os esquimós, explorando a costa ao norte do Rio Churchill. Sua habilidade e entusiasmo chamaram a atenção de Moses Norton, governador do forte, que o escolheu para liderar uma expedição em busca de uma mina de cobre supostamente existente nas vastas terras a oeste da Baía de Hudson.
Após dois fracassos, Hearne conseguiu completar sua terceira expedição, explorando profundamente o território até o Oceano Ártico. Décadas depois, outro explorador percorreu a mesma região e encontrou condições semelhantes às descritas por Hearne, com uma importante mudança: a população nativa havia se transformado. Os Chipewyans, que antes dominavam a área, desapareceram, sendo substituídos por grupos dispersos de esquimós.
Esses novos habitantes, que haviam migrado do litoral do Ártico, haviam se adaptado completamente à vida no interior, longe do oceano. Sua sobrevivência dependia quase exclusivamente do caribu, um animal essencial para sua alimentação e vestuário. Eles caçavam caribus ao longo dos rios e lagos, utilizando sua carne como principal fonte de nutrição e aproveitando sua pele para roupas e abrigos. Esse modo de vida era tão intenso que os esquimós praticamente haviam abandonado qualquer vínculo com o ambiente marinho de onde vieram.
Traços de antigos acampamentos indígenas podiam ser vistos ao longo dos rios Dubawnt e Kazan, mas estavam abandonados havia muito tempo. A mudança na ocupação humana da região mostrava como a dieta e os recursos naturais disponíveis moldavam profundamente a cultura e os costumes das populações nativas. Os esquimós, ao se afastarem do mar, passaram a depender completamente da fauna terrestre, com o caribu se tornando a base absoluta de sua subsistência.
Fonte: https://amzn.to/3HDiaXj
*Íntegra disponível na newsletter Uma jornada do Forte do Príncipe de Gales ao Oceano do Norte: o relato de Samuel Hearne
A Journey from Prince of Wales’s Fort in Hudson’s Bay to the Northern Ocean, publicado em 1795, é o relato de Samuel Hearne sobre suas expedições pelo norte do atual Canadá entre 1769 e 1772. A obra documenta não apenas uma exploração geográfica, mas também a alimentação, a caça, os períodos de fome e os modos de vida dos povos indígenas encontrados durante a viagem. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
Hearne foi enviado pela Hudson’s Bay Company com uma missão ambiciosa: localizar depósitos de cobre, investigar a possibilidade de uma passagem para o noroeste e registrar o território ainda pouco conhecido pelos europeus. No prefácio, o próprio autor explica que decidiu reunir seus diários e acrescentar observações sobre a região e sobre os “modos de vida, maneiras e costumes” dos habitantes locais. :contentReference[oaicite:1]{index=1}
Uma viagem em que encontrar comida fazia parte da sobrevivência
Para quem lê o livro hoje, um dos aspectos mais marcantes é perceber como alimentação e deslocamento eram inseparáveis. Não havia possibilidade de carregar provisões suficientes para uma viagem de muitos meses. Hearne explica que o viajante precisava depender do próprio território para obter comida e até parte das roupas utilizadas durante a jornada.
Isso transformava a disponibilidade de animais em uma questão literalmente vital. Veados, bois-almiscarados, alces, bisões, castores, peixes e diferentes aves aparecem repetidamente no relato. Quando a caça era abundante, havia comida em quantidade. Quando os animais desapareciam ou as redes de pesca deixavam de produzir, a situação podia mudar rapidamente para fome.
Em uma das primeiras tentativas, o grupo passou vários dias praticamente sem comer. Hearne relata que, durante cinco dias anteriores ao início da retirada, não haviam conseguido sequer meia perdiz por pessoa em alguns dias, chegando a passar outros sem um único bocado. O retorno só se tornou menos desesperador quando voltaram a encontrar perdizes e posteriormente veados. :contentReference[oaicite:2]{index=2}
Carne, peixe e aves formavam a base alimentar encontrada pelo caminho
O relato deixa claro que os alimentos de origem animal ocupavam uma posição central naquele ambiente. Em diferentes momentos aparecem carne de veado, boi-almiscarado, alce, bisão e castor, além de peixes como truta e lúcio, e aves como gansos, patos e perdizes.
Em outra parte da jornada, Hearne descreve uma situação quase oposta à fome: havia tantos veados que os caçadores obtinham os animais necessários sem sequer precisar sair muito da rota. Lagos e rios forneciam peixes, enquanto gansos, perdizes, gaivotas e outras aves acrescentavam variedade à alimentação. :contentReference[oaicite:3]{index=3}
Mas não se tratava de uma alimentação composta literalmente apenas por carne durante todo o ano. O livro registra consumo ocasional de alimentos vegetais. Em determinado período de escassez, por exemplo, o grupo permaneceu cinco ou seis dias praticamente sustentado por algumas cranberries encontradas onde a neve havia derretido, enquanto as redes e os anzóis produziram apenas três pequenos peixes. :contentReference[oaicite:4]{index=4}
O episódio é particularmente esclarecedor porque mostra a diferença entre disponibilidade e preferência. As plantas existiam, mas em determinadas regiões e épocas eram muito escassas para constituir uma fonte alimentar previsível. A caça e a pesca continuavam sendo decisivas para a subsistência.
A gordura não era descartada
Outro detalhe interessante é o aproveitamento da gordura animal. Hearne descreve refeições em que perdizes eram cozidas em uma panela cheia de gordura. Segundo ele, o resultado era muito mais saboroso do que quando as aves eram preparadas apenas em água ou caldo. O explorador também relata ter comido pele de veado cozida em gordura. :contentReference[oaicite:5]{index=5}
Em uma situação de fome, o retorno de um caçador com sangue e partes de dois veados permitiu preparar um caldo com sangue, gordura e pequenos pedaços de carne. Hearne descreveu aquela refeição como especialmente valiosa depois de vários dias com pouquíssima comida. :contentReference[oaicite:6]{index=6}
Isso ajuda a entender que o animal não era visto apenas como uma fonte de carne muscular magra. Sangue, gordura e outras partes eram aproveitados, algo coerente com um ambiente em que desperdiçar alimento podia significar enfrentar fome pouco tempo depois.
O aproveitamento do animal ia muito além do que hoje chega ao supermercado
No capítulo dedicado aos costumes dos povos do norte, Hearne registra práticas alimentares que podem parecer incomuns ao leitor moderno. A carne podia ser consumida crua quando não havia madeira suficiente para fazer fogo. Em outras situações, recipientes de casca de árvore eram utilizados para cozinhar alimentos com pedras previamente aquecidas. :contentReference[oaicite:7]{index=7}
Uma das preparações descritas misturava sangue de veado, gordura, pequenos pedaços de carne e o conteúdo parcialmente digerido encontrado no estômago do animal. Hearne inicialmente demonstrou resistência à preparação, mas afirma que posteriormente passou a considerá-la muito saborosa. :contentReference[oaicite:8]{index=8}
O autor também relata o consumo do conteúdo do estômago dos veados durante o inverno, quando esses animais se alimentavam de um musgo branco. Fetos de animais caçados também eram considerados iguarias. Esses relatos mostram um aproveitamento muito mais amplo das carcaças do que aquele característico da alimentação urbana moderna. :contentReference[oaicite:9]{index=9}
Conhecimento indígena tornou a expedição possível
Embora a obra tenha sido escrita por um europeu trabalhando para uma companhia comercial britânica, a própria narrativa evidencia que Hearne dependia profundamente do conhecimento indígena para sobreviver e se deslocar.
A terceira expedição contou especialmente com Matonabbee, líder indígena que conhecia o território. Os grupos locais sabiam localizar animais, pescar sob o gelo, construir abrigos, fabricar roupas, atravessar rios e identificar caminhos que não existiam em nenhum mapa europeu.
O livro dedica capítulos inteiros aos métodos de caça, pesca, fabricação de canoas e trenós, vestimentas, costumes e animais encontrados na região. O volume termina inclusive com uma extensa descrição de mamíferos, aves, peixes e plantas observados no norte da Baía de Hudson. :contentReference[oaicite:10]{index=10}
O relato também contém episódios violentos
A obra não deve ser romantizada. Um dos episódios mais conhecidos ocorreu próximo ao rio Coppermine, quando integrantes indígenas que acompanhavam Hearne atacaram um acampamento Inuit. O próprio sumário da edição de 1795 descreve o massacre, incluindo a morte de uma jovem próxima ao explorador e a destruição do acampamento. Hearne relata ter ficado profundamente perturbado com o ocorrido. :contentReference[oaicite:11]{index=11}
Também é necessário lembrar que se trata de um texto europeu do século XVIII. Algumas descrições dos povos indígenas carregam julgamentos e a linguagem característica daquele período. Por isso, o livro é valioso como fonte histórica primária, mas as interpretações pessoais do autor não devem ser confundidas automaticamente com observações objetivas.
O que esse relato permite concluir sobre alimentação
O livro de Samuel Hearne não é um estudo nutricional e não permite concluir que uma dieta predominantemente animal seja superior, inferior ou ideal para a saúde moderna. Não existem grupos de comparação, avaliação nutricional sistemática, exames laboratoriais ou acompanhamento de desfechos de saúde.
O que a obra documenta é algo diferente e historicamente relevante: populações humanas viviam em regiões extremamente frias e com disponibilidade vegetal limitada recorrendo intensamente à caça e à pesca. Carne, gordura, sangue, peixes, aves e diferentes partes dos animais constituíam recursos alimentares importantes, enquanto alimentos vegetais aparecem de maneira muito mais dependente da estação e do local.
O próprio padrão de fome observado durante as expedições reforça essa dependência. Quando veados, peixes e aves estavam disponíveis, havia alimento abundante. Quando esses recursos desapareciam, períodos prolongados de privação podiam começar rapidamente.
Em resumo
Publicado em 1795, o relato de Samuel Hearne oferece uma janela rara para a vida no norte do Canadá no século XVIII. Ele descreve uma realidade alimentar muito diferente daquela encontrada em sociedades modernas: comida precisava ser obtida diretamente do ambiente, e os animais forneciam não apenas carne, mas gordura, sangue, pele e outras partes aproveitáveis.
A importância histórica do livro está justamente nisso. Ele não demonstra qual dieta alguém deve seguir hoje, mas documenta claramente a capacidade humana de organizar sua alimentação em torno dos recursos disponíveis. Nas regiões percorridas por Hearne, esses recursos eram, em grande parte, animais.
Fonte: https://doi.org/10.5962/bhl.title.35615
Título do post: Uma jornada do Forte do Príncipe de Gales ao Oceano do Norte: o relato de Samuel Hearne
Palavras-chave: História e Antropologia, Livros, Alimentos de Origem Animal, Dietas à Base de Animais, Gordura
Meta description: Alimentação indígena no norte do Canadá: veja como carne, gordura, peixe e caça sustentavam populações descritas por Samuel Hearne em 1795 (138 caracteres)
Slug: alimentacao-indigena-norte-canada
Title da imagem principal: Samuel Hearne e a alimentação no norte do Canadá
Alt da imagem principal: Página de título da edição de 1795 do relato de Samuel Hearne sobre sua viagem pela Baía de Hudson ao norte do Canadá
