A dieta cetogênica pode reduzir bastante a gordura corporal, mas ainda não há evidência suficiente para afirmar que a cetose, por si só, protege a massa muscular durante o emagrecimento. Essa é a principal conclusão de uma revisão narrativa publicada em setembro de 2026 na revista Nutrients, que analisou estudos clínicos, pesquisas metabólicas e experimentos sobre cetose, massa magra e músculo esquelético.
O ponto mais importante é que perder “massa magra” em um exame não significa necessariamente perder a mesma quantidade de músculo. Em dietas cetogênicas, essa diferença pode ser especialmente importante porque a redução de carboidratos diminui os estoques de glicogênio e a água associada a eles.
O que foi estudado
Os pesquisadores analisaram estudos publicados até 14 de agosto de 2026 para responder a uma pergunta específica: a cetose ajuda a preservar o músculo enquanto ocorre perda de peso?
A revisão incluiu estudos de dieta cetogênica, dietas cetogênicas de muito baixa energia, cetonas exógenas, metabolismo de proteínas, composição corporal, força e desempenho físico. Também foram avaliadas pesquisas que utilizaram DXA, bioimpedância, tomografia e ressonância magnética.
Essa distinção entre métodos é fundamental. Massa livre de gordura inclui água, glicogênio, órgãos, tecido conjuntivo, minerais e proteínas. Portanto, massa livre de gordura não é sinônimo de músculo esquelético.
Por que uma dieta cetogênica pode parecer reduzir massa muscular
Quando os carboidratos são bastante reduzidos, os estoques de glicogênio diminuem. Como o glicogênio é armazenado junto com água, parte dessa água também desaparece.
Na balança isso aparece como perda rápida de peso. Em exames como DXA ou bioimpedância, parte dessa mudança pode ser classificada como redução de massa magra.
A própria revisão ilustra esse problema na Figura 2: durante o início da cetose, glicogênio e água diminuem e podem voltar parcialmente após a reintrodução de carboidratos. O músculo contrátil, entretanto, não necessariamente mudou na mesma proporção.
Esse efeito já foi demonstrado experimentalmente. Em atletas, a manipulação dos estoques de glicogênio alterou a estimativa de massa magra pelo DXA em aproximadamente 2% a 3%. Em outro experimento, desidratação seguida de reidratação e reposição de glicogênio provocou mudanças de mais de 2 kg na massa magra estimada em apenas 48 horas — tempo curto demais para representar uma alteração equivalente de tecido muscular. Esses estudos podem ser consultados aqui e aqui.
O que os estudos clínicos encontraram
Dietas cetogênicas utilizadas para emagrecimento geralmente produziram reduções importantes de gordura corporal. Porém, quando comparadas a dietas não cetogênicas, algumas meta-análises encontraram uma pequena redução adicional de massa livre de gordura.
Uma meta-análise de 18 ensaios clínicos randomizados encontrou aproximadamente 0,81 kg a mais de redução de massa livre de gordura e 1,40 kg a mais de gordura corporal perdida nos grupos cetogênicos.
Uma meta-análise posterior encontrou diferença média de aproximadamente 0,48 kg de massa livre de gordura em comparação com as dietas-controle. Entretanto, quando os pesquisadores analisaram especificamente os resultados relatados pelos estudos como “massa muscular”, não apareceu diferença estatisticamente significativa entre as dietas. Os testes de agachamento e supino também não mostraram diferenças significativas de força.
Entre pessoas que realizavam treinamento contra a resistência, outra meta-análise encontrou uma diferença de aproximadamente 1,26 kg desfavorável às dietas cetogênicas na massa livre de gordura. Mais uma vez, porém, esse número não pode ser automaticamente transformado em “1,26 kg de músculo perdido”, porque a maioria dos estudos utilizou métodos sensíveis à água e ao glicogênio.
Quando energia e proteína foram controladas
Um dos estudos mais interessantes comparou durante seis semanas uma dieta cetogênica, a mesma dieta acrescida de sais de beta-hidroxibutirato e uma dieta com baixo teor de gordura. A ingestão energética foi semelhante e a proteína foi prescrita em aproximadamente 1,5 g por quilo de peso corporal ideal por dia.
Houve redução de massa magra e da área muscular da coxa ao longo do emagrecimento, mas não houve diferença significativa entre a dieta cetogênica e a dieta com baixo teor de gordura. Aumentar artificialmente os níveis de cetonas também não modificou os resultados de composição corporal. O estudo está disponível neste link.
Esse resultado enfraquece a ideia de que níveis mais elevados de cetonas necessariamente protegem o músculo durante uma restrição energética.
As cetonas possuem efeitos no metabolismo muscular?
Sim. Estudos experimentais mostram que corpos cetônicos podem interferir nas vias que controlam síntese e degradação de proteínas.
Alguns experimentos encontraram aumento de sinalização relacionada à mTORC1 ou redução da degradação proteica. Um pequeno estudo clássico em humanos, por exemplo, observou redução de aproximadamente 30% na oxidação de leucina e aumento de cerca de 10% na síntese de proteínas musculares após administração de beta-hidroxibutirato.
Entretanto, outros experimentos não encontraram melhora no balanço líquido de proteínas musculares. Em um estudo metabólico de quatro semanas com mulheres com obesidade submetidas a apenas 600 kcal por dia, a dieta cetogênica chegou a produzir balanço nitrogenado cumulativo mais negativo que uma dieta não cetogênica com quantidade semelhante de proteína.
Por isso, a revisão alerta contra um salto comum de interpretação: mostrar que uma cetona ativa uma determinada via celular não prova que uma dieta cetogênica preservará mais músculo depois de semanas ou meses.
O que realmente parece proteger o músculo
A evidência mais consistente continua apontando para dois fatores: proteína suficiente e treinamento contra a resistência.
Na literatura sobre emagrecimento em geral, ingestões de aproximadamente 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo por dia são associadas a melhor preservação de massa magra, embora a quantidade ideal precise considerar idade, percentual de gordura, déficit energético, função renal e nível de atividade física.
Uma meta-regressão citada pelos autores encontrou maior preservação de massa livre de gordura quando a ingestão proteica ultrapassava aproximadamente 1,05 g/kg/dia. Em mulheres fisicamente ativas submetidas a restrição energética de 30%, cerca de 2,0 a 2,2 g/kg/dia preservaram melhor o tecido magro.
O treinamento contra a resistência acrescenta algo que a proteína sozinha não consegue fornecer: estímulo mecânico diretamente sobre o músculo. Uma revisão sistemática e meta-análise citada no artigo reforça que esse tipo de exercício ajuda a preservar massa livre de gordura e aumentar força durante programas de emagrecimento.
Limitações da evidência
A revisão é narrativa, e não uma nova meta-análise. Os estudos incluídos utilizaram quantidades diferentes de carboidratos, proteínas e calorias, durações distintas e diferentes níveis de atividade física. Muitos sequer confirmaram sistematicamente a cetose por meio da medição de corpos cetônicos.
Outro problema é que poucos estudos utilizaram ressonância magnética ou tomografia para medir diretamente o músculo. DXA e bioimpedância aparecem com muito mais frequência, justamente os métodos mais sujeitos à influência das mudanças de água e glicogênio.
Os próprios autores afirmam não ter identificado um ensaio de longo prazo que, ao mesmo tempo, comparasse dietas cetogênicas e não cetogênicas com calorias e proteína iguais, confirmasse a cetose e utilizasse ressonância ou tomografia juntamente com testes de força e desempenho físico.
Em resumo
A dieta cetogênica pode ser uma estratégia eficiente para reduzir gordura corporal e peso, especialmente em protocolos estruturados para pessoas com obesidade. Entretanto, a evidência atual não demonstra que a cetose possua uma capacidade especial de preservar músculo.
Também não demonstra que a cetose destrua músculo.
Pequenas reduções de “massa magra” observadas em alguns estudos podem representar uma combinação de alterações de água, glicogênio, tecido adiposo livre de gordura e tecido muscular. Sem métodos de imagem mais específicos e avaliação de força, transformar automaticamente essas mudanças em “perda muscular” pode produzir uma conclusão maior do que os dados permitem.
Conclusão
A principal mensagem da revisão é menos dramática e mais útil: durante o emagrecimento, a preservação muscular parece depender muito mais da quantidade adequada de proteína, do tamanho do déficit energético e do treinamento contra a resistência do que da presença ou ausência de cetose.
Até que estudos melhores sejam realizados, nem a promessa de que “a cetose protege os músculos” nem a afirmação de que “dieta cetogênica causa perda muscular” estão devidamente demonstradas pela evidência disponível.
